Artigos

Dom Pedro I e nossa bandeira

(O texto, pela sua antiguidade, poderá apresentar ortografia deficiente)

Como amigo não se tem registro de alguém haver desconfirmado ou renegado a amizade pessoal de Dom Pedro até á sua morte, permaneceu fiel aos que considerava 'seus'.

Ideias delirantes, enfim, como a da desmobilização do Exercito em plena guerra, e outras, quase adotadas pela Assembleia. O resultado, como forçosamente não poderia deixar de ser, e conhecido: "seria a dissolução da força armada... Preferiu o Imperador a da Assembleia", anotaria Pedro Calmon.

Os irmãos Andrada sempre foram ligados por inabalável amor fraterno, mas jamais atuaram em uníssono: enquanto a experiência de Jose Bonifacio mantinha-o em atitudes políticas moderadas e ponderadas, sempre fiel ao Imperador mesmo depois de haver deixado o ministério, Martim Francisco e Antonio Carlos, mais moços, eram desabridos e muita vez radicais na defesa dos postulados liberais, e nas invectivas ao governo.

Com a dissolução da Constituinte em 13 de Novembro de 1823, a pecha dos irmãos cairia sobre " o Velho".

O Imperador estava de certo modo cercado por portugueses, tanto no governo, como no Exercito e Marinha, e pelo comercio do Rio de Janeiro; e o grande Andrada, fora um dos mentores talvez, o principal da Independência.

jose bonifacio

Jose Bonifacio foi preso, e Dom Pedro pouco poderia fazer a respeito nas circunstancias, apesar de na ocasião haver dito que o antigo ministro "era perfeitamente inocente, só desejava o meu bem e me queria como a um filho". A prisão, sucessivamente em duas fortalezas, seguiu-se o banimento, e a viagem a bordo da charrua portuguesa "Luconia", que o próprio  Bonifacio mandara apresar, á época do grito do Ipiranga. Assim, Jose Bonifacio partiu para a Europa, com uma dotação anual ate certo ponto modesta, um conto e duzentos mil reis.

A propósito da Constituinte, o Andrada viria a afirmar - como, mais tarde, que a dissolução fora um ato jurídico praticado de pleno direito pelo Imperador: se a convocara sem ser a isso coagido por qualquer lei, mas somente usando o seu poder absoluto de Regente do Brasil, enquanto não houvesse uma Constituição que lhe delimitasse os poderes continuava no exercício de tal poder absoluto; e com base neste poderia adotar a providencia que julgasse conveniente.

Alem dessas razoes políticas, enquanto ainda membro da própria Constituinte, e já demitido do governo, o Andrada via outra conveniência: dotar o Imperador ao País, desde logo, de uma Constituição, sem esperar os trabalhos da Assernbleia, para evitar males maiores; nesse sentido, alias, encarregou seu amigo Barão de Mareschal, representante austríaco, de conversar com o monarca, mas Dom Pedro rejeitou o conselho.

Quanto ao acerto da dissolução, um e outro, Bonifacio e Feijó, viriam a dizer que ela garantira ao Pais dez anos de paz política. Quando finalmente o Patriarca regressou ao País, após cinco anos e oito meses de exílio na Franca - quase imposto a Dom Pedro pelo partido inimigo dos Andrada, então no governo - o Imperador já estava casado com a segunda esposa, D." Amélia; e mais de uma vez foi recebido pelo casal, dando-lhes conselhos, ouvidos e inúmeras vezes pedidos, sobretudo pela Imperatriz. Numa dessas ocasiões, inclusive, o Imperador tentou interrompe-lo nesses conselhos, mas a esposa voltou-se para o marido e fez-lhe o sinal que e universalmente imperativo de silencio, colocando o dedo indicador em riste junto aos lábios: o antigo ministro e sempre amigo, prosseguiu o que dizia.

150px Dompedroiibebe

Quando Dom Pedro abdicou, nomeou Jose Bonifacio para tutor do imperador-menino Dom Pedro II e de suas duas irmãs, que deixava no Brasil. O que mais, para traduzir uma amizade inabalável? Abdicante e partindo para o exterior, não foi a algum aliado fácil, mas ao caustico, prudente conselheiro e discordante Andrada que o Imperador quis para tutor dos filhos. Chega a ser impressionante a carta que dirigiu a Jose Bonifacio, na ocasião:

"Amicus certus in re incerta cernitur.

E chegada a ocasião de dar mais uma prova de amizade, tomando conta da educação do meu muito amado filho, seu Imperador. Eu desejo em tão patriótico [sempre a Pátria, reflita-se] cidadão a tutoria do meu querido filho e espero que, educando-o naqueles sentimentos de honra e de patriotismo com que devem ser educados todos os soberanos para serem dignos de reinar, ele venha um dia fazer a fortuna do Brasil, de que me retiro saudoso. Eu espero que me fará este obsequio, que, a não me fazer, eu viverei sempre atormentado. Seu amigo constante, Pedro.

A resposta do grande Andrada a tal carta, aceitando a tutoria da qual viria a ser destituído pela regência três anos depois, e suficiente para desvendar a gama de sentimentos que ligavam esses dois super-homens:

"Senhor

A carta de Vossa Majestade veio servir de pequeno incentivo ao meu aflito coração: pois vejo que apesar de tudo V.M. ainda confia na minha honra e pequenos talentos para cuidar na tutoria e educação de seu Augusto filho o Senhor D. Pedro II. Se eu não puder obter a confirmação da Regência e Câmaras, ao menos como Cidadão particular não deixarei um só momento de vigiar sobre a sua futura felicidade e aproveitamento, por todos os meios que me forem possíveis, enquanto durar este sopro de vida que me anima. Confie V.M. em mim, que nunca enganei a ninguém, e nunca soube desamar a quem uma vez amei.

Rogo a V.M. que me ponha aos pés das Augustissimas Senhoras Imperatriz e Rainha de Portugal,por quem rogo ao Deus do universo, do fundo da minha alma, se digne felicitá-las em todo o tempo e circunstancias desta nossa miserável vida. Iguais votos encaminho aos Céus o meu sincero coração pelo soberano, que foi da minha escolha, e pelo meu amigo.

Beija as mãos de Vossa Majestade

Jose Bonifacio de Andrada e Silva.

Essas duas memoráveis cartas foram publicadas no vol. 260, daRevista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Dompedro5anos

Entretanto, nenhum testemunho melhor dessa amizade, do que a carta publicada no mesmo volume da citada revista; esta, Jose Bonifacio escreveu ao imperador-menino Dom Pedro II, então com 9 anos, por ocasião da morte de Dom Pedro I:

 "Senhor,

Depois do fatal mês de Dezembro do ano passado [nessa data, Jose Bonifacio fora destituído da tutoria, á forca, pela Regência], deixei por necessidade de escrever a Vossa Majestade e as suas Augustas Irmãs, a quem um só momento não tenho cessado de fazer ardentes votos pela sua prosperidade: hoje, porem, não ha razão, por mais poderosa que seja, que possa vedar ao meu coracão ir a presença de Vossa Majestade e Altezas. Carregado de pesares e de profunda amargura, eu vou dar os pêsames pela irreparável perda de seu Augusto Pai, o meu Amigo.

Não disse bem, D. Pedro não morreu - só morrem os homens vulgares, e não os Heróis. Eles sempre vivem na memória ao menos dos homens de bem, presentes e vindouros; e sua alma imortal vive no Céu, para fazer a felicidade futura do Brasil e servir de modelo de magnanimidade e virtudes a Vossa Majestade Imperial, que o ha de imitar, e a suas Augustas Irmãs, que nunca o perderão de saudade.

Deus guarde a preciosa vida de Vossa Majestade Imperial, como de coração lhe deseja este, que sempre foi e será Senhor, De Vossa Majestade súbdito-amante fiel.

Jose Bonifacio de Andrada e Silva

No entanto, o 'desmonte' - no seu tacanho obscurantismo e abuso cultural - passou as gerações seguintes, simplesmente, que Pedro I perseguiu Jose Bonifacio, sem acrescentar os laços de amizade que sempre os uniram .

Outro exemplo de amizade sempre fiel, foi com a Marquesa de Santos: em que tenham pesado já haver contratado na Europa o seu segundo casamento, e o consequente rompimento da relação, assim como o posterior relacionamento da marquesa com seu primo e depois marido Raphael Tobias de Aguiar, jamais o Imperador deixou de ter todas as deferências para com os pleitos da antiga predileta; ao ponto de, como já se referiu, no seu testamento final pedir á segunda Imperatriz que cuidasse da Duquesa de Goiás, filha do romance com a marquesa.

E, apesar da irmandade, não se pode considerar amizade 0 que fez com o seu grande inimigo, o próprio Dom Miguel I, ao impedir que um soldado liberal o atingisse e depois, ao conceder-lhe uma pensão no exílio?

Com certeza, não se encontra na vida de Dom Pedro qualquer ato que traísse amizade sincera, inclusive em relação ao Plácido, ao Chalaca, ou ao Carlota.

Pedro I morreu, em 1835, como vivera desde 1798, e marcadamente desde sua chegada ao Rio de Janeiro: salvo entre adversários políticos, o que e normal, sem nenhum inimigo pessoal.

 Etica e Cidadania para a Consolidação da Paz e SegurançaINSCREVA-SE

Reserve a sua participação.

Um projeto de investigação e formação na CPLP e Europa

Envie-nos o seu artigo

Deseja ver o seu artigo publicado na Associação dos Amigos das Forças Armadas Portuguesas? Envie-nos o seu artigo por através de email para: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. . Após ser revisto e aprovado procederemos à publicação.