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 defesa nacional 

Por Walter Felix Cardoso Júnior *

Acredito que La Rochefoucauld estava bem próximo da verdade quando disse: “há duas espécies de curiosidade: uma provém do interesse que nos faz desejar conhecer aquilo que pode ser útil; a outra, vem do orgulho e surge de um desejo ardente de descobrir o que os outros ignoram”.

A assertiva merece respeito, pois a ânsia de ver o que não é para ser visto, de fazer o que não é para ser feito, e de bisbilhotar os segredos que estão protegidos, pode ser uma coisa tola, desnecessária, e, muitas vezes, perigosa, que normalmente redunda em dor de cabeça para os que não prezam a discrição. Numa época em que boa parte dos valores tradicional vem sendo diretamente influenciada pelas tecnologias emergentes, com visíveis prejuízos à moral tradicional, embora muitas vezes se diga o contrário, passa a ser uma questão de prudência saber identificar o que é realmente eficaz quando desejamos conhecer e antever o mundo ao nosso redor.

Por esse motivo, quando o ato de reunir informações não é alimentado pelas vaidades humanas, e quando o que realmente conta é a busca pura e simples da verdade, a curiosidade torna-se plenamente justificada. E é justamente nessa hora que mais precisamos da Inteligência – tratamento de informações, objetivando racionalizar o nosso esforço de busca sobre os dados úteis, aqueles que clareiam o horizonte e diminuem o risco do fracasso, mas que, muitas vezes, nos passam despercebidos.

Historicamente, e até o fim da Guerra Fria (final da década de oitenta do século passado), o emprego da Atividade de Inteligência, pelo seu caráter eminentemente militar, sempre foi considerado um privilégio exclusivo do Estado como instituição. Contudo, os tempos mudaram, e por ser também reconhecida como uma das principais ferramentas auxiliares em um processo de tomada de decisões importantes, a Inteligência foi inexoravelmente incorporada ao acervo dos instrumentos utilizados na gestão de negócios, marketing, comércio e planejamento estratégico, passando a “turbinar” os grandes conglomerados empresariais.

Assim sendo, o atávico apetite das pessoas por “informações quentes”, e a frenética busca por fatias de mercado, em meio a essa competitividade sem precedentes que aí está, deram origem a uma concepção diferente de Inteligência, a Inteligência Competitiva, ou Empresarial, criada para proporcionar vantagens competitivas aos setores de interesse de uma organização empresarial. Esse novo enfoque exige a busca sistemática de dados válidos e relevantes sobre algum problema ou questão específica que demande o interesse funcional dos executivos de uma empresa.

formas de gerar dados

Utilizando métodos éticos para monitorar o ambiente onde a organização atua, e rastreando as mudanças que ocorrem ao seu entorno, as empresas conhecerão, antecipadamente, a existência de ameaças e de oportunidades de mercado.

Mantendo as devidas proporções, a absorção da Inteligência no mundo dos negócios vale como uma verdadeira quebra de reserva de mercado, onde os Estados Nacionais sempre foram os únicos beneficiários. Como a globalização e o acirramento da competição em todos os níveis obriga as corporações empresariais a estar buscando permanentemente novos caminhos para melhorar a sua lucratividade, e até mesmo para garantir a sua própria sobrevivência num universo hostil de crescentes incertezas, o emprego adequado das técnicas de Inteligência pode representar a diferença entre o sucesso e o fracasso.

A proliferação de estruturas permanentes de Inteligência Competitiva entre as empresas privadas tem demonstrado que esta é uma tendência que veio mesmo para ficar. Em um ambiente comercial de distâncias cada vez menores, pouco tempo disponível e bastante informação dispersa, as organizações que desconhecem os recursos de Inteligência colocam-se em clara desvantagem perante aquelas outras que já os dominam.

Infelizmente, embora haja algumas iniciativas isoladas bem sucedidas nos meios empresariais brasileiros, aqui no Brasil ainda persiste um certo desconhecimento a respeito da Inteligência Competitiva, o que é preocupante. Apesar desse fato, pode-se dizer, sem medo de errar, que há uma demanda fantástica para essas atividades especializadas no mercado nacional, a exemplo do que vem ocorrendo no resto do mundo.

As grandes corporações internacionais que aqui atuam, calejadas nos confrontos do primeiro mundo, sabem disso muito bem e já não é de hoje que vêm investindo nesse setor, muito mais do que organizações empresariais do próprio governo brasileiro, o que lhes garante mais segurança na condução dos empreendimentos e expressiva vantagem em qualquer tipo de negociação.

Inteligência Competitiva é estimar com precisão o que as outras pessoas e as suas organizações podem fazer e farão. Assim, para aqueles que estão sempre de olho no lucro, é bom compreender de uma vez por todas que o conhecimento, sobretudo o conhecimento prévio das coisas, representa poder e, na época atual, muito dinheiro. Por isso, os recursos nela aplicados são considerados, também, investimentos.

 

* Prof. Walter Felix Cardoso Júnior, Doutor em Aplicações, Planejamento e Estudos Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (1990); Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003); Diretor do Departamento de Segurança da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo

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