Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior

Curriculum Vitae

Em 1987 foi publicado, nos Estados Unidos, sob o patrocínio da Oxford Analytica, um livro chamado América in Perspective. Nele, procura-se retratar a influência que detêm os meios de comunicação social desse país.

Chama-nos a atenção a afirmativa contida nessa publicação: "As três redes nacionais da televisão ( ABC , CBS e NBC ), as duas maiores revistas nacionais (Time e Newsweek ), a Associated Press ( agora deixada sozinha pelo virtual colapso da UPI ), o New York Times, o Wall Street Journal e o Washington Post, juntamente com a pequena elite de peritos com acesso a estes meios de comunicação, têm desfrutado desde o final dos anos cinqüenta até os oitenta, de uma enorme influência como juizes do processo político e como fatores de definição da agenda política nacional".

De maneira análoga, outro livro daquela mesma época, entitulado The Irony of Democracy, de Thomas Dye e Harmon Zeigler, afirmava: "os principais executivos das cadeias de televisão mantêm contato permanente com os editores do New York Times, do Washington Post, Newsweek e das principais cadeias de imprensa com quem intercambiam pontos de vista. Eles constituem uma pequena e coesa fraternidade".

Em outras palavras, na década passada, nove meios de comunicação social estavam sendo privilegiados na capacidade de definir os rumos da vida política norte-americana e, inevitavelmente, a maneira com que os estadunidenses percebiam a realidade que os rodeava. Essa realidade era comum à maioria dos países. Com as variáveis de cada caso, era usual que um pequeno número de meios informativos domésticos detivessem uma imensa influência sobre a vida nacional. Nos dez anos transcorridos desde então, produziu-se uma mudança fundamental. A informação não somente se globalizou como também, sob o impulso dos avanços tecnológicos e das exigências de capital, começaram a surgir gigantescos conglomerados neste campo. Hoje em dia, não basta manter presença em todos os rincões do planeta que permita a transmissão instantânea da notícia aonde quer que ela ocorra, como é o caso da CNN. É necessário algo mais. É necessário estar integrado a uma rede cujos tentáculos não somente abarquem a difusão da informação em todas as suas vertentes ( TV aberta, TV a cabo, rádio, jornais, revistas, informação via Internet ), mas também o mundo do entretenimento ( fundamentalmente a produção cinematográfica ). É o que denominamos, na atualidade, de "multimídia". Afinal de contas, a simbiose entre entreter e informar sempre foi muito grande. Desde os velhos noticiários que precediam aos filmes na época de ouro do cinema, até o rádio e a televisão aonde notícias e diversão se misturam extraordinariamente constituindo-se na melhor forma para promover e digerir, com facilidade, a informação.

Exemplo bem significativo de um desses conglomerados de comunicações é encontrado no império Time Warner-CNN, que inclui a revista Time, a produtora cinematográfica Warner Bros, os canais de cinema a cabo HBO, Cinemax e TNT, as redes de informação CNN e TBS, a firma editorial Little Brown, a distribuidora de livros Book of the Month, produtoras de discos, etc. As vendas anuais deste megaconglomerado atingem a 21 bilhões de dólares. Para sobreviver neste mundo globalizado e integrado da informação e do entretenimento, não existe outro caminho que não seja o das grandes redes e as grandes fusões. Bem valeria a pena fazer referência a alguns dos casos mais ilustrativos neste sentido: o império News Corporation Limited, do australiano Rupert Murdoch, que inclui não somente célebres jornais como o Time, de Londres, e o New York Post, mas também, cadeias de rádio e TV e redes de jornais e revistas em diversos continentes.

Também cabe destacar a fusão entre a Walt Disney Co. e a cadeia ABC ou a fusão que está se produzindo na Europa entre as maiores redes de televisão a cabo. Exemplificando, as seis grandes redes de TV européias estão integrando-se em dois grupos competitivos para poder sobreviver, em meio à dura realidade do mercado atual. Sílvio Berlusconi, da Itália, está se aliando com dois titãs da Alemanha e da Holanda, para fazer frente à aliança de Rupert Murdoch com outros dois gigantes da França e da Alemanha. Até o próprio Bill Gates, da Microsoft, está adentrando neste universo em aliança com a NBC e a Time Warner-CNN, para desenvolver um ambicioso projeto informativo de televisão e Internet.

Uma indagação permanece para nossa reflexão: - o que ocorreria se os dez ou doze megaconglomerados da informação, que atualmente estão se consolidando no mundo, decidissem repetir a experiência das nove grandes organizações que dominaram a informação, nos Estados Unidos, na década passada?; ou melhor , se decidissem por-se de acordo para definir as diretrizes fundamentais do planeta e a maneira em que o homem deve perceber a realidade ao seu redor?. De fato, parecem existir claras evidências de que o livre mercado se transformou em um denominador comum, defendido por todos os grandes centros informativos mundiais. Qualquer país que hoje em dia se atreva a questionar esse paradigma, deve estar disposto a assumir o custo de um virtual ostracismo.

Se esta tendência a impor normas e paradigmas se generalizar, nos encontraríamos ante um mundo que nada teria que invejar ao universo totalitário imaginado por George Orwell, em sua famosa obra.

Entretanto, contrapondo-se a esse quadro catastrófico e totalitário, a revista Time, em sua edição de 21 de outubro 1996, efetuou acurada análise sobre o processo de difusão da informação que resultou, curiosamente, alvissareira. De acordo com o estudo, a tendência prevalecente, nos dias atuais, parece apontar para a atomização na busca da informação. Atônito ante um acúmulo de notícias e conhecimentos que não está capacitado a entender, o homem comum está concentrando sua atenção em pequenas parcelas de interesse informativo, desdenhando as demais. Este cidadão simples e comum está se atendo em informações esportivas, financeiras, do mundo da moda, da arte ou da diversão, esquecendo-se do restante. Se realmente as coisas estão sendo processadas desta maneira, existe a forte possibilidade de que a "lavagem de mentes" somente pudesse se operar de forma significativamente limitada.

Diante deste novo, complexo e curioso cenário, podemos concluir que, afortunadamente, a desinformação poderia chegar a ser a tábua de salvação do público-alvo, no limiar do terceiro milênio.

*  O autor é Coronel-Aviador R/R
   e Conferencista Especial da Escola Superior de Guerra.

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