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Palmela

(O texto, pela sua antiguidade, poderá apresentar ortografia deficiente)

"Dotado de raras faculdades de inteligência e de habilidade, foi .talvez mais diplomata do que. a fora das armas, que D. Pedro deveu o triunfo sabre D. Miguel, a quem a quase totalidade do pais dera o mais vibrante apoio",

(ALFREDO PIMENTA)

··D. Pedro de Sousa e Holstein, primeiro conde, primeiro marques e primeiro duque de Palmela, nasceu num berço de ouro e teve por padrinhos os reis de Portugal.

" Neto de príncipes; foi, como o imperador D., Pedro,a imagem da revolução vinda de cima para baixo”.

Era menino, ainda, quando começaram a soar por toda a parte os prenúncios do vulcão que brotaria das entranhas da Franca. Tinha dez anos de idade e se impressionava com as cenas épicas da Assembleia Nacional e com os discursos Incendiários de Lafayette e Mirabeau.

“Eu mesmo, cinquenta anos depois, lembrava-se bem deste período: "não obstante a atmosfera aristocrática em que eu vivia, já tinha uma tendência para me exaltar com as ideias de liberdade, cuja aurora despontava na Europa".

Mas Palmela não se exaltou nunca. Vivendo numa época tumultuosa, em que os reis e os povos se degladiavam, de armas na mão, ele soube ser o "juste milieu".

Soube aceitar as ideias novas sem o delírio dos revolucionários. Conservar princípios tradicionais sem a intransigência dos ultra-realistas. Tinha, no mais alto grau, o senso da moderação e do equilíbrio.

As grandes excitações, os entusiasmos transbordantes, eram manifestações absolutamente estranhas á sua índole e ao seu temperamento.

Era liberal, não ha duvida, mas o seu liberalismo era extremamente aristocrático. De um lado, havia o alto nascimento e a educação refinada. De outro, a adesão consciente ás doutrinas que figuravam no estandarte dos jacobinos e exaltados. Solicitado pelas duas tendências, conservou-se equidistante de ambas. O sangue nórdico que lhe corria nas veias, temperado e sensato, foi um dique valioso ás alucinações latinas dos liberais portugueses, o seu nome) rotulando as hostes da· rainha, compostas de vintistas, jacobinos e legitimistas ferrenhos, era uma garantia de moderação e sobriedade nas atitudes partidárias.

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Palmela1

Nascido em Turim, a 8 de maio de 1781, viveu sempre no seio da sociedade culta e opulenta da Europa mundana e diplomática. Conviveu com Alfieri, de Rossi, Schlegel, Sismondi, os dois Humboldt, Gay Lussac, Barante, Mathieu de Montmorency, Benjamin Constant, as maiores notabilidades da época. E esteve também, longo tempo dentro do raio de ação dos olhos de fogo da esplendida Madame de Btael.

Foi no verão de 1803, na Itália, que a filha de Necker conhece o jovem português. Conheceu- o para apaixonar-se, em seguida, - com a exuberância de que só ela era capaz. .

Germaine de Stain trazia um coração ja gasto pelos amores sucessivos. Estava moralmente envelhecida. Vivera demais, em poucos anos , tal a intensidade de sua vida sentimental.

O encontro com. Palmela operaria uma transformação extraordinária. Aquele olhar radioso, já empanado pelo tempo e pelas desilusões, ganhou, subitamente, um brilho novo. O seu coração cansado recuperou, num esforço supremo, a vitalidade perdida, enquanto brotavam, de novo , de seu corpo, ' a graça e a faceirice de outrora.

Desse idílio que se esboçava, nasceria uma das obras primas da literatura francesa: a "Corinna", que comoveria 0 mundo inteiro. Escolheu, Madame de Stael, o futuro duque de Palmela para herói - o Lord Oswald - e esgueirou-se, ela mesma, no papel de heroína. - o casamento -entre os dois, porem, estava completamente fora de cogitação. A união de D. Pedro de Sousa com a Mademoiselle Du Perron era coisa mais ou menos assentada. A separação impunha-se.

Na véspera da partida para Florença, Germaine dedicou-lhe dois versos reveladores do amor impossível que devia findar-se, pedindo para eles o maior segredo."Gardez ces vers pour Vous seul , ... ".

Por ocasião da invasão francesa, Palmela foi dos poucos que, convidados, se recusaram a deixar o país para acompanhar a migração real para a Brasil. Ele que em 89 servira como capitão, sob as ordens de Gomes Freire, pediu baixa do exercito para não servir ao inimigo. Quando rebentou a guerra peninsular contra Napoleão, voltou as fileiras e bateu-se ao lado de ' Jose Bonifacio, o futuro patriarca da independência do Brasil.

Estava no Porto, na qualidade de chefe do estado-maior de Trant, quando recebeu, do príncipe-regente, o decreto que o nomeava ministro de sua majestade fidelíssima junto ao governo central da Espanha.

Poucos dias antes, Beresford promovera-o a major, por serviços em campanha.

Importantíssima era sua missão diplomática em Madrid. Devia pleitear a restituição de Olivenca, a revocação da lei sálica em favor dos direitos eventuais de D. Carlota Joaquina e o seu reconhecimento como regente da Espanha. .

Tão bem se houve o jovem diplomata, tamanha foi a habilidade demonstrada nas negociações, que culminaram com os mais auspiciosos resultados, que D. João o recompensou com o titulo de conde de Palmela e lhe enviou, para a esposa, a banda,de Santa Isabel, salientando, no primeiro decreto, a sua real satisfação pela maneira inteligente, distinta e devotada com que fora servido.

Em junho de 1812, e distinguido com a chefia da missão em Londres. Dois anos depois, como plenipotenciário português junto ao congresso de Viena, segue uma das maiores vitorias diplomáticas de sua vida: a admissão dos representantes do príncipe-regente de Portugal em pé de absoluta igualdade com os plenipotenciários das grandes potencias da Europa.

Ministro e enviado extraordinário junto a corte de St. James, foi Palmela surpreendido, em fins de 1817, com a sua nomeação para ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e consequente chamada ao Rio de Janeiro.

No Brasil, dedicou Palmela o melhor de seus esforços ao serviço de el-rei e tudo fez para induzlr o monarca a conceder, espontaneamente, a constituição que, segundo previa, lhe seria exigida pelo populacho em armas. Tomaz Antonio, porém, "o mais inepto e o mais lisonjeiro de todos os homens", alimentava a indecisão do rei e retardou, o mais que pode, a adoção da proposta.

D. João, afinal, sentindo já bem perto o desencadear da tormenta, encarregou Palmela, na noite de 25 de fevereiro, da redação de um manifesto com as bases da constituição. Era tarde. Na manha seguinte, a tropa deixou os quartéis e reuniu-se ao povo, concentrado no Rocio. Era a revolução. O rei aceita e jura a carta constitucional que ainda não existia e concorda com a demissão do ministério.

Oito dias depois do movimento, Palmela, em carta ao conde de Linhares, atestava a fidelidade de D. Pedro el-rei seu pai: "0 Príncipe Real mostrou naquela ocasião o maior desembaraço e presença de espírito e mesmo muita fidelidade, porque a tropa quis sem duvida, aclamá-lo e ele sempre atalhou esses ultimo desaforo gritando: "Viva EI-Rei, nosso senhor, viva meu Pai!"

D. Joao VI fez, mais tarde, justiça ao seu ministro. Confessou-lhe, francamente, o profundo arrependimento por não lhe ter seguido os sábios conselhos e leais advertências, que teriam evitado a jornada tumultuosa de 26 de fevereiro.

Em 1823, depois da vilafrancada, D. João fe-Io Marquês de Palmela e chamou-o para ministro dos Negócios Estrangeiros.

Deixando o ministério, em janeiro de 1825, recebe a grã-cruz da ordem de Cristo e parte, logo depois, para Londres, como embaixador, um ano depois; exatamente, falecia o bondoso, lerdo e infeliz D. João VI.

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Aclamado D. Pedro IV e confirmada a regência na infanta Isabel Maria, a atividade de Palmela concentrou-se na obtenção de dois pontos: primeiro, só entregar a regência a D. Miguel depois da maioridade deste, para que houvesse tempo de fortalecer as novas instituições: segundo, conseguir uma convenção entre D. Pedro IV e as cortes da Áustria e da Inglaterra, que garantisse a coroa de D. Maria II e a estabilidade da carta constitucional. . .

A doença da regente, porem, habilmente exagerada pelos interessados, os repetidos protestos de fidelidade por parte.de D. Miguel e a gravidade da situação em Portugal induziram D. Pedro a entregar ao infante, imediatamente, o governo do reino.

Esse decreto inesperado frustrou, por completo, as manobras que Palmela considerava indispensáveis á paz e a conservação do regime inaugurado pelo primogênito de D. João VI.

O futuro dar-lhe-ia razão, D. Miguel desembarcou em Portugal e as instituições nascentes não resistiram á sua chegada. O trono de D. Maria da Gloria parecia irremediavelmente perdido e esboçava-se já a guerra civil que encharcaria com o sangue de heróis a terra gloriosa de Portugal.

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Quando recebeu o decreto de 3 de maio, em que o infante convocava os Três Estados do Reino, Palmela tomou imediatamente e resolução de demitir-se, "reconhecendo nesse decreto, como diz ele nas suas notas autobiográficas, um ato de rebelião contra a soberania legitima e contra a lei fundamental da nação".

Dentro em pouco, viu-se constituído chefe e centro do partido de D. Maria II na Europa, "e como tal, diz ele nos seus "Apontamentos", obrigado pela responsabilidade voluntaria que assumi, a prover do melhor modo possível a sustenção dos emigrados, a dirigir as operações que pudessem empreender-se, a advogar a causa liberal não só na Inglaterra mas nas demais cortes da Europa, e a solicitar do Senhor D. Pedro as ordens da direção de que tanto se carecia".

A sua responsabilidade, os seus antecedentes, o alto conceito de que gozava junto as cortes do Velho Continente por suas opiniões moderadas, encobriam, por assim dizer, o revolucionarismo extremista de grande parte dos emigrados, tornando menos sensíveis as prevenções que existiam contra eles, por parte de quase todos os governos.

E á sombra desse prestigio, cimentado durante longos anos de brilhante e criteriosa atuação política, pode Palmela desenvolver uma atividade prodigiosa em beneficio da causa constitucional. Isso consumia, pouco a pouco, o credito e a geral confiança nele depositada.

E ele mesmo observava: "Entretanto, esta mudança a meu respeito foi gradual, e o capital que eu moralmente possuía era tão considerável, que não obstante gastar se e consumir-se, foi-me suficiente para me habilitar ainda a prestar ° grande serviço de ter mão no descrédito em que a nossa causa se arriscava a cair perante os gabinetes europeus" .

Desde então, Palmela deixa de ser unicamente diplomata para transformar-se numa espécie de empresário-mor da causa da rainha, com mil atribuições diversas. Não havendo dinheiro para manter os soldados e sustentar os emigrados, Palmela procura os banqueiros, levanta empréstimos, inventa recursos de toda ordem e consegue enfrentar as despesas colossais.

Passa as dias inteiros num movimento febril, alistando voluntários estrangeiros, preparando expedições, examinando armamentos, fardas, cartuchame, todo o material de campanha para os soldados e marinheiros engajados.

Está presente nas reuniões de chefes, delineando planos e determinando atitudes. Surge nas embaixadas estrangeiras para demover os governos contraries e conquistar os indiferentes. Sustenta terríveis polemicas com adversários do estofo de Aberdeen, Polignac ou Wellington e mantém, ao mesmo tempo, assídua correspondência com a ' vasta rede de agentes portugueses espalhados por todo o continente, enviando-lhes instruções,comunicando-lhes as ocorrências e  sabendo, por eles, do verdadeiro estado da opinião publica europeia em relação a causa de D. Maria da Gloria.

Não podendo conquistar o favor do governo de Londres, consegue assenhorear-se da imprensa inglesa e inicia uma tão intensa campanha jornalística contra D. Miguel que o povo britânico, vivamente influenciado por ela, acaba por exigir de seus dirigentes uma mudança radical de orientação.

Dentro do próprio partido da rainha, tem de conciliar os elementos divergentes, liberais exaltados, de um lado, e legitimistas ferrenhos, de outro; tem de acalmar os ressentimentos antigos, desarmar os projetos absurdos dos chefes de grupos e consolidar a unidade espiritual que sustentaria os combatentes nos momentos difíceis da grande luta. .

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Landing of liberal forces in Oporto

Quando os liberais, insulados no Porto, viram esgotados quase todos os recursos, partiu Palmela, imediatamente, para Londres, afim de obter dinheiro, navios , oficiais, cavalos. As negociações financeiras eram extremamente difíceis porque o fracasso da expedição de D. Pedro era considerado inevitável em todas as capitais. Palmela fez verdadeiros milagres. Tendo saído sozinho e "sem vintém", voltava ao Porto, um mês depois, com uma esplendida fragata de cinquenta peças de grosso calibre, mais de três mil homens de tropa e quinhentos cavalos, alem de grande quantidade de armamentos e petrechos militares.

Sua atividade diplomática não foi menor. Teve numerosas entrevistas com Palmerston e seus colegas de ministério, principalmente lord Grey, com quem manteve uma calorosa discussão sobre os auxílios que o governo inglês devia prestar a causa de sua majestade fidelíssima. Foi nessa conjuntura, debaixo da pressão de Palmela, que o gabinete de St. James autorizou lord William Russell, embaixador em Lisboa, a intervir em favor de D. Pedro, pois a Espanha ameaçava enviar grandes auxílios a D. Miguel.

Dentro em pouco, a heroica cidade tornou-se, efetivamente, inexpugnável. O inimigo não conseguia forçar as linhas de defesa mas o tempo ia consumindo, rapidamente, o grande sustentáculo da resistência liberal: 0 dinheiro para o sustento da esquadra, para os batalhões estrangeiros, para o pret dos soldados.

O desânimo começava já a invadir a alma dos sitiados quando o imperador resolveu mandar novamente a Inglaterra o marques de Palmela. Ia começar mais uma batalha diplomática. Os governos de Paris e de Londres, convencidos do malogro da causa da rainha, recusaram-se terminantemente a prestar o menor auxílio pecuniário. Por sua vez, os emprestadores do ano anterior estavam fora de cogitação pois não tinham recebido as amortizações ajustadas, "Nesta crise suprema, escreveu Palmela, resolvi aparecer em publico, como pedindo um empréstimo sem o contratar com ninguém, e ja dentro de três ou quatro dias tem havido subscrições por mais de 80.000 libras.

Espero, pois, amparar ainda desta vez a causa, mas no meio de tanta riqueza estou eu sem um real nem mesmo para o meu sustento de cada dia , nem para a viagem" .

Ficou em Paris ate abril de 1833, quando partiu para Londres disposto a uma cartada final que decidisse, de uma vez, o resultado da guerra.

A situação no Porto agravara-se, de novo, extraordinariamente.

Os miguelistas intensificavam, cada vez mais, os seus ataques e bombardeios, enquanto a peste e a fome abatiam a resistência dos defensores da cidade. Por sua vez, a esquadra de Sartorius resistia já as ordens da regência e dava alarmantes sinais de rebelião.

Era preciso encontrar um novo almirante em chefe, armar alguns navios, formar um forte corpo expedicionário e levantar novas fundos na praça de Londres, Palmela "tinha razão, o seu crédito, o "capital que moralmente possuía", era tão considerável que os .repetidos empréstimos mal reembolsados não tinham conseguido consumi-lo. Em poucos dias, só com a garantia do seu nome, obtém mais de 20 mil libras, une-se a Napier e Mendizabal e concerta com eles a famosa "expedição dos vapores", A 28 de maio deixa Londres no "City of Walesford" com uma força de marinheiros e, seguido por outros navios, repletos de soldados, vai reunir-se as tropas embarcada na França, rumando logo em seguida para a atormentada cidade do Porto.

Era a salvação que chegava. Graças aos novos recursos, desferiu-se o vitorioso golpe de mão sobre Lisboa. Começava o desmoronar do regime absoluto e a marcha fulminante dos liberais para a vitoria final.

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