Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior ver o Curriculum Vitae

Se algo caracterizou o Japão, ao longo de sua história, é a sua singular capacidade para alterar radicalmente seu projeto nacional ou a marcha de sua economia cada vez que as circunstâncias assim o requereram.

No início do Século XVII, ante uma penetração ocidental que não somente ameaçava em alterar as bases da sociedade mas, também, em difundir o cristianismo, o país decidiu fechar-se a todo contato com o exterior. Durante dois séculos e meio o Japão se manteve dentro da mais absoluta autarquia, mantendo uma estrutura social petrificada. Inclusive, o uso da roda chegou a ser proibido pois esta era tida como elemento de modernização e, por conseguinte, de transformação. Este período foi denominado de Tokugawa.

Para a segunda metade do Século XIX, as pressões por mudanças dentro do país eram demasiadamente contundentes para que se mantivesse de pé o modelo vigente. O regime Tokugawa havia deixado aberta uma pequena janela com o exterior, ou seja, um navio holandês que uma vez ao ano vendia os seus produtos no país. Por essa janela se infiltraram as idéias que iluminaram a imaginação e os desejos de mudanças da baixa aristocracia japonesa, que tinha a seu cargo a administração efetiva do Estado. A atitude dessa camada social, aliada a insatisfação da classe dos mercadores, cujo poder econômico contrastava fortemente com sua reduzida influência política, consolidaram as bases para uma transformação radical. A isto veio unir-se a constatação de que estava ocorrendo na China uma sociedade cujo tradicionalismo a havia mantido no mais profundo atraso, tornando-a presa fácil para o apetite colonial do Ocidente. O Tratado de Nankin, de 1842, havia imposto à China a abertura ao Ocidente, ao tempo em que Hong Kong se transformava em colônia britânica e algumas de suas principais cidades portuárias eram entregues ao controle das potências ocidentais.

Os burocratas da baixa aristocracia e os mercadores, cada um em função de suas próprias razões, uniram-se com a idéia de modernizar o país. Era a única forma de evitar que o Japão tivesse a mesma sorte da China. Só faltava o elemento detonante para materializar as exigências de mudanças no cenário geopolítico nipônico. A presença de uma esquadra norte-americana, sob o comando do Comodoro Perry, em 1858, exigindo a abertura dos portos japoneses ao comércio com o Ocidente, foi o estopim que desencadeou a revolução. Após alguns anos de instabilidade que presenciaram a derrocada do regime de Tokugawa, consolidou-se, a partir de 1868, uma mudança radical de rumo. A figura do imperador, que durante o período anterior havia sido um personagem meramente simbólico, ascendeu ao centro do cenário político. Começava ali a era Meiji. Nos anos seguintes o país adentrou na mais rápida transformação de instituições e valores culturais já presenciados em sua história.

A partir deste momento, o Japão se lança em um gigantesco processo de ocidentalização de seus costumes e de suas instituições. Instala um Parlamento ao estilo inglês; códigos civis e penais semelhantes ao francês; um exército de modelo prussiano; um direito comercial de orientação alemã; um sistema orçamentário calcado no norte-americano; relojoaria suíça; rolamentos suecos; embarcações norueguesas; ótica alemã. E assim sucessivamente. A partir de nada e em poucos anos, o país transformou-se em uma economia moderna: estaleiros, fábricas, siderúrgicas, têxteis, telégrafos e um forte sistema bancário. A obsessão pelo progresso nos moldes ocidentais permitiu que, para o início do Século XX, o Japão ingressasse no seleto clube das grandes potências mundiais. Isto, inevitavelmente, conduziria a uma acirrada competição com o Ocidente pelas esferas de influência no leste asiático. Já em 1905, o Japão havia derrotado militarmente ao mais vasto império da Europa, a Rússia. Em 1939, iniciou-se a cruenta medição de forças entre o Japão e as grandes nações do Ocidente, no decurso da Segunda Guerra Mundial.

Após a traumática derrota de 1945, o Japão reformula novamente o seu projeto nacional de maneira dramática, renunciando a suas ambições hegemônicas e a um militarismo assentado em sua ancestral tradição samurai. O país suporta a presença tutora norte-americana, concentrando-se em uma economia de caráter civil. Cinqüenta anos depois da derrota sua produção industrial equivalia a de França e Alemanha juntas e era equivalente a de todos os demais países asiáticos combinados.

É importante destacar que, não somente os projetos nacionais do Japão transformaram-se de maneira radical, cada vez que as circunstâncias históricas assim o exigiram mas, também, sua economia sofreu periódicos reajustes, muitas vezes de forma acentuada, para fazer face às adversidades que surgiram. A título de exemplo poderíamos mencionar os problemas enfrentados, pela economia japonesa, nos anos de 1973 e 1985. No primeiro caso, produziu-se uma acentuada alta nos preços do petróleo, chegando a quadruplicar o valor do barril, no comércio internacional. Em 1985, o aumento do valor do yen, da maneira com que foi estabelecido, fez perigar a competitividade das exportações japonesas. Em ambos os casos o Japão soube sair incólume e até certo ponto vitorioso frente aos riscos enfrentados.

O Japão, no momento, atravessa uma difícil crise recessiva, cujas origens remontam ao final dos anos oitenta. A ruptura da borbulha especulativa em seus mercados financeiros e de bens imóveis iniciou este processo, hoje agudizado com a crise asiática em curso. Muitos apregoam o fim do milagre econômico japonês e insistem na incapacidade do país de adaptar-se às exigências da economia pós-industrial do Século XXI. Um sistema educacional que enfatiza a docilidade e uma tradição de submissão às normas sociais, são vistos como antagônicos à criatividade individual, chave da nova era econômica.

Diante desta realidade cabe-nos as seguintes indagações: Poderá o Japão sair-se bem em seu objetivo de retomar o crescimento e trilhar o caminho do progresso? Saberá dar outro desses inesperados saltos para o sucesso que caracterizaram o seu passado?

De uma coisa, porém, temos absoluta certeza: não é possível subestimar o Japão.

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