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JMM10

(O texto pode conter gralhas)

0 pequeno e sossegado porto de Belle-Isle apresentava naquele começo de ano de 1832, um aspecto inteiramente novo. Fora escolhida para-ponte de concentração dos emigrados portugueses e dos voluntários-estrangeiros engajados para a guerra civil que se ia atear em Portugal.

A 2 de fevereiro, chegou o duque de Bragança. Saíra de Paris a 25 de janeiro, fora de carruagem até Nantes, onde tomou um vapor. Na véspera da partida esteve nas Tulherias, em companhia de Palmela, onde ouviu os ardentes votos de Luiz Filipe pelo bom êxito da expedição. As despedidas da filha querida foram tocantes em extremo.  D. Pedro, comovido, beijou-lhe a mão dizendo: "Minha Senhora, aqui esta um general português que vai defender os seus direitos e restituir lhe a sua coroa". D. Maria da Glória, chorando, caiu-lhe nos braços. D. Pedro, com ternura, estreitou-a longamente contra o peito.

Poucos dias ficou o imperador em Belle-Isle. A 10, largava para os Açores na fragata "Rainha de Portugal". Acompanhavam-no Palmela, Candido José Xavier, o marques de Loulé, o padre Marcos Prete, seu confessor, Mouzinho da Silveira, Paulo Martins de Almeida, o capitão brasileiro Bastes, o conde de Saint-Leger, sobrinho de Hyde de Neuville, e Mr. de Lasteyrie, neto de Lafayette. Sartorius era o comandante.

Na esteira, seguiam a fragata "D. Maria II", 0 brigue "Ilha Terceira" e alguns transportes. A corveta "Amélia" ficara em Belle-Isle, a fim de comboiar, dias depois, mais quatro navios repletos de voluntários.

No dia 22, era D. Pedro recebido entusiasticamente em São Miguel, onde se demorou ate 2 de março. No dia seguinte, desembarcou na Terceira, que era, toda ela, um acampamento formigando de gente. Gente de toda espécie, Liberais vintistas, exaltados e demagógicos; jovens .doutores e estudantes,saídos dos bancos de Coimbra, cheios de teorias e de idealismo; escritores e poetas, bafejados ainda pelas fantasias literárias; veteranos da campanha peninsular.-relíquias admiráveis do velho exercito português; voluntários de todos os cantos da Europa, dispostos a tudo pela causa da liberdade; Iegitimistas ferrenhos, que viam em D. Maria da Glória o " símbolo da legitimidade dinástica; sonhadores e aventureiros de toda a ordem, catados nas ruas de Londres e Paris e enquadrados nas hostes guerreiras da rainha fidelíssima . . . . "

Desde então, D. Pedro não teve um minuto de descanso: "Metia-se no arsenal com os mecânicos, superintendentes estaleiros as calafetagens, assistia montar as peças e assinava sobre o joelho os despachos"

Napier confessava jamais ter visto 'homem mais ativo; No dia 6 de junho,houve  parada geral. No mar, estavam alinhadas as velas brancas .de  cinquenta navios.

Eram os transportes de tropas e os barcos de guerra.

Na ilha, luziam enfileiradas 7.500 baionetas faiscando ao sol. Quando D. Pedro chegou para a revista, foi um delírio de entusiasmo. Troaram os canhões vomitando fogo das salvas. Rufaram nervosos os  tambores, trepidando a terra, e soaram os clarins alegres num ruído de ' epopeia , Aplausos frenéticos e agitar de Ienços. São milhares de vozes e vivas e na  cadencia dos cantos marciais. O hino da Carta, e 0 "Rule Britannia", e a "Marselhesa' e o hino do mundo. Naquele dia  radioso, não 'havia esperança, havia certeza absoluta na vitória.

Na manhã do dia 23, missa campal. No dia 27, a esquadra largou de Ponta Delgada e virou as proas para a pátria,

Escoltando as cinco dezenas de transportes de varias dimensões, seguiam os navios de Sartorius. Eram duas fragatas, a "Rainha de Portugal", com 56 pecas; e a "D; Maria' II", ' com 48; as brigues "VilaFlor", com 16 peças, e o 'Liberal", com 9; ' as escunas Eugenia, com 10" "Coquette", "Terceira" e"Esperança" com 7, "Faial", com 13, "Graciosa", com, 11, "Prudência" e "São Bernardo", com 8  peças; a corveta . "Amélia"com 20, e a barca "Regência" com 16 peças, alem de lanchas de fundo 'chato, com pavezes..de madeira nas amuradas e .uma plataforma .com uma peca curta de calibre 6.

Havia varies planos de ataque. Muitos achavam que se devia ir direito sabre Lisboa. Era a opinião de Napier, que aconselhara: " ... o único meio de concluir a questão portuguesa era entrara queima roupa pelo Tejo' a dentro e levar 'a capital de assalto". . ' '

D. Pedro, porem, tinha boas razões para rejeitar o plano. Com grande habilidade, tinha deixado que se ventilasse o projeto .de desembarque nas praias contiguas a Peniche e consequente marcha sobre Lisboa. 0 ' governo de D. Miguel, em consequência desses rumores, construiu e reedificou numerosos fortes e baterias ao longo das margens do Tejo, até ás torres da barra, e na praça de Peniche. Havia alem disso, para a defesa da capital, toda a esquadra ancorada diante de São Julião e do Bugio.

D. Pedro, por Intermédio de seus agentes, conhecia perfeitamente a distribuição das tropas realistas.

Sabia que estavam concentrados nos subúrbios de Lisboa mais de 25.000 infantes e quase 2.000 cavalos, além de magnífica arti1haria, e que era fácil reunir em três ou quatro dias cerca de 40.000 homens para a defesa da cidade. Sabia, por outro lado, que o litoral entre o Minho e o Mondego estava guarnecido apenas com a quarta divisão do exercito, sob o comando de Santa Marta. Era, pois, um ponto vulnerável , De fato, um desembarques nas imediações do Porto oferecia todas as vantagens. Segunda cidade do reino, tinha imensos armazéns de viveres e géneros de toda espécie, uma população tradicionalmente liberal. e poderia ser transformada em poderosa base para empreendimentos futuros, uma vez engrossados os efetivos com as adesões que por certo receberiam. Assim, foi deliberado iniciar-se a conquista de Portugal pela sua segunda cidade,

Na tarde do dia 7, avistaram terra. Estavam todos profundamente admirados. Depois de longos dias de angustia e expectativa, davam os primeiros suspiros de alivio. Nem uma vela miguelista! Mal podiam compreender que a esquadra contrária, superior em tudo, não lhes tivesse surgido pela frente para dispersar o comboio, afundar navios, malograr a . expedição . Positivamente, a sorte estava com eles.

DESMBARQUE20NO20MINDELO2020DO20EXÉRCITO20LIBERAL

O telegrafo aereo-mecanico colocado em Vilar, ao suI do Douro, anunciou logo que os navios de D. Pedro se dirigiam para o norte do Porto. Às 9 horas da noite, os tambores deram rebate, alertando a cidade., Foi um rebuliço geral. Santa Marta tomou, rapidamente, as suas providencias. Mandou a brigada de Jose Cardoso de Meneses para Vila-do-Conde e seguiu, ele próprio, com o resto das forças, para a praia do Lavra.

D. Pedro prosseguiu, costeando o litoral ate Vila do Conde. Ai, fez intimar o brigadeiro Jose Cardoso a unir-se ao exercito libertador. Nada conseguindo, fez descer novamente a: esquadra e foi ancorar a menos de um tiro de fuzil da ,pr aia de Pampelido, situada legua e meia ao suI da pequenina povoação de Sao-Joao-do-Mindelo, que erradamente se tem até agora designado como ponto do desembarque das tropas constitucionais

Era, evidentemente, um arrojo desembarcar naqueIe ponto, entre as duas forças inimigas, que podiam, num rápido movimento envolvente, esmagar a pequena expedição, encurralando- a entre dois fogos. As tropas constitucionais tomaram posições na praia e aguardaram, nervosas, o ataque. Nem um tiro se ouviu. Pouco depois, o lendário batalhão 5 avançou cautelosamente até Pedras-Rubras, o batalhão de marinha ocupou Perafita e Schwalbach levou os caçadores 2, e 3 para a pequena cadeia de elevações que vai ter a Leca-da-Palmeira. 0 caminho estava franco em todas as frentes. as soldados se entreolhavam sem compreender e os generais trocavam olhares interrogativos.

Santa Marta recuou, ligeiro, para o Porto, atravessou a cidade e foi postar-se, mudo e misterioso, nas alturas de Vila Nova. Seguindo-lhes as pegadas, os batalhões 2e 3 de caçadores entraram na cidade, pela estrada de Leça, na madrugada do dia 9 de julho. Horas depois, montado num garrano, chegou D. Pedro, pela estrada de Vila-do-Conde, como resto das tropas. Foi triunfal a recepção dos portuenses, Juncou-se de flores a rua de Cedofeita, por onde desfilaram os libertadores, e com hortênsias cravadas no cano empertigado dos fuzis.

As damas, vestidas de azul e branco, enchem as janelas engalanadas da Praça Nova, e os homens, com laços azuis nos chapéus, acorrem de todos os lados para ovacionar o duque de Bragança,

No dia 12, a coluna de Jose Cardoso, seguindo as estradas de Amarante ePenafiel, atravessou o Douro em Melres e foi operar sua junção com Santa Marta, que se retirara de Vila Nova para Oliveira-de-Azemeis,

Nao tardaram as mais amargas decepções para os liberais. Os 400 homens, mandados para submeter Braga e Guimarães, tiveram fria recepção e foram corridos por grandes forças miguelistas. As deserções esperadas tardavam inexplicavelmente, e o reino Inteiro parecia guardar um silêncio hostil ,

D. Pedro via já uma parte da realidade cruel. O Porto era uma aula, completou Oliveira Martins:' e caira num laço"

Sim, caira num laço. Pouco a pouco se podia ir percebendo porque a forte esquadra miguelista não fora dispersar a expedição, em caminho . Porque tinha sido abandonada a segunda cidade de reine, sem um tiro.

Porque se haviam retirado os generais realistas, no momento exato em que mantinham os liberais entre dois fogos e podiam te-Ios esmagado facilmente , E os fatos iam – se Iigando, sucessivamente. 0 castelo da Foz, o forte do Queijo e outros estavam completamente abandonados . E a fortaleza da Foz era magnífica. Provida com foguetes e outros artifícios incendiários, poderia ter hostilizado terrivelmente os navios constitucionais e, convenientemente guarnecida, e ar-tilhada, .te ria podido resistir a todos os ataques dos expedicionários até chegada de reforços suficientes para varrer os assaltantes. E .as coincidências prosseguiam, denunciando o dedo oculto que traçava o rumo inexorável dos acontecimentos, Santa Marta, atravessando o Douro na sua retirada;"esquecera-se" de, inutilizar a, imensa quantidade de embarcações miúdas, em que os liberais poderiam passar á outra margem e continuar a perseguição. Nada fez, deixou-as , como um convite a' penetração cada vez maior no território português, Palmela ' abismado; escrevia nas' suas notas autobiográficas que os generais mlguelistas tinham certamente "perdido a cabeça".

Puro engano , Era um plano tenebroso de chefes realistas que ia sendo posto em execução: facilitar o internamento das forças liberais para então as exterminarem todas, "não escapando um só". Assim, o partido de D. Pedro ficaria destruído para sempre. "

O general' braslleiro Raimundo Jose da Cunha Matos, que se encontrava no, Porto por ocasião da chegada de D. Pedro e lá ficou durante grande parte do cerco, demonstra em suas "Memórias" .que 'a ' cidade foi entregue  aos liberais em virtude da "execução de instruções secretas" . Segundo ele, isso foi feito para dar ao governo "ocasião de esmagar a cidade pelo peso das bombas e granadas, choque das balas rasas, e chamas fulminantes dos foguetes incendiários".

O próprio "visconde Santa' Marta, a 5 de agosto de 1832" escrevia, jubiloso, 'a Aires Pinto de Sousa: .. e o que eu lhe dizia vai saindo certo, hão de morrer ou por bala ou a fome, ou queimados no Porto e com eles a boa cidade".

Felix Pereira de Magalhães, encarregado oficialmente pelo governo português de escrever a história diplomática de Portugal, entre 1826 e 1834, declara em sua interessante obra: no mesmo dia em que a esquadra de D. Pedro largou de Ponta-Delgada, "já o governo de Lisboa estava informado pelo cônsul português em Londres de quantos navios de guerra e de transporte se compunha a esquadra, de seus respectivos nomes, da Incapacidade das embarcações denominadas de guerra, da sua artilharia e munições, do número total das tropas e o que transportava cada um dos navios, designando os batalhões e os regimentos, os nomes e postos dos comandantes e generais" .

Conta, ainda, que o referido cônsul recomendou o envio de uma boa fragata, bem artilhada e equipada, ao encontro da expedição, o que julgava ser o bastante para dispersa-la, e conclui: "0 governo desprezou o conselho do seu zeloso e entusiasta cônsul e ORDENOU QUE SE DEIXASSE DESEMBARCAR LIVREMENTE ATROPA E DE A CERCAR E DESTROÇAR LOGO QUE ELA SE INTERNASSE, AFASTANDO-SE DA COSTA DO MAR".

Percebendo os erigos da inação, D. Pedro lança uma coluna para fazer reconhecimento no Valongo, no dia 22 de julho , carrega sabre a cavalaria miguelista, que defendia a posição, e consegue debandá-la. Cegos de entusiasmo, os liberais prosseguem na sua avançada em perseguição ao inimigo, mas vêm em breve envolvidos por forças muito superiores. Resistem bravamente mas são obrigados a recuar sobre Valongo, com pesadas baixas, e dai para  Rio Tinto, a meio caminho do Porto.

Recolher as tropas vencidas significava precipitar a derrocada final. Era precise reunir todas as tropas e desferir, imediatamente, um golpe decisivo, que .produzisse uma vitória estrondosa ,

Na noite de 22 para 23, D. Pedro afivelou o cinturão, e, deixando apenas 200 a 300homens no Porto, partiu á frente dos soldados restantes em direção a Rio Tinto, onde estavam as sobreviventes de Valongo.  Divididas as forças em três colunas de ataque, iniciaram a marcha sabre o inimigo. A da direita, comandada pelo coronel Brito, seguiu pela estrada de São Cosme; a do centro do coronel Fonseca, pela estrada de Valongo; e a da esquerda, do coronel Hodges, pelo caminho da Formiga, a fim de envolver a direita miguelista.

Às 11 horas da manha do dia 23, desembocaram as colunas no campo de batalha. Dispersas as cortinas de vedetas, surgiram, marciais, as três divisões de Santa Marta, postadas sobre o rio da Ponte de Ferreira e tendo a retaguarda apoiada na serra do mesmo nome. Eram 12.000 homens, 200 cavalos e 5 pecas de artilharia.

Enquanto a divisão ligeira de Schwalbach, testa da coluna do centro, sustentava o fogo contra o inimigo, o batalhão francês e os "rifle-men" de Shaw passavam o rio a vau, precedidos por duas companhias do 18, e investiam valentemente á direita miguelista, rompendo- a a baioneta. Santa Marta desloca, então, grandes efetivos da sua ala esquerda, para socorrer a direita, quase destruída. Nesta conjuntura, se o comandante da direita liberal tivesse avançado rapidamente sabre a esquerda do inimigo, que acabava de ser enormemente desfalcada, a vitória teria -sido completa. Nada fez, porem, E esse erro permitiu que Santa Marta recuperasse as posições perdidas, dizimando 0 batalhão francês, comandado pelo major tartare Chichiri, que tombou como um bravo, carregado por um esquadrão de cavalaria de Chaves.

Prossegue acesa a batalha . Com os reforços mandados por Vila Flor, Hodges consegue, numa arrancada heróica, ocupar novamente as posições que Santa Marta retomara na sua direita, enquanto a coluna do centro marcha sabre os realistas e desaloja-os do terreno. Só ai foi que entrou em ação a direita de D. Pedro com seus efetivos completes, a passe de carga, tão violentos foram os ataques, que o general miguelista foi forçado a galgar a serra que ficava a sua retaguarda e bater em retirada, assim que anoiteceu, peia estrada de Baltar até Penafiel, na maior desordem e esgotado até ao ultimo cartucho .

Vencida a grande batalha, poderia D. Pedro perseguir o inimigo,' dispersar' os restos do seu exército e arrojá-los de toda a província do Minho, para alem do Tamega e do Vouga. Então, sim, ser-Ihe-ia possível iniciar a sonhada marcha sabre Lisboa, Deu-se porem, um acontecimento misterioso e inesperado, que modificou, em poucas horas, o quadro da luta, impedindo que Dom Pedro colhesse todas as vantagens do triunfo.

No dia 24, as três horas da madrugada, a cidade ,estava em festa, comemorando a vitória. As' casas cheias de luminárias e os sinos repicando - alegres nas igrejas. Bandos de populares desfilavam pelas ruas entoando hinos patrióticos e erguendo Vivas a Carta e a D . Pedro. D . Tomaz Mascarenhas, governador das armas, recebe, então, a falsa noticia de- que ',0 visconde

de Santa Marta contra-atacara e surpreendera os liberais no campo de batalha, aniquilando-os completamente.

0 duque de Bragança teria ja desembarcado em Matozinhos, e o general Povoas, tendo passado o Douro em Avintes, vinha correndo para" 'P or to

Dando credito á informação, D. Tomaz dispõe, ele mesmo, a. partir .

A notícia espalhou-se, em poucos minutos, pela cidade inteira produzindo um pânico pavoroso, ministros de Estado, intendente comandante da polícia, corregedores, militares, todos disputavam furiosamente um lugar no "Berodino"; Surgiram, no pensamento de todos, as cenas de 1828, as forcas, as represálias horrendas da alçada miguelista. As mulheres, com trouxas de roupa corriam espavoridas pelas ruas, dando gritos de desespero.

Assim que soube dos acontecimentos 'do Porto, que poderiam ter as mais graves conseqiiencias, D. Pedro apressou-se para lá a fim de acalmar .os habitantes.

Assumiu o comando -em chefe do exercito, retirou o Conde de Vila Flor e nomeou novo governador para a cidade

0 major de engenheiros Bernardo de Sá Nogueira Palmela fei despachado para a Inglaterra, a procura de dinheiro e soldados

Mais do que tudo, valiam a D. Pedro a incompetência :e a rivalidade existente entre os dois generais miguelistas. Póvoas, postado na margem sul do Douro, se tivesse corrido em auxilio de seu camarada, ao ouvir o  canhão de Ponte Ferreira, quando a batalha estava ainda. indecisa, teria desbaratado completamente os Iiberais,

Preferiu ficar impassível nas suas posições a contribuir para que o seu rival colhesse os louros do esmagamento do adversário. Nern sequer lembrou-se de ameaçar o Porto, desguarnecido, ou tomar alguma das posições-chave da cidade como a Serra-do-Pilar.

Vitorioso em Souto Redondo, receiou perseguir os liberais , dois esquadrões de cavalaria, tomando a vanguarda aos fugitivos no Alto-da-Bandeira, eram mais do que suficientes para aprisioná-los todos. Assistiu, de braços cruzados, a retirada do inimigo derrotado.

" .0 visconde de Santa Marta, avisado por Povoas do avanço de Vila Flor com 4.000 homens sobre Souto Redondo, teria deixado Penafiel e forçado o Porto pelo norte com todas as probabilidades de êxito. Só soube do combate as 4 horas da tarde. Avançou, ainda assim, em direção Baltar e estendeu suas patrulhas ate ao Valongo, mas a agora estava já prejudicada.

'Durante o resto do mês de agosto, os miguelistas mantiveram-se apáticos, sem desferir nenhum ataque serio a cidade, que ativava febrilmente os trabalhos da fortificação .

No começo de setembro, graças a atividade prodigiosa de D.Pedro e ao dinamismo de Sa Nogueira, já estava esboçada a primeira linha de defesa. Começava na Quinta-da-China e seguia para o norte par Campanhã,.Lomba e Bonfim; daqui, parao ocidente pela Povoa-de-Cima, Aguardente, Monte-Pedral e Carvalhido; daqui, para 0 -sul, pelo Bom-Sucesso ate cais do Bicalho, onde terminava. Da Quinta-da-China-ao Bicalho, pela beira -rio, contavam-se dez baterias: Boa .Viagem, Torre-da-Marca, Bandeirinha, Virtudes, " Vitória, Sé,Santa .Clara, Fontalnhas .Seminario, e .China. As baterias Ievantadas no Bonfim e nas Guelas-de-Pau dominavam a estrada de Penafiel; ' as dos Congregados e vale das Antas e 0 camlnho de Guimaraes; as de Sao.Bras, Monte Pedral,e reduto das Medalhas, a estrada de Braga; as do , Bom-Sucesso, o caminho de Matozinhos .

015cerco

Em torno de cada uma das baterias foram construídos ' parapeitos a 'prova de artilharia e cavados largos E profundos fossos. Constituíam os chamados "redutos com ' gola". Foram instalados depois, por lembrança de Bernardo de Sá, "globos de compressão", isto e, minas carregadas .com uma grande quantidade de pólvora e que 'explodiriam á penetração do inimigo.

Santa Marta conservou-se quieto, observando de longe as liberais, sem saber como e por onde atacar.

So no dia 22 de julho executou grandes movimentos de tropas. Tudo levava a crer que ia ser desferido o ataque geral contra as linhas do Porto.

D. Pedro voou para a' bateria dos Congregados, a fim de comandar as peças, Aprestaram-se as rastilhos e carregaram-se as minas. Os fornilhos instalados nas estradas, redutos e baterias foram enchidos e os liberais aguardaram, nos seus postos . O ataque não se deu. Tratava-se, apenas de um reconhecimento ...

No dia 10 de setembro, Iniciou-se o bombardeio sistemático da cidade. Até gases asfixiantes foram empregados contra ela , Algumas das borabas "traziam mantas enxofradas e banhadas em uma aguada que produzia fumaça, e vapores sufocantes e Insuportáveis",

depõe o general Cunha Matos. Foi outro erro miguelista. Familiarizou a população com os males da guerra e enraizou-lhe as hábitos guerreiros. Os bisonhos voluntaries arrebanhados na cidade se foram enrijecendo sob os duros trabalhos da defesa e, no fim de certo tempo, todos olhavam para os maiores perigos com uma indiferença surpreendente , por mais intenso que fosse a canhoneio. havia sempre populares, homens e mulheres nos pontos mais perigosos, presenciando os ataques e tombando vitimas da imprudência e do arrojo, Crianças da mais tenra idade, ao ouvir os estampidos, disputavam entre si: seria "bala ou granada?" E faziam apostas , A garotada das ruas conheciam pelo silvo e pela detonação a natureza dos projeteis inimigos; atirava-se ao chão, enquanto eles arrebentavam, e corriam depois para examinar os cacos

  Gaspar Teixeira ainda não se sentia bastante forte para levar a cidade de assalto. Tamanha, porem, era a impaciência do governo de Lisboa, que se viu obrigado a precipitar os acontecimentos. O ataque geral foi marcado para 29 de setembro, dia de São Miguel,

Dois dias antes, proclamou ás tropas em Águas Santas. Assegurou que muito brevemente desalojaria os :constitucionais da cidade do Porto, "seu ultimo refúgio.

Não houve miguelista, em todo o pais, que duvidasse, um instante sequer, do êxito do assalto, Até que enfim, tinha chegado o momento de castigar as hereges, os infames "malhados", inimigos de Deus e da religião,' o pais ia ver-se livre da pedreirada. O Porto era mais um foco de rebelião; era uma jaula. "Não escaparia um só". . .

cerco porto

Houve "Te-Deum. "Na Ajuda, estava exposta a: Hóstia e D. Miguel passou 0 dia rezando , em Braga, nas igrejas iluminadas, entoavam-se orações pela vitória Indiscutível.

. O ·dia de D. Miguel amanheceu sombrio e nebuloso. Envoltas pela bruma marcharam duas colunas, de 5.000 homens cada uma, contra o flanco oriental da cidade

A ,primeira, apesar de metralhada violentamente pelas baterias do Bonfim, Cativo e Fojo, seguiu por Campanhã, forçou as linhas e penetrou na cidade até á antiga rua do Heroísmo.

Repelida á baioneta calada pelos franceses do conde de Saint-Leger, A segunda levou diante de o batalhão de marinha, que defendia a quinta da Praça das Flores dizimando-o de tal forma que ficaram apenas dois subalternos para o comandar. Cerca de 5.000 miguelistas carregaram sobre a bateria do Cativo e conseguiram chegar ate ao parapeito e entrada da quinta. Em frente ao Monte-Pedral, uma força tomou o reduto das MedaIhas, defendido por um Piquet do 1º batalhão de infantaria 3, mas foi desalojada, logo depois, pelo capitão Moniz, a frente de 30 praças , ocupando a bateria da Lomba, os miguelistas inutilizaram-na, encravando todas as pecas. O Carvalhido e o Covelo foram, também, fortemente investidos; e a Serra pode resistir

Afinal, depois de onze horas de renhidos e sangrentos combates, voltaram os miguelistas as suas posições,

Mais de 4.000 homens tinham ficado no campo de batalha. 0 Porto passou a julgar-se intomavel, e os sitiantes convenceram-se da própria fraqueza.

Voltaram a carga no dia 14 de outubro, Inçando 5.000 homens contra a Serra-do-Pilar e recuaram com 1.500 baixas . Era inútil , só o bloqueio absoluto, 0 estrangulamento de todas as vias de abastecimento da cidade faria baquear . Santa Marta seria o aplicador do novo sistema de guerra. Assumindo o comando a 4 de novembro, comunicou ao governo britânico a sua intenção de obstruir a barra do Douro por meio de possantes baterias. E conseguiu-o. Depois de 7de dezembro até ao fim da guerra, nenhum navio conseguiu entrar no Douro.

  Só uma pequena nesga de areia ligava a cidade ao resto do mundo. Ia da Foz ate pouco alem do farol da Luz.

Em janeiro de 1833, chegaram ao Porto dois famosos generais: Solignac e Saldanha. Era bem critica a situação . No dia 8, tivera lugar um perigoso ataque ao monte da Luz e a povoação da Foz. O monte do Castro transformara-se num dos mais formidáveis redutos miguelistas.

Em Serralves havia uma poderosa bateria que, avançando sobre Lordelo, quase vinha interpor-se entre a cidade e a Foz. Já ninguém ignorava que a separação destes -dois pontos tornaria -Inevitavel a capitulação.

A Saldanha, comandante do fIanco ocidental das linhas, soube a defesa do caminho da Foz. Em 17 dias de atividade febril e audácia insuperável, conseguiu transformar o Pasteleiro e o Pinhal, as barbas do inimigo, em terríveis baterias, cujo fogo cruzado neutralizava os importantes redutos miguelistas do monte do Castro e de Serralves. Surpreendendo o inimigo com o seu incrível arrojo, Saldanha levou os seus sapadores a menos de meio tiro de fuzil das posições adversárias ,

Transformando em banqueta as pipas vazias que encontrou, fazia cavar os fossos pela frente e levantava pela retaguarda, com a rapidez do relâmpago, as obras fortificadas, tudo debaixo da viva fuzilaria e das sortidas dos piquetes miguelistas. Entre as duas novas baterias, -que duplicariam o valor agressivo do forte da Luz, foram dispostas numerosas flechas exatamente nos pontes em que podiam ter a vantagem dos –fogos cruzados e convergentes.

Na manha do dia 4 de marco, Teles Jordão avançou com 10.000 homens para arrasar as novas fortificações ainda não terminadas. Mas era tarde demais . .Foi repelido com mais de 1.000 baixas, São Lourenço voltou á carga no dia 24. Novo desastre, novas perdas consideráveis.

Estava salvo o caminho do mar.

Sim, estava salvo 0 caminho do mar, mas a natureza ia conseguir o que as armas miguelistas não tinham podido alcançar , A partir de fevereiro, rijos ventos passaram a soprar violentamente contra o litoral. Acompanhando os rigores de um inverno severo e castigante, desabaram sobre a cidade tremendas chuvas e espessos nevoeiros. A fúria do mar foi tamanha que afugentou das proximidades da costa toda sorte ·de embarcações. .Por espaços de 30 a 40 dias, quase ininterruptos, os defensores do Porto estiveram completamente .isolados do mundo exterior.

Escassearam· de tal forma os mantimentos, que até no exercito e nos hospitais as rações se reduziram a ínfimas doses de arroz e bacalhau. As reservas de combustível existentes na cidade, esgotaram-se logo. Para cozer as alimentos, temperados com açúcar ou chocolate, era precise fazer sortidas na terra de ninguém, derrubar arvores e arrastá-las, aos pedaços, para dentro da cidade, sob o pipocar das balas inimigas, trocavam-se vidas por pedaços de lenha. Esgotado o recurso, os fogões do Porto passaram -a devorar a própria madeira das casas.

Os franceses e ingleses organizavam verdadeiras caçadas aos cães e gatos da cidade, para come-los em seguida.

  Por outro lado, a população era dizimada pelo tifo . E, completando a dantesca serie de desgraças, havia 0 bombardeio incessante, destruidor e implacável. A principio o bairro de Santo Ildefonso abrigado pela Serra-do-Pilar, e o de Cedofeita estavam mais ou menos a salvo do bombardeamento inimigo. Depois de fevereiro, porem, os miguelistas conseguiram também levar o seu fogo a esses quarteirões ampliando o raio da ação das baterias do Cavaco. vde Verdinho e de Gaia e colocando outras em Vila Nova. . >

A 14 de fevereiro,havia no Porto mantimentos para dez dias e oitenta cartuchos para cada praça . No arsenal, só havia cunhetes e barris de areia, que saiam para as baterias, fingindo ser pólvora, para evitar o alarme e o pânico.O "Evening Mail" chegara a noticiar. a capitulação do Porto e a fuga de D. Pedro), o ,cônsul inglês ofereceu os seus  bons ofícios para um ajuste com D. Miguel, D. Pedro, porem, revidou enérgico: "Nunca faria tal" .

No dia 18, os bravos barquelros de Douro, debaixo do vivíssimo fogo das duas margens e lutando contra o furioso encapelamento das águas, conseguiram desembarcar alguns gêneros e munições. No dia 22, ajustou-se com um comerciante Inglês a compra de3.000 quintais de bacalhau. Estava, mais uma vez , salva a cidade. A "expedicao dos vapores" chegou no dia 1º de junho com Napier, Palmela, Mendizabal e reforços,

Discutiu-se: ou seguir uma grande expedição direito sobre Lisboa, capitaneada pessoalmente por D. Pedro, ou enviar outras, em menor escala, para não comprometer meter a segurança do Porto .

Adotado o segundo alvitre, Solignac despediu-se.

Com 3.000 homens de desembarque, sob o comando do duque da Terceira, a esquadra fez-se it vela na manhã do dia 21. Dobrou o cabo de São Vicente. A 23 foi beirando a costa do Algarve ate passar a praia da Alagna. Ao cair da tarde do dia seguinte, as tropas estavam em terra, 'iniciando a marcha sobre Tavira. .

Preocupados com a defesa de Lisboa, Cadaval e conde de Basto tinham deixado o Algarves quase desguarnecido.

O visconde de Molelos não contava com mais de 1.600 homens para defender a província: Assim mesmo, concentrou  rapidamente na ponte da ribeira do Almargem, os corpos realtstas de Tavira, Faro e Beja, com quatro peças e um destacamento de cavaIaria afim de conter a investidados Iiberais , Terceira repeliu-o facilmente e prosseguiu a sua marchao

A 26, entrava em Olhão, e, no dia seguinte, triunfalmente, em Faro. Chegando por mar, Palmela instala o governo civil e proclama a rainha. A 28, saem duas brigadas: uma sobre Loulé e outra sobre a Quarteira . Reúnem neste ultimo ponto e avançam em perseguição do inimigo, que se retirava para Santa Clara e dai para Messejana.

Napier, abastecido em Faro, segue para Lagos. Em seis dias, estava ocupado todo o Algarve.

O sonho de Terceira era atravessar 0 Alentejo e Ievar os seus homens ate as portas de Lisboa. Mas não era possível realiza-Io com forças tão reduzidas. Molelos concentrava novos e poderosos elementos para retomar o Algarve e, alem disso , não se sabia que fim levara a esquadra . Retrocedeu sobre Loule, onde chegou a 4 de julho.

 

Cometeu, entao, 0 governo de Lisboa um gravíssimo erro. Em vez de conservar no Tejo a sua esquadra, afim de garantir a capital, mandou-a sair. Era o que desejava o almirante liberal.

Interior ou exteriormente, Napier era um tipo curioso."De estatura regular, pinta-o Soriano, um pouco grosso de corpo, e face redonda; com um lenço de seda preto que, passando por baixo da barba, lhe ia atar á cabeça, parecendo ter dor de dentes; chapéu redondo, de copa baixa e larga, imitando o dos "quakers"; calça larga, azul; sapato e meia branca; envolvido numa sobrecasaca de oficial de marinha: eis como vimos pela primeira vez esta grande personagem militar".

Na manhã de 3 de julho, debaixo de um temporal medonho, avistaram-se as duas esquadras na altura do cabo de São Vicente. Mediram-se de longe, contidas pelo encapelado das ondas, durante o dia inteiro. O espetáculo era deveras imponente. Sob o comando de Aboim, alinhavam-se as naus "D. Joao VI" e "Rainha", as fragatas ·"Martim de Freitas" e "Princesa-Real", as corvetas "Cybele", "Isabel-Maria" e "Princesa-Real", alem de dois brigues e um chaveco. Eram, ao todo, dez navios, 354 peças de artilharia e 3.350 homens. A coisa de milha e meia a sotavento, estava a pequena armada de Napier: as fragatas ''D. Pedro", "Rainha de Portugal" e "D. MariaH" e· os brigues "Portuense" e "VilaFlor". 176 peças, apenas.

Caiu .a noite e ambas as esquadras permaneceram silenciosas, a pouco mais de tiro de fuzil uma da outra.

Napier pensava. Sentia sabre seus ombros, naquele instante, uma responsabilidade imensa. "Nao havia meio termo, dizia ele consigo mesmo: ou ganhar tudo OU perder tudo; uma razão parcial apenas podia prolongar por algumas semanas a causa da rainha, que só podia salvar-se por uma grande e momentosa vitoria, ao passe que uma derrota acabava por uma vez com a guerra civil".

Napier era urn mestre de psicologia. Não ignorava que contra o abatimento moral e a longa apatia em que se achavam as tripulações miguelistas -um gesto brusco de audácia e temeridade poderia operar milagres.

Traçou o seu plano. Evitar o ,duelo, de artilharia e lançar os seus cinco navios a abordagem, três fragatas atacariam a nau "Rainha" e a "Princesa-Real"; os brigues "Portuense" e ''Vila-Florl fariam o mesmo com a "Martim de Freitas", sem se incomodarem com o que pudessem fazer as três corvetas inimigas, os dois brigues e a grande nau "D. João VI".

No dia 5, o mar amanheceu banzeiro e o vento amainou de todo. Pelo meio dia, levantou-se uma viração que foi refrescando para: a tarde e pondo a esquadra de Napier a barlavento da do inimigo. Às duas horas, esboçou-se a batalha. A esquadra de Aboim estava formada em linha cerrada, navegando com pouco pane; as duas naus primeiro, as duas fragatas na papa, tendo as três corvetas e os dois brigues um pouco para sotavento, nos intervalos. .

Aproveitando a brisa fresca que o Impelia sabre o inimigo, Napier dá o sinal de combate. Arriados os escaleres e postos em linha, os navios avançam rapidamente, navegando em mestras e joanetes e ostentando no tope dos mastros as cores da jovem rainha de Portugal.

Chegando a distancia de um tiro de espingarda, receberam em cheio uma terrível salva da artilharia miguelista, que lhes varreu os tombadilhos, e avariou o velame. Napier, porem, prosseguiu resolutamente em direção á nau "Rainha", seguido de perto pela fragata "D. Pedro" e respondendo ao fogo dos navios inimigos a medida que passava por eles. E, antes que a "D. João VI" pudesse hostilizá-lo, meteu o leme de 16 e roçou quase com o pau da giba pela papa da "Rainha". Lançando, então, os croques, arpeus e balroas de abordagem, e ensarilhando o macame das vergas que se chocavam, pede fazer uma solida atracação depois de ter disparado, a queima-roupa, os cachorros e demais peças de proa carregadas, quase até á boca, de bala rasa e metralha.

Napier e seus oficiais foram os primeiros a saltar sobre o navio miguelista, cuja guarnição foi logo varrida do convés, Barreiros, o "Arranca-Pinheiros", era o comandante; organiza a resistência e morre lutando como um leão , Minutos depois, limpas as cobertas, a nau "Rainha" podia hastear o pavilhão constitucional.

Volta-sa agora o almirante contra a "D. João VI" que, ameaçada igualmente pela fragata "D. Pedro", arriou bandeira, sem disparar um tiro. Enquanto isso, a "D. Maria II' tomava, por abordagem, a fragata "Princesa-Real", depois de lhe ter enviado algumas salvas, e os dois brigues liberais avariaram valentemente a "Martim de Freitas". Napier, deixando a fragata "D. Pedro" de guarda a nau "D. João VI", avançou, também, sabre a "Martim de Freitas" cujo comandante, Manuel Pedro de Carvalho, se bateu tão bravamente antes da rendição, que ° o almirante liberal lhe ofereceu, a noite mesma da batalha, a sua espada, como também o comando da nau "Rainha".

Pelas seis horas da tarde, cessara completamente o fogo. Os liberais haviam aprisionado as duas naus de linha do inimigo e duas fragatas, alem da corveta "Princesa- Real", que veio entregar-se logo depois. Tinham apenas escapado duas corvetas, que foram para Lisboa, e os dois brigues, um dos quais se uniu depois aos vencedores, indo o outro parar a Madeira.

Destruída a esquadra miguelista estavam abertas as portas de Lisboa. A vitoria certa, apenas uma questão de tempo.

Terceira ficou louco de entusiasmo ao conhecer 'os acontecimentos de dia 5 de julho. Formou os seus regimentos e deu ordem de marcha: "A Lisboa".

Foram enviados reforços a Molelos, os 15.000 homens da guarnição da capital, as dificuldades de toda ordem que surgiriam pelo caminho, nada disso importava. Napier, com forças insignificantes, aprisionara uma poderosa esquadra.

Porque não poderia ele repetir a façanha em terra? E lancou-se a grande aventura .

A 13 de julho, já tinha passado por São-Bartolomeu-de-Messines e a 15 entrava em Garvao - Molelos, em lugar de :tomar posição entre Terceira e Lisboa e oferecer combate aos liberais, dirige-se para Beja deixando inteiramente Iivre o caminho da capital. O pretexto foi  ter ali entrado uma guerrilha constitucional.

  Pensando ter-se antecipado a Terceira, perde três preciosos dias em Beja, enquanto o duque continuava rumo á capital. Verificado o engano, lança Molelos em perseguição dos 1.500 homens da coluna liberal. .

" Terceira voava, e a 22, estava em Setubal, onde bateu "uma .pequena farga miguelista, e, no dia seguinte, á vista de Almada,

De ' Lisboa, ' Teles Jordão partira ao seu encontro com uma divisão de 3.000 ·infantes e três esquadrões de cavalaria. "

  Terceira não vacilou. Precipitou- se, Impetuoso, sabre os contrarios, obrigando-os a retirada para as margens do Tejo, Perseguiu as tropas fugitivas a passo de carga e alcançou - as em Cacilhas amontoadas em grande desordem , Foi urn, verdadeiro desastre para os miguelistas, Muitos lançam-se ao rio. Inúmeros se entregam, Teles Jordão é morto. Em Almada, pouco depois, foi hasteada a bandeira bicolor, o que causou a maior sensação em Lisboa.  Cadaval reúne, á pressa, um conselho. Peso-daRegua propôs o abandono imediato da capital: conquistadas as fortificações da margem esquerda do Tejo, Napier podia entrar a qualquer momento e bombardear a cidade; alem disso, a população não inspirava a menor confiança . Foi aceito o alvitre. Ao amanhecer, 'sob pretexto de revista no Campo Grande, Cadaval reúne as tropas, 12.000 homens, e parte para Coimbra, seguido .por uma multidão de fidalgos, clérigos -e funcionários públicos.

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