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Artigo pelo General de Exército Paulo Cesar Castro    Curriculum Vitae

A Marinha do Brasil convidou e proporcionou ao Exército Brasileiro todo o suporte necessário para que oficiais-generais participassem da OPERANTAR[i], viagem de apoio à Estação Antártica Comandante Ferraz[ii].Venturoso e aventureiro empolgado rumei para aquela inédita missão nos idos de outubro de 2006, quem diria?

Ao vasculhar a memória, apraz-me, neste artigo, transmitir algumas curiosidades daquela jornada ímpar, a par de mencionar aspectos indispensáveis à compreensão do todo que envolve tão complexo empreendimento profissional, repetido todos os anos para manter o pavilhão brasileiro hasteado no continente Antártico[iii] e preservar os direitos nacionais no contexto do Tratado da Antártica[iv].

Surpresa na apresentação da comitiva: os pinguins de Magalhães:

Estávamos na sala de embarque do Correio Aéreo Nacional, no Rio de Janeiro. Qual não foi nosso espanto quando fomos apresentados a alguns pinguins que levaríamos de volta às respectivas pinguineiras. Eram aves que, impulsionadas por correntes marítimas, chegaram a praias fluminenses e haviam sido tratadas por experientes cientistas para uma longa viagem de regresso a seus habitats originais.

Embarcados no C-130, Hércules, da Força Aérea Brasileira, partimos rumo a Pelotas, onde recebemos completa vestimenta para uso na Antártica. Ato contínuo, por rodovia, partimos rumo à Estação de Apoio Antártico, na Universidade Federal de Rio Grande, na qual fomos informados sobre o Tratado, o PROANTAR[v] e procedimentos a adotar doravante.

Seguem-se as surpresas quanto aos pinguins:

Os simpáticos pássaros foram embarcados em navio daquela universidade a fim de serem soltos na corrente que os levaria às origens. Explicaram-nos os motivos, dentre os quais recordo: a necessidade de perderem os odores do contato com o homem e, mormente, só eles saberem o caminho correto para a respectiva pinguinera, o que lhes permite chegar a nado e ser bem recebido e não recusado. Curioso, não? Os pinguins foram a nado!

Deixamos o Brasil no dia seguinte em longo voo com destino a Punta Arenas, no Chile, vez por outra comentando que os pinguins iriam chegar antes de nós.

Em Punta Arenas, o nome do hotel bem evocava o sítio em que nos encontrávamos: Finis Terrae.

Conhecemos uma cidade atraente pela arquitetura, limpeza, atrações turísticas e lenda. Dizem os locais que aqueles que passam a mão nos pés do índio araucano, em seu monumento, regressam a Punta.

Óbvio, não perdi a oportunidade, sem nutrir demasiada expectativa. Faltou-me fé.

Enfim, na Antártica

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À hora aprazada, estávamos reunidos no saguão do hotel, portando todos os apetrechos para embarcar rumo à Estação Antártica Presidente Eduardo Frei Montalva, citada como a mais importante do Chile. Inocularam-nos a dúvida quanto à possibilidade de atingirmos ou não nosso destino, posto que as condições climáticas e atmosféricas poderiam não permitir o pouso. Fui (fomos?) mais fervoroso e nada poderia ter sido melhor.

A postos, decolamos e encontramos condições quase ideais para aterragem. Estive entre os convidados para assisti-la da cabina de comando da portentosa aeronave, privilégio difícil de descrever.

O comandante da Estação nos levou-nos a percorrê-la, uma cidade típica chilena onde e tudo se encontra, como, por exemplo: ginásio, escola, residências e correios. Nele se carimbavam os passaportes. Pedi que marcassem o meu com todos os cinco selos chilenos, um “souvenir” e tanto.

As emoções se sobrepunham, eis que nos deparamos com o Navio de Apoio Oceonográfico Ary Rongel, em plena faina logística. Emociona ver o pavilhão nacional tremular aos ventos austrais.

O tempo e os helicópteros navais permitiram-nos derradeira façanha:

Visita à Estação Antártica Comandante Ferraz,

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 Sem êxito, procurei encontrar palavras para descrever os voos de ida e de volta. À chegada fomos calorosamente recebidos e pasmem! brindados com uísque mil e doze anos, mil pelo gelo local e doze pela bebida propriamente dita. Testemunhamos as laboriosas pesquisas científicas em curso e o convívio amistoso de militares e de civis, sempre em prol da C&T internacionais e verde-e-amarela.

Além das instalações, ofertaram-nos o máximo da tecnologia de então, telefonar de um orelhão direto para o Brasil, ora vejam só! Exultei de alegria quando minha esposa atendeu no, Rio de Janeiro.

Ao voltarmos, sobrevoamos habitats dos conhecidos pinguins imperiais, bem maiores do que os nossos pinguins de Magalhães e voltamos à América do Sul. Confesso que a ida foi mais atraente, malgrado os dedicados serviços de nossa saudosa, alta funcionária e tripulante de bordo da VARIG, a Tia Alice, que participara de dezenas de voos como o nosso, colecionando miniaturas de pinguins em sua touca de lã, a fim de registrar cada nova ida à Antártica.  

Ao regressar, o Brasil cumpriu sua tarefa de retirar o lixo produzido na Estação e de deixar o continente branco imaculadamente limpo.

Essas são, pois, as lembranças que encontrei na memória sobre a Antártica, inesquecível. Aos leitores curiosos, boa viagem e justo orgulho pela competência de nossos marinheiros e aviadores. 

 


[i] - Abreviatura naval que designa cada operação de apoio às atividades brasileiras na Antártica. Envolve navios de apoio oceanográfico, helicópteros navais e aeronaves Hércules da Força Aérea Brasileira, além de meticuloso planejamento logístico necessário ao empreendimento.

[ii] - A história da Estação, antes e após o incêndio que a consumiu parcialmente, está bem sintetizada em:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Esta%C3%A7%C3%A3o_Ant%C3%A1rtica_Comandante_Ferraz. Acesso em 30 de setembro de 2017.

[iii] Pessoalmente, adoto o conceito de cinco continentes: Eurásia África, Oceania, América e Antártica. Há estudiosos que consideram a Europa como continente, dito o “velho continente”.

[iv] - O Tratado pode ser estudado, entre outras fontes, em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_da_Ant%C3%A1rtida. Acesso em 1 de novembro de 2017.

[v] - Programa Antártico Brasileiro.

 

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