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300px Pedro I of Brazil and Avilez

(O texto, pela sua antiguidade, poderá apresentar ortografia deficiente)

A primeira demonstração das qualidades de Dom Pedro como estrategista e general, deu-se no confronto com o comandante da divisão portuguesa estacionada no Rio de Janeiro: tanto o general, quanta a imensa maioria dos seus comandados estavam em pé de guerra, em virtude da cerimónia do "Fico" *.

Essa divisão, embora não contasse mais de 2.700 homens, estava aquartelada no Campo de Santana (atual Praça da Republica), e em três outros locais estratégicos, situados entre a ponta do Calabouco (atual aeroporto Santos Dumont) e o Morro do Castelo, ao lado do Largo da Carioca.

Embora o general-de-divisão Jorge de Avilez fosse oficialmente o comandante de todas as forcas armadas no Rio de Janeiro, é certo que as diversas fortalezas que guardavam a Baía de Guanabara estavam guarnecidas por tropas brasileiras; e estas, em mais de uma ocasião haviam recebido, e cumprido á risca, as ordens do - idoso, mas atuante - general-de-divisão brasileiro Joaquim Xavier Curado.

Alem da sua preocupação em cumprir as ordens das Cortes de Lisboa, Avilez sabia que estas haviam-lhe mandado reforços, que já estavam em alto mar; em acréscimo, o general não nutria por Dom Pedro maiores simpatias, sabedor que era do "caso" que este mantivera com sua mulher, embora caso ligeiro e sem maiores consequências.

Com as fortalezas comemorando o "Fico" * (ver nota final) e o regozijo dos cariocas noite a dentro, nessa própria noite, o general português resolveu agir, usar da forca para forçar o regente a cumprir as determinações das Cortes, e voltar a Portugal; dispôs seus homens em posição de combate, e fixou o seu quartel-general no Morro do Castelo. Dois dias se passaram, de grande tensão; a população vivenciando o movimento das tropas portuguesas.

Apesar de tudo, na noite de 11 de Janeiro de 1822, o Regente foi ao teatro, acompanhado da princesa Leopoldina, grávida de sete meses; foi o início do drama que confirmaria o "Fico", daria partida definitiva ao movimento da Independência, e caracterizaria a primeira demonstração do valor de Dom Pedro como general.

Logo após os aplausos da plateia a presença do regente, seguidos do seu habitual discurso em favor da tranquilidade e união entre brasileiros e portugueses, começaram a chegar ao seu camarote as notícias sobre o desenvolvimento da situação militar; cerca de onze horas da noite, espalhou-se pela plateia a notícia de que as tropas portuguesas estavam pelas ruas, em arruaça, quebrando bicos de gás nos postes de iluminação, vidraças de casas, espancando brasileiros e cometendo outras depredações e violências.

Em face do pânico que aquela notícia gerou, o Regente se dirigiu á plateia: pediu calma, garantiu que todos os presentes ficariam sob a proteção da sua guarda pessoal, estacionada á porta do teatro, e recomendou que não saíssem para retornar as suas casas; a seguir, deu ordem para o prosseguimento do espetáculo,

Enquanto a ópera prosseguia, o príncipe recebia notícias, despachava com ajudantes militares, planejava e expedia ordens. Teve conhecimento da concentração das tropas portuguesas no Morro do Castelo, e recebeu a garantia de um dos batalhões, de que não aderira ás ordens de Avilez, mas de que relutaria em combater contra patrícios portugueses; a esse batalhão, então, Dom Pedro ordenou que fosse guardar o Palácio de São Cristovão, embora não,especificamente, a sua família.

Ao termino do espetáculo, saindo toda a plateia protegida pela guarda pessoal e de honra do regente, e levada ate suas casas, Dom Pedro retomou ao palácio; ao mesmo tempo que recebia Avilez em difícil colóquio, que nada resolveu, despachou D." Leopoldina e os filhos para a Fazenda de Santa Cruz, e tomou a cautela de pedir asilo ao capitão Graham, do navio inglês HMS Doris, para o caso de ser mal sucedido no embate com o general lusitano.

No amanhecer do dia 12 de Janeiro, auxiliado pelo bravo general Xavier Curado, despachou forças brasileiras para guarnecer as instalações portuárias, o parque de artilharia sediado no Jardim Botânico, a fabrica de pólvora, o depósito de munições da ilha das Cobras, e diversos outros pontos estratégicos. Alem disso, uma multidão já se fazia presente nas ruas, em armas: frades, homens, meninos, escravos negros, todos armados de pistolas, facas, espingardas, antigos bacamartes, lanças, e simples pedaços de pau, dispunham-se a combater os portugueses.

Eram cerca de 4.000, e quando essas tropas começaram a cercar o Morro do Castelo, onde estava Avilez, já eram 8.000.

General Jorge Avilez

O general português, com menos de 2.300 homens - algumas centenas dos seus se haviam passado para o Regente - e, sitiado sem alimentos, sem água, sem possibilidade de repor munição caso a usasse, resolveu dialogar: no encontro com o regente, foi formalmente exonerado, e determinado que deixasse o País com suas tropas; como o regente não dispunha de navios suficientes - ou, não queria emprega-los nisso – enquanto aguardava a chegada dos navios portugueses, o general foi transferido para Niterói, com todos os seus homens remanescentes.

Alem, ficou garantido que os portugueses que quisessem se passar para o lado brasileiro não sofreriam qualquer sanção por parte de Portugal; foram muitos os que assim optaram.

Enfim, o caso Avilez, resultante do "Fico", foi a  primeira grande vitória de Dom Pedro como general, com preciosa ajuda do velho Xavier Curado.

Terminado o translado das tropas portuguesas para a sua 'quarentena' de embarque em Niterói - ficaram como reféns, para garantir que os reforços de Lisboa não iriam intentar ações militares – Dom Pedro lançou uma proclamação de regozijo, pelo apaziguamento dos ânimos e feliz solução dos incidentes:com a vitória militar, a permanência do Regente do Brasil estava consolidada .

* Em 9 de janeiro de 1822, D. Pedro I recebeu uma carta da corte de Lisboa, exigindo seu retorno para Portugal. Há tempos os portugueses insistiam nesta ideia, pois pretendiam recolonizar o Brasil e a presença de D. Pedro impedia este ideal. Porém, D. Pedro respondeu negativamente aos chamados de Portugal e proclamou : "Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico".

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