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Artigo pelo Cel R1 Cláudio Skora Rosty -  ver Curriculum Vitae

CADERNOS DE GUERRA - DESENHOS DE SALVAÇÃO

Aqui estão, 72 anos depois, os desenhos do Mestre Carlos Scliar, como prova de resistência ao totalitarismo e a intolerância de um mundo prestes a sucumbir na escuridão do abismo provocado pela 2ª Guerra Mundial.

Ele os chama de “Desenhos de Salvação”; e os são verdadeiramente, diante da complexa ordem de um mundo incapaz de resolver suas diferenças.

Estes magistrais desenhos, econômicos no seu traçado, mas firme na representação são pungentes e luminosos, fortes e carismáticos. São desenhos de guerra.

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São também anotações cheias de perplexidade do cotidiano de um jovem soldado ameaçado pela brutalidade de uma guerra.

Mas são sobretudo, a permanência de um registro, de quem viveu perto da morte e, com sabedoria, nos apresenta o que a obra de arte pode oferecer: a perenidade afetiva do momento vivido.

Carlos Scliar um jovem franzino, gaúcho de Santa Maria, cabo da arma de artilharia do 2º escalão da FEB, que além do fuzil levou para o “front italiano” um caderno sem pautas, lápis e crayon.

As folhas do caderno logo acabaram e o jovem combatente começou a utilizar folhas de embrulho e até mesmo papel de pão para registrar o que via e o que sentia.

Essa relíquia histórica, que o próprio pintor chamou de “Caderno de Guerra”, se constitui hoje, no mais precioso registro do dia-a-dia das tropas brasileiras em solo italiano.

Ele desenhou, basicamente, paisagens rurais, como Monte Castello, figuras simples de camponeses, seus colegas da Força Expedicionária Brasileira, eles na hora do rancho e alguns autorretratos.

São ao todo, no caderno de guerra, 73 maravilhosos desenhos, o mais expressivo ilustra a abertura desta inserção.

Em alguns desenhos dele, eu vejo sentimento de tristeza monótona da melancolia da guerra.

Neste caderno não estão as imagens mais dolorosas, nem as mais cheias de movimento da guerra, vividas por nossos heróis.

As imagens deste Caderno não respondem as perguntas sobre a guerra, nem contam as passagens do conflito.

Mas essas evocações sóbrias comoverão, ao longo do tempo, os homens que não viveram a forte e amarga aventura.

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O cabo artilheiro Carlos Scliar não era um repórter, nem estava em missão de registrar o conflito diário. Trabalhava na Central de Tiro do I Btl do 1º GAAuR; mas às vezes largava o transferidor sobre a carta e, olhando a paisagem cinzenta pela janela de vidro partido, esquecia o controle horizontal e passava a desenhar.

Mas uma coisa foi para mim motivo constante de conforto e alegria, quando estive na Itália. Foi ouvir, dos camponeses das montanhas de hoje, o que vocês pracinhas deixaram lá. Retratado neste álbum, a palavra “brasiliano” pronunciada como um aceno de saudade e de carinho. Para esses italianos da montanha Toscana, a palavra “brasiliano” soa ainda, “graças a Deus”, como uma senha de amigo: ela faz abrir o sorriso, os braços e a garrafa de vinho sobre a mesa.

Palavras de Carlos Scliar.

“Estes desenhos foram realizados nas minhas horas de folga, de minha função de controlador horizontal na central de tiro na artilharia da FEB, nos 11 meses que permaneci na Itália, durante a Guerra e a bordo do navio D. Pedro I, na volta.

                Sinto que foram esses desenhos, quase mil, não sei exatamente quantos, tantos rasguei, quase tantos quantos guardei.

São esses desenhos, apontamentos do meu entorno: que retratei os chefes, os companheiros, os transportes, as famílias italianas que nos hospedavam, os interiores, das salas, dos quartos, das cozinhas e das vilas e cidades, das paisagens, dos jardins e flores, tudo o que me cercava, e até as catedrais.

Foram esses desenhos que me salvaram.

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Todos os dias pareciam os últimos, a tensão era permanente.

Através dos desenhos, sem me dar conta eu revalorizava a vida, modifiquei minha visão e redescobri o mundo, percebi que ele poderia ser essencial e belo, salvei minha cuca!

Sim, tenho certeza que posso classificá-los como “Desenhos de Salvação!”

“Para mim, desenhar significava fugir dos horrores da guerra.

Nunca desenhei cena de guerra, mas momentos de repouso de vida, porque era a vida que eu queria representar”.

Concito todos que lerem esta inserção a saudarmos o trabalho de Carlos Scliar, com um minuto de silêncio em sua memória...

Obrigado!

Inserção sobre o Caderno de Guerra de Carlos Scliar do Cel Cláudio Skora Rosty – da Seção de Pesquisa Histórica do CEPHiMEx no VI SENAB – 2ª GM – Tema: iconografia, fotografias, ilustrações e imaginário da FEB, realizada no Espaço Cultural Laguna (13 Jun 17).

 

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