Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior ver o Curriculum Vitae

Em sua edição de 3 a 9 de janeiro de 1998, a revista The Economist publica instigante artigo: O Próximo Balanço do Poder. Nele estabelece-se uma projeção, para o prazo de trinta anos, do poder potencial dos principais países e regiões do planeta. A conclusão é clara e permite dizer: somente a China terá condições de equiparar-se aos Estados Unidos no papel de superpotência.

Recorrendo aos elementos clássicos determinantes das bases de poder estatal, The Economist elabora uma pontuação comparativa projetada para o tempo de três décadas. Neste estudo os Estados Unidos atingem uma classificação de 14 pontos, enquanto a China se situa no patamar de 13, bem distante dos demais competidores. Mesmo a Rússia, apesar de seu armamento nuclear, somente conseguiu obter 8 pontos nesta avaliação. Ainda de acordo com aquela revista, a China apresenta uma capacidade intrínseca de valores que não se vê presentes em outros países, ou seja: um concentrado sentido nacionalista, um sentimento de revanchismo histórico - fruto das humilhações acumuladas ao longo de muitos anos - e, pujança econômica. Estas características lhe conferem o perfil de superpotência.

O que The Economist não analisa ou se detém, é a orientação que definirá a relação entre as duas monopólicas superpotências. As grandes perguntas se restringiriam: qual será o elemento fundamental de rivalidade entre a China e os Estados Unidos? Poderá esta rivalidade levar a um enfrentamento bélico?

Parece pouco provável que o fator ideológico esteja com capacidade para converter-se no núcleo desse enfrentamento. A diferença da confrontação existencial que se deu durante a Guerra Fria, com a existência de dois sistemas de valores irreconciliáveis, sem retirar o aspecto competitivo, parece não ser a tônica dos tempos futuros. Os chineses estão adentrando fortemente na rota do capitalismo e do livre mercado e, concomitantemente, procuram enfatizar o pragmatismo ancestral advindo de Confúcio, triunfo de uma lógica unificadora.

Tampouco as aspirações chinesas sobre Taiwan e a subseqüente tutela norteamericana sobre este país, insinuam-se como gerador potencial de uma crise. O mesmo pragmatismo chinês unido à crescente aproximação de seus modelos econômicos, seguramente conduzirá a um acordo negociado e pacífico entre Pequim e Taipei. O exemplo da fusão de Hong Kong à China evidencia um bom indício neste sentido.

O salto para um futuro enfrentamento poderia vir pelo questionamento das tensões e rivalidades comerciais. Isso, ampliado pelos componentes de nacionalismo e revanchismo histórico presentes, poderia transformar-se na fonte de prováveis conflitos. Stephen S. Cohen, reconhecido catedrático da Universidade de Berkeley, direciona muita luz sobre o assunto em interessante artigo publicado na edição de janeiro de 1998 do Le Monde Diplomatique. Segundo ele, a história sempre agitada nas relações comerciais entre Washington e Tóquio está a ponto de reproduzir-se entre Washington e Pequim. A China, igualmente aos tigres asiáticos, copiou o modelo japonês, assentando o seu crescimento econômico coerente com a formulação de técnicas na base da exportações maciças.

De acordo com o que nos assinala Cohen, a China está caminhando para tornar-se um poderoso Japão comercial, concomitantemente a uma potência militar de primeiro nível. Com respeito às suas palavras, torna-se extremamente difícil que a China possa integrar-se de maneira duradoura ao sistema comercial internacional, obedecendo a um sistema de exportações maciças. As tensões decorrentes ficariam difíceis da administrar. Hoje em dia o crescimento vertiginoso das exportações chinesas (some-se Hong Kong e Taiwan) tem conduzido a um superávit comercial com os Estados Unidos. Entretanto, a China de hoje espelha um pálido reflexo do que este país tem em capacidade de converter-se, num prazo de três décadas, em termos de consagração no cenário internacional.

As aspirações de líder chinês Jiang Zemin visam a manter uma taxa média de crescimento econômico anual na ordem de 6.5%, nos próximos 25 anos. Isso colocaria a nação numa posição de superpotência industrial e com um PIB na ordem de cinco trilhões de dólares.

A revista Business Week, edição sobre a China - setembro de 1997 - chama a atenção do leitor com a seguinte afirmativa: "a China já é um monstro exportador de bens de baixo valor agregado. Se conseguir curar os males de seu sistema econômico estatal e tornar eficiente o seu sistema financeiro, poderá emergir como rival do Japão e de seus vizinhos tigres asiáticos em indústrias que vão desde a produção de aço até maquinaria pesada".

Poderá a competição comercial entre Estados Unidos e China conduzir a um enfrentamento armado?. Há alguns anos foi publicado um livro entitutalado A Próxima Guerra com o Japão, de George Friedman. Chegou a ser considerada a obra mais vendida no Japão, alcançando, igualmente, o mesmo sucesso comercial de vendas nos Estados Unidos. A tese defendida pelo autor é simples: o Japão, como grande importador de matérias-primas não pode deixar que a seiva que alimenta a sua economia dependa, primordialmente, de outra nação. Acresce de importância o fato quando essa outra nação, os EEUU, têm interesses diemetralmente opostos aos seus. Isto obrigaria o Japão a buscar garantir suas próprias rotas marítimas, nas quais, como conseqüência inevitável, reivindicaria a importância de uma armada capaz de garantir as suas aspirações diante do poderio naval norte-americano.

A rivalidade pelo controle dos mares asiáticos, unida às permanentes tensões comerciais, gerariam altos decibéis emocionais, suscetíveis aos estrondos bélicos. Segundo Friedman, desde 1988, todos os estudos têm demonstrado que os estadunidenses vêem o Japão como seu principal antagonista, inclusive nos tempos em que a União Soviética ainda se encontrava atuante. Ao exemplificar referiram-se a uma pesquisa realizada por McGraw-Hill segundo a qual 22% dos norte-americanos viam a União Soviética como rival e 68% visualizavam o Japão como a maior ameaça aos EEUU.

Faz-se mister ressaltar que a tese de Friedman já está defasada ante a nova realidade da crise econômica japonesa. Por outro lado, as premissas da mesma serão perfeitamente aplicáveis e, com muito mais razão, no caso das relações Estados Unidos-China. Para 2015 a China estará importando sete milhões de barris diários de petróleo, elemento vital para sua sobrevivência econômica. A necessidade de controlar as rotas marítimas por onde passe essa força energética produzirá a inevitável rivalidade com os EEUU que sempre definiram, no campo estratégico, o Oceano Pacífico como um "mare nostrum". Porém, diferentemente do Japão, a China já é uma potência militar de alto significado e com acesso a armamento nuclear.

A integração de um super Japão industrial como uma potência militar de primeira ordem, cenário previsto por Stephen Cohen com relação à China, possui todos os elementos para enfrentar um conflito com os norte-americanos, especialmente quando o nacionalismo e o revanchismo histórico chineses estão permeando as mentes das lideranças naquele imenso e portentoso país.

Diante desse cenário prospectivo poderemos vaticinar que estas serão as bases da ordem bipolar do Século XXI?

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