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Hino

(O texto, pela sua antiguidade, poderá apresentar ortografia deficiente)

Apesar dos vários mestres que teve, foi sempre, antes de tudo, um autodidata.E como tal, borboleteou dispersivamente sobre as ciências e as artes, sem método,nem uma orientação segura e definida; “Austera e grave, D. Maria Genoveva do Rego e Matos lhe ensinou as primeiras letras antes de entregá-Io aos cuidados do erudito frei Antonio de Nessa Senhora de Salete, que lhe deu noções de catecismo e de latim.

Foram rapidíssimos os progressos do príncipe nesta,língua, que aperfeiçoou sob a orientação do bispo de Anermiria, então frei Antonio de Arrabida.

O  seu livro predileto era, então, a "Eneida". Durante a viagem da família real portuguesa para o Brasil, conta Monglave, quando não se encontrava em meio da marinhagem, intrometendo-se como um grumete ousado e curioso nas manobras de bordo, era sempre visto sentado ao pé de um dos mastros do navio deliciando-se com a leitura de Virgilio.

Essa primeira predileção literária de D. Pedro ficou-lhe tão enraizada que mais tarde, já príncipe real agradecendo a D. João o titulo de "príncipe real" que lhe foi dado em virtude da elevação, em 1815, do Brasil á categoria de reino, brotam de suas palavras as reminiscências do divino poeta de Mantua: "A posteridade, disse ele ao pai, essa posteridade incorruptível que não poupa nem os reis, apontara em Vossa Majestade um numero infinito de pontos de contacto, morais e políticos, com o herói da "Eneida"; como Eneias, Vossa Majestade acaba de lançar, após uma longa navegação, os alicerces de um estado que deve ser um dia o primeiro do mundo; como Eneias, Vossa Majestade será proclamado o modelo dos filhos e dos reis".

Com Joao Rademaker, que foi verdadeiramente o seu mestre, no sentido precise e restrito do termo, lucrou imensamente o jovem príncipe. Sábio e poliglota, o antigo ministro de Portugal na Dinamarca e em Buenos Aires.reunia em si todas as qualidades indispensáveis ´á educação moral e cientifica de D. Pedro. envenenado, em setembro de 1814, por uma escrava, deixou Rademaker, em meio, a obra que tão auspiciosamente iniciara.

As Ciências e Línguas

Para as matemáticas, de que o príncipe era apaixonado, segundo afirma um dos seus biógrafos, sucedeu-lhe Jose Monteiro da Rocha, um dos primeiros luminares da universidade de Coimbra, que, "em testemunho das excelentes disposições que em seu aluno achou, lhe legou a sua boa livraria" . O francês, que estudara com Rademaker e praticara com o padre Renato Boiretvemlgrado francês e confessor de D. Leopoldina, tornou-se-lhe em breve extremamente familiar. Maler encontrou-o a ler um volume de Edmund Burke, que pretendia traduzir e publicar no "Espelho". Mansfeldt e Maria Graham; que com ele conversaram, são testemunhas do desembaraço com que manejava o idioma de Victor Hugo.Ligou-se muito á leitura de Filangieri cuja obra principal, "La Scienza della Legislazione", foi por ele fartamente manuseada. Ficaram, de fato, vivos vestígios dessa leitura na colaboração reale efetiva de D. Pedro na Constituição Imperial de 1824. O mesmo Monglave assegura que D. Pedro consagrava, diariamente, duas horas ao estudo e á leitura. Referencias a essa leitura encontramos até nos bilhetes que o imperador dirigia a Domitila, por entre frases que rescendiam ao seu erotismo tropical: "não passei bem foi de saudades tuas pois decerto nunca as tive maiores porque estive lendo as cartas amorosas de Mme. de Sevigne que muito me fizeram recordar o nosso bom tempo. . ."

O Ingles, aprendeu-o com o reverendo Guilherme Paulo Tilbury, capelão da Divisão Militar da Guarda Imperial de Policia, e causou admiração a viúva Graham, a quem citou diversos autores ingleses e novelistas escoceses. A primeira imperatriz, escreve Rangel, dotada de boas letras, deu-lhe tinturas de alemão , e Eugene de Monglave conclue: "il sait Ie latin et Ie francais, traduit l'anglais et comprend l'alemand que "sa pauvre Leopoldine" lui a enseigne".

Luiz de Souza Monteiro, biógrafo de D. Pedro, atesta e seu gosto e conhecimento das ciências naturais, "recatando da corte, como a furto, os livros e instruções que seus amigos lhe davam". Não esqueceu nunca o latim, de que salpicava sempre as suas cartas: "para mostrar que me uni a eles "de motu proprio"; "jurei a constituição "in totum” ; "eles são constitucionais "in nomine"; "para lhes fazer uma constituição que os felicite "in . eternum"; "é um impossivel físico e moral Portugal governar o Brasil ou o Brasil ser governado de Portugal porque "salus populi suprema lex est"; .quando dedicou a Leão XII uma "Missa" e um "Te Deum" de sua autoria, fez questão de acrescentar: "in signum filialis reverentiae..."; e assim por diante.

A Poesia

Aos dezessete anos, já versejava com certa naturalidade: "Meu amor, meu grande amor, Sem ti não quero viver Tua imagem e a meiga flor .Que eu vivo a bem querer "

E claro que a poesia, para D. Pedro, não passou nunca de preocupação secundaria, produziu pouco. A descrição humorística da serra dos Correas, sonetos, redondilhas de namorados, algumas quadrinhas sentimentais, a letra do hino constitucional português, Nada mais. Mas nos grandes momentos da sua vida, a poesia foi a sua linguagem. Tão sentidos foram os versos que compôs a D. Amélia, que Oliveira Martins confessa não poder critica-los. A poesia rebentava nele nas horas trágicas e nos transbordamentos de felicidade. Quando faleceu D. -Leopoldina, chorou-a sinceramente no conhecido soneto:

"Deus eterno, porque me arrebataste A minha muito amada Imperatriz?! Tua divina bondade assim o quis. Sabe que o meu coração dilaceraste?

Tu, decerto, contra mim te haste, :Eu não sei o motivo, nem que fiz, e por isso direi como o que diz: Tu ma deste, Senhor, tu ma tiraste.

Ela me amava com o maior amor, Eu nela admirava a sua honestidade, Sinto meu coração por .fim quebrar de dor'.

O mundo nunca mais vera em outra idade Um modele tão perfeito e tão melhor de honra, candura, bondade e caridade."

 

o soneto a D. Amélia é uma torrente de alegria ingênua e de jubilo infantil. O imperador-poeta transpira uma felicidade berrante e espalhafatosa;

"Aquela que orna o Sol Majestoso e filha de uma Venus e de uma Mãe. Enleia nossas almas e desta arte E mimo do Brasil, glória do Esposo.

Não temeu o Oceano proceloso, Cantando espalharei por toda parte, Seus lares deixa Amélia por amar-te, és mui feliz D.Pedro, és mui ditoso!

Amélia fez nascer a idade de ouro l Amélia no Brasil e nova diva! É Amélia de Pedro um grão-tesouroI Amélia Augusta os corações cativa! Amélia nos garante excelso agouro! Viva a Imperatriz, Amélia, viva !"

A Música

A musica foi para D .Pedro quase um imperativo hereditário, o pai e o avo foram regentes de orquestra, tão apaixonados pelo cantochão como o trisavô, que fundara uma escola em São Jose de Ribamar, perpetuando um atavismo que vinha "desde Pedro I, que tangia tromba bastarda, ate D. JoãoIV, que tocava tudo". Sob a orientação de Jose Mauricio e Marcos Portugal, que lhe ensinaram os rudimentos da sublime arte, pode o jovem príncipe, em brevíssimo tempo, tocar com grande pericia não só a flauta e o violino, como também o fagote e o trombone.

As teorias de Haydn sobre composição, harmonia e contraponto foram ministradas a D. Pedro por Segismundo Neukomm, 0 discípulo favorito daquele que fora também o mestre de Beethoven. "La musiqua .devint chez lui une passion dominante, escreveu um cronista francês. II acquit meme dans cet art une habilete si grande, que la plupart des compositions de ]a "chapelle de son pere, et plus tard de sa chapelle imperials, sont dues a son rare talent".

Muitas vezes regia, ele próprio, os instrumentistas. Jacques Arago, o grande romancista e teatrólogo francês, entrando por acaso na capela imperial, impressionou-se com a gravidade da música que ali ouviu e cujos compassos eram marcados pelo príncipe, seu autor presente.   Em Paris, fez íntimas relações com Rossini, que o procurou muitas vezes para conversar sobre assuntos musicais e oferecer as mais interessantes das suas obras. D. Pedro mostrou-lhe, também, algumas de suas produções e o grande compositor ficou tão encantado com uma das sinfonias que chegou a mandar executa-la pela orquestra do "Theatre Italien", o que se verificou a 30 de outubro de 1831, com o maior sucesso na noite de 8 de novembro do mesmo ano, D. Pedro ocupou-se em tirar para música de piano-forte as marchas de sua composição, que se tocavam nas paradas das :tropas imperiais no Rio de Janeiro, a fim de oferta-las ás filhas de Luiz Filipe. Constou depois que o rei gostou tanto dessas musicas que as mandou igualmente adotar nas paradas do exercito francês durante as marchas de colunas de “continenchi “. Durante as dias agitados da campanha da independência, compôs o seu hino de um fôlego, "como quem garatuja um bilhete",'disse Pedro Calmon, "As 5 e meia da tarde, D.  Pedro entrava na cidade (São Paulo) ; três horas e meia depois estarrecia aquela gente com a sua música.

O Hino

"Brava gente brasileira Longe vai temor servil - Nossos peitos, nossos braços - São muralhas do Brasil. .."

Ao compor o hino, esporeando furiosamente Euterpe com os acicates da pressa e obrigando a mestres esbaforidos a orquestra-lo e distribuí-lo,conseguiu D. Pedro, certamente, um recorde notável nos domínios,da arte musical. .. o hino da expedição que organizou para a conquista de Portugal em nome de,sua filha, D. Maria da Gloria, foi feito também as carreiras, num navio atulhado de gente, durante 0 trajeto de Belle-Isle a São Miguel:

A  17 de fevereiro de 1821, ao Imperador, seu pai: "Meu marido, que é também compositor, envia lhe uma missa, uma sinfonia e um "Te-Deum" que compôs, e para falar com franqueza é um pouco teatral; a culpa e antes da influencia do mestre; mas posso assegurar que tudo foi composto por meu maride sem auxilio algum" . Mais tarde, depois de vencida a campanha de Portugal, que lhe custara dois anos de sacrifícios e de amarguras, com o pulmão direito cheio de água e o esquerdo quase desaparecido, ainda tinha ânimo para abater sobre o teclado as suas mãos nervosas, nas intermitências  da tosse cruel que  perseguia. Depois do bombardeio do Porto, o piano foi o ruído predileto desse homem que envelhecera aos trinta e cinco anos.

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A Pintura

A pintura e a escultura não foram preocupações estranhas ao nosso primeiro imperador; Diz-se mesmo que chegou a frequentar com assiduidade as aulas de desenho da Academia de Belas Artes. Seu interesse pelos trabalhos da prensa litográfica foi tão grande que eles ficaram em moda por muito tempo na corte do Rio de Janeiro. E Gestas observa em 1821: "Les.litographes sont assez en vogue depuis surtout que l'Empereur du Bresil lui merna s'est occupe de cegenre de talent".

As caricaturas então feitas por Francisco Pedro do Amaral na prensa instalada na Quinta da Boa Vista, e que tanta sensação causavam, tiveram a colaboração maliciosa do monarca, como assegura o douto e autorizado Alberto Rangel, o autor de "D. Pedro I e a Marquesa de Santos" aponta como obras de D. Pedro uma pequena mosca pintada na parede de um dos aposentos da casa que pertenceu a Domitila, em São Cristovão, e uma coruja debuxada no estuque de cima das salas da Quinta Imperial da Boa Vista.

O Escultor

Cita ainda, o auto-busto que o imperador esculpiu para figura de proa da fragata "Pedro I", a coroa que fabricou para o esquife da esposa e o entalhamento do mausoléu de jacaranda" onde a morta repousou, o qual pode ser visto, ainda hoje, no Convento de Santo Antonio.

Era D. Pedro, alem disto, exímio nas artes de mecânico, de marceneiro e de torneiro. ' "Taus les arts mecaniques, obervou Monglave, lui furent bientot familiers.Il a construit et arme de ses propres mains'un petit vaisseau de ligne, miniature parfaite qui excite I'admiration des marins, et qui a du exiger une etude approfondie de nombreaux metiers qui se rattachent a la science des constructions navales" . o padre protestante Roberto Walsh faz mencao da oficina de carpintaria onde o imperador trabalhava e manifesta a sua profunda surpresa ao ter assistido a uma exposição de artefatos da lavra de D. Pedro I. Realmente, aos 16 anos já era grande a habilidade do príncipe nos domínios da marcenaria. A 7 de julho de 1814, D. Maria Matos mandava noticias dele ao conde dos Arcos: .....alguma coisa magro: mas muito 'crescido, tem trabalhado multo sua oficina de torno. Pediu, certa vez, ao capitão general da Baía, o despacho de um desembargador, lembrou-se, de súbito, das necessidades de sua banca de operário e incluiu na carta a encomenda de dezesseis qualidades de paus ). Eugene de Monglave refere-se também ao bilhar construído por D. Pedro, com todos os seus acessórios, e conclui:

"il est bien peu de branches d'industrie dans lesquellles il n'ait fait preuve d'une dexterite remarquable".

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O Desporto

Não ha dúvida que se D. Pedro sentia inclinações pronunciadas para as coisas do espírito, as suas preferências mais genuínas voltavam-se para os exercícios corporais, a equitação, a caca, as ocupações rnanuais. 0 seu grande prazer era descer as estrebarias, misturar-se aos picadores e lacaios para confundir-se com eles na lida com os palafrens fogosos e indomáveis. Não havia tropeiro ou cavalariço que conhecesse como ele os segredos da arte da gineta ou da estardiota. "A la maniere dont il tenait la bride de son cheval, observa urn cronista francês, on sentait la confiance du cavalier". E Eugene de Monglave leva ainda mais longe a sua admiração: "Ecuyer consomme, il guide ordinairement de son char quatre chevaux, et on la vu du fond de sa voiture, comme a pied, en diriger six en plein galop".

Em São João d'EI-Rei, conta Alberto Rangel, ficaram boquiabertos perante o príncipe, descalço e enfiado em pantalonas de chita, a experimentar, com o tino   os  animais que lhe haviam sido oferecidos. "Sendo mister ferrar a alimaria, continuou oautor de "D . ' Pedro I e a Marquesa de Santos", ele seria capaz de despalmar 0 casco com 0 puxavante e adaptar-Ihe a sola de ferro com as marteladas precisas; se necessário sangrar não o faria melhor, com 'a balestilha, um alveitar consumado".

D. Pedro orgulhava-se da sua habilidade e gostava de ostenta-la, de uma feita, durante uma de suas correrias pelos arrabaldes do Rio; deparou com um homem que, a beira da estrada; tentava ferrar, sem o conseguir, o cavalo 'em que viera montado.. Rápido, o príncipe apeou-se e bateu os ·cravos da ferradura com a pericia de um velho conhecedor do oficio, De outra, tendo parado a porta de um ferrador, mandou que este lhe ferrasse o animal. "Apenas começara o serviço, descreve Afonso de Taunay, viu-se repelido pelo monarca que, .a lhe dizer "sai dai, porcalhão, que não sabes o teu oficio!", tomou-lhe a ferramenta e; num abrir e fechar de olhos, ferrou o cavalo com a maior mestria".

Quando as necessidades políticas  o exigiam, voava pelas estradas do interior do pais suprindo as distancias imensas com o esfalfar de cavalos. A 21 de abril, despenca de Vila Rica e a 25, as oito horas da noite, chega a São Cristóvão. Pouco depois, afasta-se de um golpe a cortina do camarote imperial e surge a figura ofegante do príncipe, que exclama, orgulhoso, a plateia estarrecida que o supunha ainda a muitas léguas de distancia: "Em quatro dias e meio vim de Vila Rica. Tudo ficou tranquilo". Uma explosão de aplausos delirantes abala o edifício do teatro, não se sabia o que louvar mais: O resultado da missão pacificadora ou a vertiginosa viagem do jovem regente...

Maler, tomado de admiração, escrevia para o seu. governo: "Correu 80 léguas, a cavalo, em menos de 3 dias, Viajou trinta dias; e a fadiga não parece ter alterado a sua vigorosa saúde". O cônsul sueco refere que, na viagem do Rio Grande a Santa Catarina, o imperador chegou a fazer vinte e três léguas numa só jornada. Em cinco dias, escreve Rangel, D.,Pedro viera de São Paulo á Corte, ·insensível aos contínuos chuvaceiros que .pioravam os maus caminhos. Não o fatiga o galope incessante por noventa e seis léguas. Á noite, apeia-se no pateo,  revê a mulher e os filhos e na mesma hora sai de casa a fim de bater a porta de Jose Bonifacio.

Durante o cerco do Porto, D. Pedro prova as suas magníficas habilidades manuais. Os arsenais da cidade haviam sido bastante avariados pelos miguelistas, indispensavel se fez a substituição dos reparos das peças de artilharia que seriam instaladas nas fortalezas e nas linhas de defesa. Imediatamente, 0 ex-imperador do Brasil e então general em chefe 'dos exércitos da rainha fidelíssima, Põe mãos a obra e delineia um tipo novo de reparo, ainda desconhecido dos oficiais que o rodeavam, trabalhando um dia inteiro nessa obra. Estava reproduzindo uma engenhosa invenção do tenente Manuel Jose Onofre, do Arsenal do Rio de Janeiro, cujo modele conseguira conservar de memória. Ao presenciarem uma tão magnífica inovação na técnica da artilharia, os oficiais fizeram-lhe uma manifestação entusiástica a que ale se escusou atribuindo todo o mérito ao oficial brasileiro.

Com efeito, ninguém era mais indicado que o duque de Bragança para levar a bom termo a conquista militar de Portugal. D. Pedro tivera a infância dos grandes generais. Na fazenda de Santa Cruz havia verdadeiras batalhas entre ele e D. Miguel, que comandavam bandos de pequeninos escravos armados de pau e de espingardas de folha. Nesses combates, que vencia sempre, já se podia ver que não dava para oficial de estado-maior que manobra de longe os soldados. "Era, como observa Calmon, um chefe de vanguarda que arremete o seu largo sabre de madeira malhava duramente os derrotados sem excetuar o mano Miguel" .

O famoso Debret, em sua "Voyage Pittoresque au Bresil", desereve uma vitoriosa carga de moleques, chefiados pelo príncipe real, sobre um posto da guarda perto de São Cristóvão, cujos soldados tiveram de fugir ante as investidas e as valentes bordoadas dos assaltantes.

A leitura dos episódios da guerra peninsular reavivou-lhe o gesto inato pelas coisas militares.

Insuspeitissimo é o testemunho de Eduardo Bosche, oficial mercenário a soldo do Brasil: "Não há talvez no mundo soldado algum que entenda melhor do que D. Pedro do manejo das armas e dos exercícios com a espingarda, os soldados nunca a sabiam manejar convenientemente; D. Pedro, então, pegava numa espingarda, fazendo exercício junto com eles executava magistralmente todos os exercícios obrigando veteranos que tinham estado a serviço de seus países a reconhecer que nunca haviam visto pessoa mais eximia no manejo das armas"

Maler ficou pasmo, em 1822, ao ver D. Pedro manobrando três mil homens em exercício de ordem unida e de fogo com um desembaraço extraordinário, dizia ser impossível crer não ter tido ele um mestre de militâncias ou servido algum tempo ao pé de uma bandeira.

Pedro Calmon escreveu: "sabia as vozes, os movimentos, a técnica de caserna, como um veterano de Gomes Freire. Montava a cavalo como urn eguariço; .floreava osabre como um turco; mandava um batalhão como um alferes".

O Jornalista

O jornalismo foi outra das preocupações de D. Pedro. Sob os pseudónimos de "Ultra-Brasileiro", "P.B." e "P. Patriota" escreveu muitos artigos que foram publicados no "Espelho" e no "Diário Fluminense", que era de sua propriedade pessoal. Rangel e Assis Cintra publicaram um trecho da carta do proprietário "in nomine" do "Diário", Joao ..Loureiro, datada de 24 de novembro de 1828, em que se denuncia a colaboração jornalística de D. Pedro: "os únicos artigos que vieram no Diário Fluminense, eram da pena do Imperador, que escreve muito a miúdo, e guarda um anónimo de que - se gaba". o ministro francês no Rio de Janeiro, em oficio ao seu governo, datado de 7 de maio de 1823, informava ser D. Pedro o autor de um artigo de refutação ao marques de Monte Alegre alem de outros em que propugnava por uma aproximação mais intima entre ·0 Brasil e a antiga metrópole, assinando em todos o pseudónimo de "Ultra-Brasileiro", o eco das atividades do imperador na imprensa brasileira atravessou o Atlântico como. o comprovam as seguintes palavras publicadas pelo "Constitutionnel", de Paris: "Ont sait que le sage monarque enrichit frequemment Ie Diario Fluminense de sés artieles aussi bien en pensees qui bien ecrits ils -portent les .initiales P.B .". .

Como amostra do jornalismo de D. Pedro, um artigo de sua autoria inserto na "A .Voz . da Verdade" e reproduzido por A. Cintra nas suas "Revelações Históricas para o Centenário": O imperador tem muita paciência com toda esta gente. Ele tem feito tudo pelo Brasil e o Brasil nada por ele. O que significa essa oposição, fluminenses? Sossego, os Brasileiros, que os lobos vestidos de cordeiros, os anarquistas republicanos, 'querem .turvar as 'águas para devorar os inocentes. Perdestes a razao? - Onde estais que não vedes a loucura de falar de vosso -imperador ? :Ele é justo e defensor dos fracos e amigo ·dos· amigos, Ingratos! "Quem fez a vossa independência? Falais em Maçonaria ? Mas ela conspirou ate 1822 sem poder fazer nada, e se quis alguma coisa foi preciso recorrer a D.Pedro, e sem ele nada se faria.Quem fez a Assembleia Constituinte? Foi 0 imperado D.. Pedro, contra a vontade dos seus próprios ministros e do seu próprio pai. Nem a Maçonaria, nem o Ledo, nem o Clemente, nem o Andrada, nem ninguém, seria capaz de fazer ° que o imperador, que e brasileiro de coração queria fazer. Se ele quisesse, ainda éreis o que fostes ó Brasileiros patriotas, rememorai o sucedido e vinde dizer se ha. razão .para se atacar o príncipe que quebrou os grilhões da pátria, que é nossa.

"Rememorai e vereis a verdade que anarquistas, republicanos, perversos e retrógrados, pretendem agora esconder, conspirando em conventiculos malditos por Deus e pela lei nas deshoras da noite. Se acompanhardes esses lobos, ó Brasileiros, não conteis mais com  o imperador.. "La do outro lado do mar, ha um glorioso povo que muito o quer e que muito o chama. E se o perderdes, e se ele partir, ali do Brasil nas garras dos anarquistas republicanos. Pobre Brasil! É tempo de ter juízo", "P. Ultra-Patriota",

Educado convenientemente, D. Pedro foi um príncipe quase perfeito. Poucos homens puderam, como ele, ostentar talentos tão varios e habilidades tão prodigiosas. Quando se tratava, no Rio de Janeiro, do reconhecimento da independência por parte de Portugal, lord Stuart chegou a dizer ao barão de Mareschal que os três representantes brasileiros, embora mais letrados, valiam muito menos como negociadores do que o imperador. Se não chegou a ser culto, D. Pedro muito beneficiou a cultura do Brasil. Ao assumir a regência, um dos seus primeiros gestos foi a isenção de emolumentos alfandegários a toda espécie de livros e a abolição da censura prévia, que era imposta a todos os escritos impressos nas tipografias do pais.

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Além da independência política, devemos a D, Pedro a independência universitária do Brasil, proclamada em 1827 com a criação dos cursos jurídicos, e consequente rompimento com a universidade de Coimbra, berço tri-secular da cultura brasileira.

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