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Amélie of Leuchtenberg 1840

(O texto, pela sua antiguidade, poderá apresentar ortografia deficiente)

O segundo casamento não era encarado com inquietação apenas pela Áustria. A França e a Inglaterra eram de opinião que ele viria complicar ainda mais o já tão confuso e difícil problema da sucessão portuguesa. As potencias reconheciam a D. Miguel direitos eventuais a sucessão de D. Maria II, caso viesse ela a morrer nas circunstancias então existentes.

Mas se D. Pedro, que ainda era rei de Portugal, viesse a ter outros filhos varões, D. Miguel ficaria privado desses direitos pois seriam eles, por certo, reclamados para o segundo ramo bragantino que se formaria no Brasil.

Diante de tantos empecilhos, as negociações foram suspensas e D. Pedro escreveu ao imperador da Áustria agradecendo os .seus bons ofícios e pedindo .. que "não continuasse a procurar repulsas".

Chamado ao Rio para receber novas instruções, Caldeira Brant aqui chegou a 12 de maio de 1828. Nem dois .meses se demorou o marques no Brasil. A 5 de julho, zarpava novamente para a Europa, pajeando a rainha de Portugal e encarregado de reiniciar a procura de uma noiva para D. Pedro.

Instruções imperiais diziam : "0 meu desejo e grande fim é obter uma princesa que por seu nascimento, formosura, virtude e instrução, venha fazer a minha felicidade e a do Império: quando não seja possível reunir as quatro condições, podereis admitir alguma diminuição na primeira e na quarta, contanto que a segunda e a terceira sejam constantes".

Nesse ínterim, Metternich, abusando da boa-fé do nosso ministro em Viena, fez com que D. Pedro fosse, ainda uma vez, recusado espetacularmente. Acenando ao marques de Resende com a gloria de obter uma imperatriz para o Brasil, 0 chanceler austríaco acabou convencendo-o de que devia pedir ao príncipe da Suécia a mão de sua irmã. "0 príncipe, contou depois Barbacena, fingiu aceitar o partido: deu-se conhecimento disto ao imperador da Áustria, soube-o todo corpo diplomático e foi o pobre Resende encontrar-se com o príncipe em Karlsruhe em dia e hora indeterminada para pedir a princesa que deu um "não" redondo, tendo Metternich o cuidado de o fazer publicar em todas as gazetas". .

Conhecendo, ao chegar a' Gibraltar, 'a' recusa da princesa Cecília, Caldeira Brant apressou-se em escrever ao imperador dizendo que aquilo servia "para convencer aos demais incrédulos da perfidiade 'Metternich que, longe de ser o instrumento para fazer, tem sido o mais enérgico em desfazer qualquer; "casamento para Vossa Majestade". E perguntava quem haverá que em seu juízo perfeito possa persuadir-se que a filha de um rei 'destronado, e que vive " á mercê inteiramente dependente do império da Áustria, recusasse a mão do imperador do Brasil, a não ser para isso obrigada pelo gabinete austríaco?".

Para ele. a única solução é procurar uma princesa .fora da influencia de Viena: "Em Londres saberei ouro e fio o que se passou a este respeito e enquanto a Áustria me supuser inteiramente absorvido com os negócios de Portugal, e cuidando de fazer viagem para Viena, ajustarei o casamento de V. M. com alguma das princesas que não estão debaixo da tutela da Áustria, e sem lhe dar tempo para intrigar".

As tentativas feitas na Dinamarca não foram mais felizes. Mandou Barbacena um enviado a Copenhague encarregado de remeter informações exatas sobre os dotes físicos e morais da princesa sobrinha do rei.

O emissário, sem tê-la visto ainda, e baseando-se apenas na voz geral, fez as competentes aberturas, muito animado, Brant escreveu longas e esperançosas cartas ao imperador. Mas a desilusão não tardou. Chegaram de Copenhague informações mais precisas que o plenipotenciário retransmitiu para o Rio: "Sei agora que a princesa e com efeito elegante, mas tem os olhos, pestanas e sobrancelhas albinas, como todas as princesas da Dinamarca, o que basta para tornar repulsiva, ainda a maior beleza do mundo. Quereria V. M. semelhante noiva? certamente não. Vou, portanto, suspender minhas diligencias por aquele lado e continuar nos outros", as démarches junto a princesa Luiza de Baden não puderam prosseguir porque ficaram subordinadas a "aprovação e conselho do grão-duque chefe da família".

Ora, o duque era amigo e dependente de Metternich e nada fazia sem ouvi-lo. Pedir seu consentimento era expor D. Pedro a mais uma humilhação por parte do chanceler austríaco, que desmancharia imediatamente o casamento.

A impaciência do imperador atingiu o auge quando Mareschal  o procurou, no dia 15 de janeiro de 1829, para entregar-lhe uma carta de Metternich pedindo mil desculpas por não estar ainda concluído o casamento e repetindo as histórias de sempre sobre os contínuos insucessos. O Chalaca, dois dias depois, descreveria a cena ao marques de Barbacena: "S. M. fez reflexões com bastante acrimónia contra Metternich, e mui principalmente quando no fim da carta dizia que o casamento sempre se havia de arranjar, que mostrasse os dois retratos, um da princesa Cecília e outro da princesa Amélia (a primeira que tinha dado um não e a segunda que era aleijada) , S. M. respondeu que não podia deixar de sair do seu sério, que o cumulo do desaforo e patifaria a que podia chegar a "ruse" de Metternich, era enviar-lhe aqueles dois retratos ,para deste modo ver se podia cativar sua benevolência relativa ao negócio de Portugal, e que uma vez que esta carta era de Metternich sem que o imperador nada tivesse com ela, ele, , Metternich se tornava cada vez mais aborrecido e desavergonhado; que lhe reenviasse os retratos, dizendo-lhe que bastava ser coisa mandada por ele, para não ser digna de ser vista pois S. M., e quanto a negócio de casamento, tanto com ele Mareschal como com Metternich, e corte d'Áustria, estava por ora acabado, bem como com qualquer outra corte".

Metternich interpretou essa explosão de D. Pedro como uma desistência da luta, sentiu-se vitorioso, mas enganava-se redondamente. Enquanto os diplomatas se mantinham inativos, dando ao ministro austríaco a impressão dessa desistência, os intermediários trabalhavam em silêncio e ajustavam, definitivamente as segundas núpcias. Em dado momento, porem, Metternich pressentiu as negociações e desencadeou logo uma violentíssima campanha contra D. Pedro fazendo com que os jornais se enchessem, mais uma vez, de calunias e difamações contra ele e indo mesmo ao noticiar, como já realizado, o casamento do imperador com a marquesa de Santos. "

2casamento

Mas era tarde. A 2 de agosto, em Munich, realizava-se o casamento do soberano brasileiro com D. Amelia Napoleona de Leuchtenberg. O invencível ministro de sua majestade acabava de sofrer uma derrota.   

Antonio Fortunato de Brack, tenente-coronel da guarda imperial napoleónica, descobriu na Baviera o que a raça alemã possuia de mais gracioso e encantador.

Embarcou para o Brasil, revelou a D. Pedro a sua ideia retomou a Europa munido de instruções particulares.

A noiva não reunia apenas os dois requisitos essenciais exigidos pelo imperador, formosura e virtude. Havia, ainda, uma circunstancia de 'grande significado, pertencia ela a uma casa tradicionalmente inimiga de MetterIiich. Assim, o golpe seria mais profundo e a vitoria de D. Pedro mais completa.

D. Amélia foi a felicidade conjugal que surgiu quando D. Pedro a julgava perdida para sempre. O retrato que Barbacena mandou da Europa foi o começo da conversão , o príncipe transformou-se , o Chalaca não o reconhecia mais: "Nosso amo, escreveu ele, depois da chegada do paquete (com o retrato) mudou de vida; não dorme fora de casa, faz suas visitas sempre acompanhado de camarista, e nada de novo . . . "

A 16 de outubro de 1829, chegava ao Rio de Janeiro a fragata "Imperatriz", trazendo em seu bojo a noiva, D. Maria da Gloria e o dedicado Caldeira Brant.

Este, dias depois, descrevia a Palmela as interessantes circunstancias do encontro de D. Pedro com sua filha e sua espcsa : "0 imperador meu amo foi encontrar as fragatas fora da barra, e tamanho foi o seu prazer abraçando a rainha, que perdeu quase os sentidos. A imperatriz, que estava mui tímida, e sem atrever-se a dizer palavra, tomou coragem ao ver aquele transporte de ternura paternal, e ajudou-me a prestar algum socorro ao imperador. Desde aquele momento eu vi os noivos tão ocupados um com o outro, como se fossem namorados de muitos anos e o recíproco entusiasmo tem subido a tal ponto, que neste memento eu considero aqueles dois entes como os mais felizes do mundo" .

E D. Amelia era, de fato, a pessoa de que D. Pedro e o Brasil necessitavam. Sem a passividade evangélica e a submissão humilde de D: Leopoldina, pode exercer na corte do Rio de Janeiro uma ação benéfica e moralizadora.

A marquesa, conformada discretamente ao exílio de São Cristovão, era apenas um símbolo apagado das estroinices e leviandades do imperador. Todos os vestígios da passagem da favorita foram prontamente removidos, a começar pela duquesinha de Goiás .

A família imperial voltou a ser a imagem da família brasileira, cheia de tradições, de austeridade e de pureza . D. Amélia não se limitou a intervir na vida domestica, modificando tudo, alterando a fisionomia dos salões do paço, impondo uma etiqueta e um cerimonial a corte burguesa do Rio de Janeiro, inculcando, pelo exemplo, os seus hábitos de grande dama. Foi alem , exerceu um papel de relevo na vida política do Brasil. Sua amizade e apoio a Barbacena permitiram que iniciasse, com tão grande proveito, a obra de consolidação da monarquia vacilante. ·Contribuiu, mansa e habilmente, para o afastamento dos que impopularizavam o trono e constituíam fácil alvo dos inimigos da realeza. Conseguiu, talvez, adiar o sete de abril que se urdia traiçoeiramente na penumbra dos conciliabulos secretos. E quando chegou o momento da abdicação, D. Pedro encontrou nela o balsamo que alivia, um suave conforto para seu coração amargurado, Na Europa, ate ao último instante, continuou sendo o nome tutelar do Bragança imperial. Anima-o nas lutas liberais da Península como D. Leopoldina o incitara a desencadear a campanha da independência. Nos momentos trágicos como nas horas felizes, sempre a mesma, fiel, carinhosa, sensata, cordial, conciliante e generosa .

Nas praias brancas da Terceira, no convés das fragatas de D. Maria II, no mais aceso da luta constitucional, nas noites longas do cerco do Porto e na trepidação formidável das cargas fulminantes, não lhe abandonava o pensamento aquela figurinha delicada de mulher velando no berço de Duro de Meudon a frágil! Princesinha D. Amélia.

E quando a morte o surpreendeu em Queluz, o nome dela bailou, no derradeiro ·instante, sabre os lábios trémulos do moribundo.

Nunca, escreveu alguém, sabre o trono português mais lancinante dôr feminina chorara ainda a viuvez como a chorou Amélia de Leuchtenberg, a quem D. Pedro agonizante estreitava as mãos transparentes, como se 0 fio da vida se lhe prendesse, aéreo, a maravilhosa serenidade do seu sorriso ... "

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