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A imigração estrangeira, atraída por D. João VI com objetivos colonizadores, tomou uma feição nitidamente militar depois da independência. A aversão geral dos brasileiros pelo serviço das armas impunha a organização de batalhões mercenários que constituíssem um solido baluarte do trono e das instituições imperiais. Foi criado na Europa um verdadeiro sistema de recrutamento, Por meio de agentes espalhados pelos centros populosos, especialmente da Alemanha e da Irlanda, e que acenavam a todos com perspectivas sedutoras na America, quase sempre imaginarias ou exageradas. Quem superintendia o arrebanhamento do refugo da sociedade alemã, com o auxilio eficiente do judeu Neumann, era o Dr. von Schaeffer, que se intitulava major da guarda de honra imperial e cavaleiro da Ordem de Cristo e se gabava de ser amigo intimo e comensal da imperatriz Leopoldina. “Instalou seu quartel-general na foz do Elba e transformou Hamburgo» no grande porto de embarque das legiões mercenárias, sequiosas de dinheiro e de aventuras, "Os oficiais eram de varias procedências e quilate, Havia saboianos como o coronel dall'Hoste, cavaleiro da Ordem de Santo Estevão, que o imperador podia mandar em missão delicada á Europa; egressos da cadeia com o major suíço Ith; irlandeses aventureiros como o major, depois coronel Cotter; fidalgos franceses de raça, bravos e disciplinados, como o conde de Escragnolle: marques de Fancaria como o dinamarques (?) Von Ewald, que os soldados odiavam de morte" . Mosaicos de nacionalidades, não possuíam os batalhões estrangeiros o verdadeiro espírito de união e solidariedade, essa coesão étnica que nos graves momentos de perigo comum multiplica a força dos agrupamentos humanos. Surgiam a revolta e o desespero entre os mercenários quando verificavam, nos infectos alojamentos dos quartéis e fortes da barra, sob o ardor do clima tropical e sujeitos a um serviço extremamente pesado, que o império sul americano não era, como se pintava, o lugar maravilhoso "onde se deixava ao abandono quintais de ouro para só levar os brilhantes...". Para manter esses soldados na obediência e na disciplina, usava-se, na falta do respeito da dedicação e do patriotismo, o sistema dos castigos corporais, consagrado nos velhos regulamentos disciplinares de Portugal.

Um incidente, provocado pela aplicação exagerada de tais punições, foi o sinal para o levante das tropas estrangeiras, desencadeado no Rio de Janeiro a 9 de junho de 1828. Por não ter prestado a continência habitual a um oficial brasileiro, um soldado alemão foi condenado pelo major Drago, comandante do 2º batalhão de granadeiros, a levar vinte cinco chibatadas, por ocasião da parada do dia imediato. "Tal injusta sentença, escreveu Seidler, parte ativa nos acontecimentos, espalhou-se com incrível rapidez por todos os demais batalhões, e como o granadeiro fosse conhecido como homem ordeiro e bem comportado, não podia deixar de acontecer que os ânimos, já de si exaltados, se inflamassem.

Combate de los Pozos1

No entanto, menos de três anos depois do motim dos estrangeiros, já havia quem reconhecesse terem eles servido, "inconscientemente, de cegos instrumentos a realização de pIanos perversos".

Quais seriam esses pIanos?

0 grande historiador argentino Adolfo Saldias, em obra notável, parece responder amplamente á pergunta. Como já era desesperadora a situação do governo de Buenos Aires na guerra que sustentava contra o império brasileiro, o general' Dorrego  em execução de um plano atrevidissimo que, coroado de êxito, teria produzido verdadeira transformação na America do SuI:

"Despacho al Janeiro dos alemanes bien reputados, don Frederico Barren y don Martin Hin, con el encargo de' insurrecionar una parte de la division alemana que guarnecia aquella ciudad, y de ponerla em combinacion con el. comandante Fournier, jefe del' corsário argentino."Congresso", de modo que el Emperador don Pedro I, que costumbrabo; pasear se solo pólo cerca del jardim botanico, fuese secuestrado por esa fuerza, llenado al corscrio y trasladado a Buenos Aires. Tudo estuvo preparado para el secuestro. perc este. se frustro por diferencia. de algunos minutos". Ao nosso ministro em Buenos Aires, Duarte da Ponte Ribeiro, não foram de todo desconhecidas tais maquinações.

Em oficio de 24 de abril de 1850, comunicava ele: "Em 1826 apresentou-se ao governo de Buenos Aires, então presidido pelo dito Ribadavia, um frances de nome Fournier , recém-chegado dessa corte, oferecendo-se para vir assassinar.o imperador o senhor Dom Pedro I cuja morte daria a Buenos Aires uma completa vitoria sobre o Brasil . "Sabendo aquele malvado que o imperador faria nessa época repetidas viagens á fazenda de Santa Cruz, muitas vezes de noite, e quase sempre só por haverem poucas pessoas que corressem tanto como sua majestade, e tendo perfeito conhecimento do caminho, ,e de toda a costa ao suI da barra do Rio de Janeiro, propôs ao referido governo vir desembarcar na Sepetibe, ocultar-se nas imediações do lugar em que sua majestade imperial costumava mudar cavalos, e mata-!o logo á saída, porque partia sem esperar por ninguém". 

Adolfo Saldias possui em seu arquivo particular uma interessantíssima carta de Jose Maria Roxas y Patron, de que destacamos o seguinte trecho: "Dos conspiraciones habia em la corte del Brasil, una contra el Imperio, otra contra la persona del Emperador. Estaba a nuestra disposicion conduir con aquel, y recibir a este en un corsario y traerlo a Buenos Aires'. Roxas y Patron, que exercera cargos relevantes no governo buenairense, escrevendo mais tarde a Rosas, então exilado em Londres, fez-lhe revelações da mais alta importância: "Cuando el Sor. Rivadavia era Presidente de la Republica, se le presento el aleman don Frederico Bauer ofereciendole pasar al Rio Janeiro, de donde habia venido, y sublevar el ejercito aleman que ala sazan estaba acuartelado en aquella capital, poner lo al servicio de la Republica Argentina, posesionarse de los buques de guerra brasileros surtos en el puerto, y hasta de la persona; del mismo Emperador".

Ninguém poderá, honestamente, recusar fé histórica a tais documentos, que tão claramente denunciam a articulação secreta do levante dos mercenários no Rio de Janeiro com os dirigentes da Republica Argentina, em luta contra o império de D. Pedro I. A sensacional documentação de Saldias, afastando a penumbra que envolvia o motim das tropas estrangeiras, delineia a verdadeira face dos acontecimentos, voluntaria ou involuntariamente omitida pela imensa maioria dos historiadores. Contra D. Pedro I e o império brasileiro, todas as armas eram lícitas, inclusive a traição, o suborno, o sequestro e o homicídio. ..

 

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