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"Quem separou o Brasil foi D. João VI", com inteiro acerto bradou Oliveira Martins na sua Historia de Portugal.

Com efeito, no dia 16 de Dezembro de 1815,o ainda Príncipe Regente Dom João proclamou a independência do Brasil ao elevá-lo á categoria de reino, unido ao de Portugal e Algarves.

No episódico de 7 de Setembro de 1822,já preparado em ata do Conselho de Estado no dia 2 anterior, seu filho apenas reafirmaria simbolicamente esse status do Pais, diante da crescente reação das Cortes de Lisboa.

No 'desmonte', é fundamental verificar a figura de Dom João VI. Antes de chegar ao Brasil, só tinha notícias do Pais através dos relatórios dos Vice-Reis, Dando-se conta” in loco” da realidade que se lhe descortinava aos olhos, desde logo mandou abrir os portos brasileiros ao comercio internacional, o que foi medida do mais longo alcance político e económico; ate então somente navios portugueses podiam utilizá-los.

Sobre a abertura dos portos, assim como outros atos de natureza comercial, e finalmente quanta á elevação do Brasil á categoria de reino oito anos depois, em igualdade com Portugal, não será demais lembrar que concederam ao Pais a mais absoluta independência económica; a conseqüência imediata dessa nova situação, em virtude da extinção dos antigos monopólios, foi a ruína do comercio português em geral, a balança comercial da antiga metrópole em franco processo de aumento do seu déficit, e o desaparecimento de sua incipiente industria.

A propósito, pode-se concluir que o regente levava á risca a promessa feita aos populares no cais de Lisboa, no dia de sua partida, ao afirmar que fundaria e lhes traria um império americano. Se na sua antologia “ A formação económica do Brasil, Celso Furtado mostrou que a produção jamais fora colonial, e ao contrario introduzira em Portugal conceitos e práticas de industria antes não conhecidas, tudo permite afirmar que Dom João limpou do Brasil, de vez e em exíguos anos da sua permanência, qualquer dependência em face da antiga sede do reino.

Já na sua breve estadia de um mês na Baia, alem da abertura dos portos o regente sancionou a criação da primeira companhia de seguros a existir no Brasil, a "Comercio Marítimo"; estimulou entusiasticamente a criação de uma fabrica de vidros, outra de pólvora, de uma fundição, e de moinhos de trigo, cuja cultura passou imediatamente a incentivar. Desde logo, determinou a abertura de estradas de rodagem, tendo como idéia central a ligação Baia-Rio de Janeiro. E, determinou as autoridades que levantassem fortificações litorais e aumentassem a tropa de linha, com remodelação dos regimentos que encontrou e criação de outros.

A partir de 1808 e nos anos seguintes, no Rio de Janeiro Dom João instalou o Conselho de Estado, criou o Exercito Nacional, o Arsenal de Guerra, o Ministério da Marinha, a marinha mercante, a Intendência Geral de Polícia, a Academia Real Militar, a Casa dos Expostos, o Conselho da Fazenda, a Junta da Agricultura, Comercio, Fabricas e Navegação, a Casa de Suplicação e o Desembargo do Paco, a Mesa de Consciência e Ordens, a primeira fábrica oficial de pólvora, a primeira siderurgia, a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, a Biblioteca Nacional, a Escola de Medicina do Rio de Janeiro e a sua congénere da Baia, a Escola Real de Ciência, Artes e Ofícios, a Casa da Moeda, a Escola de Cirurgia e Obstetrícia, o Banco do Brasil, o Jardim Botânico, a Imprensa Regia, o Museu Nacional, a Academia de Marinha, a Escola de Artilharia, o Hospital Militar, 0 Laboratório Quimico , e muitas outras instituições, alem de tudo isso, deu ampla liberdade á industria no Pais.

Especificamente quanto á saúde, criou o cargo e as funções de Provedor-mór e de "guarda-mor" da Saúde; criou hospitais militares, nos quais eram ministrados cursos de Medicina e Cirurgia para os médicos da tropa; cursos de Clínica, Higiene, Terapêutica, e de Patologia; orientou os estudos de Cirurgia na Santa Casa, e criou a Junta Medico - Cirúrgica para administrar o Hospital do Rio de Janeiro; fundou um hospital para leprosos nos subúrbios do Rio, e outro em Cubatão, na então província de São Paulo; estabeleceu a fiscalização das farmácias; criou um recolhimento especial para quarentena dos navios chegados de fora, que poderiam trazer epidemias; estabeleceu pensões mensais para os melhores alunos pobres da Academia Médica-Cirúrgica do Rio de Janeiro; e muitas outras iniciativas concretas, que foram efetivamente implementadas, produzindo desde logo os seus efeitos, ao contrario do que ocorre com os planos e projetos governamentais da atualidade.

O cuidado de Dom João com a saúde pública era de tal monta, que descia a detalhes inverossímeis: determinou o menu a ser oferecido nos hospitais, com quatro dietas básicas, recomendação de banhos, e ainda proibição aos doentes de se deitarem vestidos com roupas comuns, e calcados.

Na educação básica, o regente e depois rei mandou instalar em todo o País escolas primarias, cursos de português, inglês e latim.

Por fim, e apenas precária e insuficientemente chegasse a esse 'fim' , proibiu que os escravos fossem marcados a fogo  e fez demarcar para os Índios terras de lavoura.

No que diz respeito a agricultura, esse príncipe colocou as propriedades agrícolas a salvo de qualquer execução judicial, e livrou os agricultores do recrutamento militar; aboliu o imposto sobre exportação de produtos agrícolas, e procurou incentivar a irrigação nas áreas rurais; criou escolas agrícolas e laboratórios de investigação, incentivou o cultivo do chá, do linho, do trigo - como antes referido - e do bicho-da-seda.

Iniciou também, a substituição do trabalho escravo pelo trabalho remunerado, trazendo irlandeses que fixou no Rio Grande; mil e quinhentas famílias açorianas para a lavoura em geral, que se fixaram no que mais tarde seria Nova Friburgo. Além disso, para facilitar esse fluxo, levantou a interdição antes existente, a fim de que estrangeiros pudessem receber terras de cultivo.

Quanto a capital, deu ao Rio de Janeiro o que era factível em matéria de segurança publica, higiene, água potável, transportes, iluminação, e assistência do Poder Publico aos habitantes. Isentou de impostos os sobrados construídos em zonas de terrenos pantanosos, mandou aterrar  outros tantos pântanos.

Vislumbrando que praças arborizadas e mas bastante largas eram essenciais como 'pulmões' das cidades, determinou (Aviso de 08 de Outubro de 1810) que as novas mas "fossem mais largas e conformes ao novo plano,para nelas se edificarem edifícios regulares e de uma simetria.

Alem, Dom João espalhou pelas ruas fontes e chafarizes.

Antes de regressar a Lisboa, após sua permanência de treze anos, ainda criou no Rio de Janeiro uma cátedra de Economia Política, cuja regência atribuiu a Jose da Silva Lisboa, o Visconde de Caim, sábio economista de méritos generalizadamente reconhecidos, autor - em nada parecido com os de Harvard, na atualidade - do que foi, talvez, o primeiro tratado sobre a matéria produzida no Brasil.

É interessante notar que, apesar de haver Dom João criado o Ministério da Marinha, cujo primeiro titular foi o Visconde de Anadia, pouco parece haver sido feito para formar uma verdadeira esquadra.

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Á época da primeira "Fala do Trono" de Dom Pedro I, em 1823, preparavam-se o Imperador e a Nação para uma reação armada portuguesa á proclamação da Independência, o que não aconteceu

Nesse discurso á Assembleia Constituinte e Legislativa, Pedro I indicou que “no Arsenal de Marinha, durante os treze anos anteriores se tinha apenas calafetado, tingado e atamancado as embarcações existentes, nisso sendo enterradas  "sommas considerabilissimas de que o governo podia muito dispor com suma utilidade nacional".

Entretanto, continuando a "Fala", comunicou Pedro I que "A armada constava somente da fragata Piranga então chamada União, ; da corveta Liberal só em casco; e de algumas muito pequenas e insignificantes embarcações". E concluiu   dizendo que agora [após a Independência] a esquadra era integrada pela "nao D.Pedro I, fragatas Piranga, Carolina e Nictheroy; corvetas Maria da Gloria e Gloria e Liberal; e de uma corveta nas Alagoas, que em breve aparece  com o nome de Maceio; dos brigues de guerra Guarany , Cacique e Caboclo em concertos, diferentes em condições, assim como também varias escunas". Alem disso, anunciou que pretendia 'por a quilha' de "uma fragata de 40 peças, que, a não faltarem os cálculos que tenho feito, as ordens que tenho dado, e as medidas que para isso tenho tomado, espero que seja concluída por todo este ano, ou meado do que vem,pondo-se-lhe o nome de Campista".

No que diz respeito ao Exercito, observou nessa "Fala" o primeiro Imperador que "Nos arsenais do exercito tem-se trabalhado com toda a atividade, preparando-se tudo quanto tem sido preciso para defesa das diferentes províncias, 'e todas desde a Parahyba do Norte ate Montevideo', receberam os socorros que pediram". "Todos os reparos de artilharia das fortalezas desta corte estavam totalmente arruinados; hoje acham-se prontos; imensas obras de que se carecia dentro do mesmo arsenal se fizeram". "Pelo que todas as obras militares repararam-se as muralhas de todas as fortalezas, e fizeram-se algumas totalmente novas.

Construíram em diferentes pontos os mais apropriados para neles se obstar a qualquer desembarque, e mesmo em gargantas de serras a qualquer passagem do inimigo, no caso de haver desembarcado, entrincheiramentos e fortins, redutos, abatizes e baterias.Fez-se o quartel da Carioca; prepararam-se todos os mais quartéis;

Ainda no aludido discurso, 0 Imperador disse a respeito do exército: " 0 exercito não tinha armamento capaz; nem gente, nem disciplina: Em breve chegará ao auge, sendo em obediência o mais exemplar do mundo. Por duas vezes tenho mandado socorros á província da Baia, um de 240homens, outro de 735, compondo um batalhão com o nome de 'batalhão do lmperador'; o qual em oito dias foi escolhido, se aprontou, embarcou e partiu".

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Não terá sido por outro motivo, senão a possível reação portuguesa, e a própria resistência de algumas Juntas Governativas de províncias ligadas as Cortes de Lisboa, que Pedro I contratou os serviços de um mercenário Inglês, o almirante Lord Cochrane, ao qual deu o titulo de Marques do Maranhão, e a posição de Primeiro Almirante da Armada Brasileira; Cochrane ja havia colocado os seus serviços - e os da esquadra particular que mantinha a soldo da independência do Chile, pais do qual também foi o Primeiro Almirante da Esquadra.

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Igualmente, não terá sido por outro motive senão o da possível reação portuguesa, haver o primeiro Imperador 'importado' para 0 Rio de Janeiro regimentos de mercenários austríacos e alemães,

E Dom Joao VI, em tudo isso, diante da listagem de suas realizações em prol do Brasil, enquanto aqui esteve?

Esse rei não poderia - nenhum governante tampouco - sair a campo para conferir o que faziam os ministros de sua confiança, em cumprimento as suas ordens. E, deve-se lembrar, para toda essa monumental obra, esse homem sensato nunca teve mais do que três ministros: O do Reino, dos Estrangeiros e o da Marinha; em algumas ocasiões, por períodos largos, teve apenas um ministro acumulando os três Ministérios, Assim, se tinha razão o filho quanta as reprimendas desses auxiliares do pai, não pode este ser inculpado pelas ações ou omissões daqueles: Dom João fizera o que lhe competia e dizia respeito, na sua posição de regente, e depois na de rei.

Como observa Christovam de Camargo, "como homem e como chefe de governo, era liberal, atilado, compreensivo; era clarividente, hábil, honesto. Possuía o senso da administração, preocupava-se com o bem publico, tinha amor aos seus súbditos".

Enfim, Dom João criou a estrutura da Administração Publica brasileira, cujos conceitos básicos vigoram ate os dias atuais: em treze anos criou a própria organização de um Estado nacional. De tudo isso é possível concluir, foi o responsável pelo surgimento de um espírito de nacionalidade brasileira, infelizmente mais tarde frustrado, e não por culpa sua: ao abrir os portos já estava alforriando económicarnente o Brasil, dando  o primeiro impulso á independência política.

Finalmente, ao aqui chegar determinou a invasão e anexação da "Banda Oriental", atual Uruguai, incorporada como Província Cisplatina, e da Guiana Francesa, uma vez que ambas estavam direta ou indiretamente sob o jugo napoleónico.

Alem de tudo aquilo, Dom João foi o homem que anteviu a monarquia dual - frustrada pela mediocridade dos políticos brasileiros - que nos destinava a estar presentes na África (Angola, Moçambique, Guine, Cabo Verde, São João

Baptista da Juda) , na Ásia (Goa, Damão, Diu, Cantão, Macau) e no Sudeste Asiático (Timor). Não foi por outra razão que, sempre sensato e ponderado, as vésperas do seu embarque para Lisboa, aconselhou 0 filho: "Pedro, se o Brasil se separar, antes que seja para ti, que me has de respeitar, do que para algum desses aventureiros" (cf. narrativa do próprio punho de Pedro I, in Augusto de Lima Junior, Cartas de Pedro I a D. lotio Vi).

Quando do seu embarque para Lisboa, tornou a chorar copiosamente: 0 rei português amava efetivamente o Brasil; se dependesse dele, como deram testemunho tantos dos que com ele trabalharam ou privaram, aqui teria permanecido pelo restante de sua vida. Gostava tanto do Pais, esse rei, que."chegara a preparar um decreto nomeando Dom Pedro Rei de Portugal, de modo que ele próprio acabasse aqui os seus dias; só resolveu a inverter a situação, indo ele mesmo para-Lisboa, quando percebeu que a atuação das Cortes punha em risco a sobrevivência da própria monarquia.

A partir de então, o projeto de mudança tomou-se um  secreto plano de Estado, engavetado a sete chaves: diversas vezes foi desarquivado e novamente posta de parte, sem nunca ser abandonado. Foi cogitado por D," Catarina de Bragança e Dom Antonio I, o Prior do Crato, por ocasião da sucessão do Cardeal-Rei Dom Henrique; igualmente, pelo padre Antonio Vieira aDom Joao IV, num momenta dúbio da Guerra da Restauração; mais tarde, após o terremoto de Lisboa, em 1762, foi sugerido por Pombal e por D. Luiz da Cunha ao rei Dom Jose I ; em 1803, Dom Rodrigo de Souza Coutinho advogou tal providencia a Dom Joao; e igualmente, em 18070 Conde da Ega, embaixador português em Madri, referia-se explicitamente a necessidade do secular projeto ser posta em execução. Nessa época, alias, foi que se cogitou da vinda do jovem príncipe Dom Pedro de Alcântara como "Condestável do Brasil".

Tais fatos são citados pelos historiadores ingleses John Armitage e Robert Southey, pelos portugueses Jordão de Freitas, Oliveira Lima e Joao Ameal, pelo brasileiro Helie Vianna, e por todos mais que se dedicaram ao assunto.

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