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(O texto, pela sua antiguidade, poderá apresentar ortografia deficiente)

721 dom pedro

(O texto, pela sua antiguidade, poderá apresentar ortografia deficiente)

Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Gabriel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Realmente, é um nome digno de um soberano, mas ele ficou conhecido simplesmente como dom Pedro I, no Brasil, e dom Pedro IV, em Portugal. O monarca, nosso primeiro imperador, também era chamado de o Libertador por ter proclamado a independência brasileira.

A natureza dotou Dom Pedro de fortes paixões e grandes qualidades. As últimas foram reveladas pelas circunstâncias, mas nem a educação, nem a experiência, haviam domado as primeiras, quando sua conduta, como príncipe soberano, se tornou importante aos olhos do velho e do novo mundo. Daí os depoimentos contraditórios que dele temos, partidos de várias pessoas, que poderiam supor terem estado em excelentes condições para julgá-lo.

Foi levado da Europa e seus requintes com a idade de 11 anos, para uma colônia remota, terrivelmente corrompida pela escravidão, e acompanhado no exílio por alguns nobres portugueses, cujos hábitos e a moralidade não poderiam ser da menor vantagem na formação do seu caráter, e por um bando dos mais desprezíveis e degradantes agregados do Palácio de Lisboa.

O chefe destes devia sua posição à fortuna (ganha de maneira que dificilmente poderá ser averiguada), e havia sido inicialmente servente das Reais Cavalariças. Sua mulher, outrora uma irlandesa extremamente bela, era a filha de uma lavadeira.

Na ocasião da chegada da Família Real ao Brasil, seguiu-se o sistema do costume entre os Braganças: os jovens príncipes foram afastados, quanto possível, de todo conhecimento dos negócios públicos e casos do Estado.

Passavam o tempo principalmente no apartamento da velha aia, que os acompanhara de Portugal, ou numa espécie de caçadas ligeiras que se permitem aos Príncipes do Sul da Europa, ou em divertimentos, dos quais o único respeitável era a música. Quando cresceram, empenharam-se em pô-los em contato com cenas de vício e deboche.

Em resumo: a educação dos Príncipes foi, em geral, tão desprezada que, eles próprios, se queixavam, quando crescidos, de mal saberem ler e escrever. Houve uma tentativa fracassada de dar-lhes um tutor na pessoa do Padre Boiret, francês residente por muito tempo em Lisboa, mas suas maneiras e moralidade eram tais que Dom Pedro, escandalizado e aborrecido, disse francamente a seu pai que não receberia instrução de tal mestre.

Estava destinado a dever sua primeira educação a pessoa bem diferente. A beleza de uma graciosa dançarina de teatro, filha de um artista francês, impressionou o jovem príncipe desde a primeira vez que a viu. Procurou logo uma apresentação. Em breve ficou apaixonado por ela e o seu amor foi correspondido.

Os que o cercavam, bem como as pessoas da corte, viram nisso uma aventura que poderia acostumá-lo a certas relações, e a afastá-lo de certa sociedade, de que eram ciumentos, e assim não somente animaram, como incrementaram sua paixão. Foram ao ponto de dar uma vultosa quantia à mãe da dançarina para que ele pudesse gozar do privilégio exclusivo de visitá-la.

Mas a honra e os escrúpulos que esta tinha não puderam ser vencidos; Dom Pedro, incapaz de dominar sua paixão, desposou-a secretamente. Ela era extremamente educada e empreendeu a educação de seu real apaixonado.

Foi isto pelo tempo da paz geral na Europa, quando, sem conhecimento de Dom Pedro, se fizeram negociações, em seu nome, no sentido de lhe obter a mão de uma arquiduquesa austríaca. Nada poderia igualar o desespero do jovem príncipe, quando veio a saber que a Arquiduquesa já estava embarcada, em caminho para o Rio. Recusou desfazer-se de sua mulher, como teimava em chamá-la. Recusava despedi-la apesar das ordens, das ameaças de ser deserdado, feitas pelo seu tolo pai, sua imperiosa mãe e por toda a corte e ministério.

A Rainha ainda condescendeu em confiar na dançarina, achando que as ameaças não davam resultado sobre ela e só exasperavam o príncipe. Tentou suborná-la com riquezas superiores a seus desejos e com as mais preciosas joias, impondo a única condição de ir gozar delas na Europa. Prontificouse, além disso, a obter-lhe casamento com um homem de condição elevada, cujo caráter e conduta seriam uma segurança para sua futura felicidade. Mas tudo foi recusado, pois a dançarina era moça e estava muito apaixonada.

Afinal, estava tão próxima a chegada da Arquiduquesa que a Rainha se viu obrigada a fazer mais um esforço e desta vez foi bem sucedida, tendo falado à moça na vantagem e felicidade do próprio Príncipe e não de seu próprio interesse, acenando com a possibilidade de ele ser deserdado se ela continuasse a a respeito da história da dançarina, em breve reconciliou Dom Pedro com o seu dever.

Ela se tornou sua companheira constante nos seus passeios e excursões pelas florestas selvagens que envolvem o Rio por todos os lados, e nos estudos que ele prosseguiu com maior ardor que antes, sob a direção da esposa. A determinação desta, de não magoar ou chocar uma alma recém-ferida, obteve, senão a mais calorosa afeição do marido, ao menos sua total confiança e completa estima.

Entrementes, as intrigas do Palácio e seus habitantes ciumentos de qualquer estrangeiro tornaram de tal maneira difícil a situação das damas que haviam acompanhado a Arquiduquesa, que elas se dirigiram, incorporadas, a Dom João VI, e insistiram em ser recambiadas para a Europa, seis meses depois de chegadas.

Tendo morrido de repente o jovem que havia acompanhado a Arquiduquesa como secretário, provavelmente devido à mudança de clima, essa morte foi atribuída a envenenamento e, desde aí, Maria Leopoldina não teve mais o conforto de uma companhia e de uma notícia de sua própria terra.

A primeira vez que Dom Pedro teve ocasião de manifestar seu espírito como homem público, foi no dia em que a Constituição foi imposta a Dom João VI, juntamente com a igualdade de direitos do Brasil e Portugal. No meio dos gritos de alegria do povo, Dom João e a Rainha concertaram secretamente os meios de uma rápida volta a Portugal, de modo a reinar em uma corte mais absolutista, e então, pela primeira vez, chamaram Dom Pedro a tomar o lugar que lhe competia como segunda pessoa no governo.

Resolveram deixá-lo como Regente no Brasil até que pudessem mandar da Europa tropas suficientes para abafar o que chamavam “o espírito revolucionário” que lhes havia imposto uma Constituição.

Entretanto, algumas pessoas no Palácio (segundo se cochichou, a própria Rainha) haviam autorizado alguns guardas a atirar sobre a Assembleia da Cidade, onde os cidadãos estavam pacificamente reunidos. Mas Dom Pedro, reunindo alguns milicianos na cidade, com outras tropas, marchou em defesa da Assembleia, e o fez com tal eficiência que o dano causado pelos atacantes foi pouca coisa mais do que janelas quebradas. Na tarde do mesmo dia, a população tirou os cavalos da carruagem de Dom João e arrastou o Rei, a Rainha e a Corte, para assistirem sua ópera favorita – La Cenerentola.

Na manhã seguinte toda a comitiva real, tanto quanto permitiram as acomodações do navio, saía barra fora em demanda de Lisboa, deixando Dom Pedro como regente num território que continha mais graus de latitude e longitude que toda a Europa reunida e cujos habitantes acabavam de alcançar um grau de densidade e civilização que não podia dispensar um governo local.

A necessidade de tribunais de Justiça na terra, para evitar a remessa das menores causas para serem decididas além do Atlântico; o desejo natural de ver alguns compatriotas ocupar cargos de confiança até então exercidos somente por estrangeiros e os clamores anômalos de uma população mista de livres e escravos, tornavam a posição do príncipe de uma dificuldade fora do comum.

Em fins de setembro de 1821 a Fragata britânica Doris chegou a Pernambuco e verificou que o partido brasileiro, resolvido a separar-se da Mãe-Pátria, havia se aproximado da cidade com uma força considerável, obrigando o Governador Luiz do Rego a cortar as pontes de comunicação com o interior e a erguer uma estacada além dos subúrbios para proteger os habitantes.

A Fragata ficou muitos dias ancorada e deixou o Governador Realista e o Comandante das forças da terra em tão bons termos que o último até permitiu a entrada de mantimentos na cidade e o Governador desistiu de hostilidades ativas até que pudesse receber uma resposta do Príncipe, no Rio, às propostas dos patriotas.

Quando a Fragata chegou à Baía, a cidade estava perfeitamente tranquila, mas, não muitos dias depois, apareceram também os patriotas, vindos do interior; tinham uns poucos oficiais experimentados a mais que os pernambucanos e também alguma artilharia, mas o grosso das tropas era tão misturado de cores quanto as do norte. Era uma cena curiosa de ver-se, dos navios no cais, a artilharia da cidade, assestada no largo do teatro, que se ergue exatamente na borda da elevação em que fica a cidade.

O dia e mesmo a hora para uma batalha pareciam fixar-se. Os patriotas deviam avançar do fundo da cidade; estavam já armados, à margem do pequeno lago, a menos de um quarto de légua de distância. Mas o tempo não estava propício; as chuvas tropicais convertiam as estradas em rios de lama vermelha e, como em Pernambuco, os baianos também concordaram em esperar até que ouvissem do Príncipe Regente, se ele iria ficar à testa do Brasil Independente e Igual, ou submeter-se aos termos assaz degradantes propostos pelas Cortes de Lisboa. A Fragata seguiu ainda para o Sul e ancorou na Baía do Rio de Janeiro. Mal haviam os oficiais feito os seus preparativos a bordo e iniciado suas relações com os comerciantes da praia, quando rompeu um motim entre os soldados, mas com intuitos muito diferentes dos patriotas do norte.

No Rio, os soldados haviam determinado forçar o príncipe a obedecer às Cortes de Lisboa e colocar o Brasil no pé em que estava antes dos Braganças nele se haverem refugiado, a fim de voltar a Lisboa para começar sua educação pessoal. Dizem os que estavam presentes quando Dom Pedro abriu os despachos das Cortes, que nada poderá dar ideia da indignação que ele exprimia em cada trecho deles.

Tendo passado sua vida, desde os onze anos, no Brasil, estava a ele fortemente ligado e desposara calorosamente seus interesses. Protestou em altas vozes contra a injustiça de remover os Tribunais de novo para o outro lado do Atlântico, exatamente quando a nação estava começando a colher o benefício de uma rápida e certa administração da justiça, e, quanto ao que se referia a ele pessoalmente, está claro que protestou por ser tratado como estudante, quando já era marido e pai, e havia exercido as funções de Príncipe Soberano.

Dom Pedro montando a cavalo, dirigiu-se ao Jardim Botânico, a cerca de seis milhas de distância, onde estava postado o principal Corpo de Artilharia e depois de colocar os Paióis de Pólvora e a Fábrica em segurança, trouxe os canhões grandes para a defesa da cidade e passou a noite toda reunindo os diferentes corpos da Milícia e das tropas nativas brasileiras para proteger a praça da ameaça de saque pelos portugueses.

Ao raiar do dia, uma força avaliada em oito mil homens estava reunida, pela maior parte postada no Campo de Sant’Anna, a maior praça do Rio, e ocupando o caminho entre o Morro do Castelo e a grande estrada para o interior, e também dominando o aqueduto que fornece ao Rio quase toda a água potável.

Os oficiais portugueses haviam se esquecido de que o Morro do Castelo não era abastecido de água e que qualquer sucesso que eles pudessem esperar dependeria de um golpe de mão. Mas desapontaram, não somente com a natureza da posição que haviam ocupado, como porque um estratagema muito engenhoso por eles planejado para obter armas e munições das Ilhas das Cobras, foi frustrado pela rapidez do Capitão do Porto que lhes tomou o barco exatamente no momento em que iam realizar o intento. Nada poderá exceder a excitação que reinava na cidade.

Comerciantes trataram de colocar seus papéis, dinheiro e joias a bordo dos navios no porto. O Príncipe e seus conselheiros tomaram as suas providências tão judiciosas e eficientemente que, no início da tarde, os ocupantes do Morro do Castelo se renderam; a última guarda portuguesa marchou para fora do palácio e a primeira guarda brasileira tomou-lhe o lugar, para nunca mais ser substituída nem por uma hora. Os regimentos rebeldes portugueses foram mandados para o outro lado da baía, onde ficam os armazéns públicos chamados Estabelecimentos de Bragança10. Muitos poucos dias foram necessários à obtenção de transportes que os levassem para Lisboa. Os oficiais, contudo, ameaçavam abertamente voltar ao Rio, ou descer na Bahia ou Pernambuco, e punir seus inimigos. Mas parece que ou mudaram de ideia ou os comandantes dos Transportes foram inflexíveis, porque chegaram a seu destino e tiveram que comunicar a presença a contragosto, às Cortes, sem o Príncipe que eles se haviam comprometido a levar.

Durante este tempo, as diferentes capitanias concordaram em reconhecer Dom Pedro como Imperador, com a condição dele declarar o Brasil separado e independente de Portugal, renunciar por si e por seus herdeiros no Brasil, para sempre, a todas as pretensões ao trono de Portugal e, no caso de qualquer ramo de sua família ser chamado ao trono português, exigir, da parte dele, um solene ato de renúncia ao Brasil.

A Constituição devia ser, pois, representativa e modelada muito mais pela dos Estados Unidos do que pela da Inglaterra

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