Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior ver o Curriculum Vitae

As negociações para a conformação da Área de Livre Comércio das Américas – ALCA – colocarão frente a frente aos Estados Unidos e a América Latina. Um aspecto pouco considerado, porém da maior relevância nesse sentido, é o da imagem. O respeito que se tem por um interlocutor começa pela percepção que se tem dele. E é justamente aí que a América Latina apresenta uma vulnerabilidade evidente. Passaremos uma rápida revista a este tema para compreendê-lo melhor.

Nos idos de 1926 o então presidente norte-americano Calvin Coolidge, pronunciou as seguintes palavras: "Parece que as revoluções e os desastres naturais constituem os principais produtos da América Latina". Em 1960, George Kennan, artífice da política de contenção ao comunismo e pai conceitual da política exterior estadunidense para a América Latina, escreveu esta lapidar frase: "Parece difícil conceber que possa existir outra região sobre a terra, na qual a natureza e o comportamento humano tenham-se combinado para produzir um ambiente mais desesperançoso e infeliz para a vida humana do que aquele que se dá na América Latina".

Instabilidade política e desastres naturais: eis aqui dois estereótipos que ao longo dos anos dominaram a percepção que os estadunidenses tinham sobre a América Latina. A este binômio veio a agregar-se, mais recentemente, um terceiro elemento: o narcotráfico.

Como evitar que o menosprezo para com a região e seus habitantes não seja a tônica predominante, quando a imagem que os norte-americanos têm sobre nós gira sobre conceitos e bases anteriores? O conceituado politicólogo americano Howard J. Wiarda figura entre aqueles que têm tentado buscar explicação para esse tipo de atitude. Em um interessante artigo publicado na revista Foreign Policy, em 1987, expressava o seguinte: "Os norte-americanos tendem a pensar que os latino-americanos são seres instáveis, atrasados, subdesenvolvidos e castigados por sua incompetência. De maneira não surpreendente, os americanos tendem a pensar que eles podem assumir os problemas da América Latina ao seu próprio modo e que a história e os costumes da região podem ser ignorados no processo. Os estadunidenses tendem a considerar as lideranças latino-americanas do mesmo modo: instável, incompetente e quase infantil, como crianças que necessitam ser guiadas".

E continua desta forma o artigo de Wiarda: "Estas atitudes de condescendente superioridade têm raízes profundas. Em parte derivam dos prejuízos históricos sustentados pela civilização protestante e anglo-saxônica para a essência de uma cultura católica, tomista, latina, escolástica e, inclusive, inquisitorial. Em parte, também, derivam da crença generalizada nos Estados Unidos de que a América Latina e seus líderes evidenciam modestas pontuações em matéria de talento ou realizações".

Então vejamos, a visão que se tem de nossa região não somente deriva dos prejuízos referidos por Wiarda, mas, também, de um parente bem próximo deles: a ignorância. Em uma investigação relativa à atenção dispensada à América Latina, por parte da imprensa dos EEUU, se afirmava o seguinte: durante o período 1946-1974, o jornal The New York Times dedicou apenas 0,56% de seu espaço a informações sobre a região (ver José Egidio Rodrigues, Imagem e Política Internacional – 1988).

Se o mais importante e prestigioso dos jornais dos Estados Unidos, The New York Times, dedicou um espaço noticioso tão irrisório à América Latina, que poderemos esperar então de periódicos que circulam em cidades como Nashville, Seattle ou Kansas City? se o leitor de Nova York, um dos mais cultos e bem informados daquele país, recebe uma informação tão esquálida como essa, que cabe esperar do norte-americano mediano?

Entretanto, o problema noticioso não reside somente na escassez. Mais significativo ainda que o fator quantidade, é a própria orientação das informações prestadas. Estas tendem a concentrar-se em um reduzido número de tópicos e países, particularmente problemáticos, com implicações diretas para a política exterior norte-americana.

Na década de oitenta, a América Central se constituiu em tema atrativo e, nos anos noventa, Colômbia e a problemática do narcotráfico bem como Cuba e Fidel Castro têm captado a maior parte da atenção da imprensa dos Estados Unidos.

É certo que nesta última década o retorno da democracia à região contribuiu decisivamente para aumentar o prestígio de nossos países. Entretanto, ao efetuarmos um balanço de nossa imagem verificamos que esta não tem se inclinado em um claro sentido positivo. Lamentavelmente, ainda sofremos sérios prejuízos, fruto da imagem distorcida e pejorativa com que somos avaliados e que ainda prevalece no cenário internacional.

O mais grave desta desconfortável situação reside no simples fato de que onde não existe respeito tampouco haverá equidade. Afinal de contas, o prestígio de um Estado ou de uma região, constituem sua primeira linha de defesa, e a ausência desta se transforma em uma perigosa fonte de vulnerabilidade. A má imagem é a primeira etapa de um caminho pontilhado de riscos.

Washington configura o centro hegemônico ao redor do qual giram nossos países. Poderemos continuar permitindo-nos uma linha de defesa tão débil?

É chegada a hora de trabalhar com afinco e de forma sistemática de modo a impedir que nossa projeção de imagem, para os Estados Unidos, continue a suportar deformações tão aviltantes. As nossas negociações, com o país do Norte, devem ser acompanhadas de um incisivo e contínuo esforço neste sentido.

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