Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior ver o Curriculum Vitae

Nos tempos do ditador Tito, o Estado iugoslavo se encontrava conformado por seis repúblicas soberanas que integravam uma Federação: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Montenegro, Bósnia - Herzegovina e Macedônia. A Sérvia, por sua vez, contava no interior de seu território com as províncias autônomas de Voivodina e Kosovo. Este mosaico de diversas nacionalidades conseguiu funcionar graças ao carisma e à forte personalidade do obstinado Marechal.

A Federação iugoslava estava dividida por múltiplos interesses. As seis Repúblicas se dividiam em dois grupos: o grupo Norte e o grupo Sul. A Croácia e a Eslovênia integravam o primeiro. Estas duas Repúblicas perseguiam as aberturas econômica e política tanto quanto fosse possível. O grupo Sul, ao contrário, se achava conformado pelas Repúblicas: Sérvia, Bósnia, Montenegro e Macedônia. A Sérvia liderava este agrupamento que favorecia um modelo estatizante e centralista. Frente às divisões internas, Tito atuava como um moderno rei Salomão, ou seja, arbitrando disputas e mantendo o equilíbrio entre as posições rivais. Seu método consistia em evitar que alguma das Repúblicas se fortalecesse demasiadamente e adquirisse uma preponderância que fizesse perigar a estabilidade do conjunto. Após a sua morte, em 1980, este equilíbrio de forças alterou-se profundamente, com flutuações constantes na balança do poder, sob a liderança coletiva que ele havia idealizado para sucedê-lo. Bem ou mal a unidade da Federação conseguiu manter-se sob este esquema. Entretanto, o colapso do comunismo e a febre nacionalista, que ocorreu a seguir, fizeram emergir as profundas contradições que sempre existiram na alma da Iugoslávia.

Para alcançar o equilíbrio de forças entre as Repúblicas, Tito manteve sob firme controle a Sérvia, a mais poderosa delas.

Slobodan Milosevich, presidente sérvio da Iugoslávia, tenta assentar o seu poder em uma mobilização nacionalista a favor de uma Sérvia forte. Sua primeira medida, neste sentido, foi suprimir a autonomia das duas províncias privilegiadas no interior da Sérvia: Voivodina e Kosovo. Com relação à primeira isto pouco importou, pois a maioria de sua população é de origem sérvia, porém com relação ao Kosovo o potencial de conflitos é muito maior, pois a imensa maioria de sua população é de nacionalidade albanesa.

Enquanto na Sérvia se produzia um nacionalismo agressivo e autoritário, na Eslovênia ocorreu um genuíno processo pluralista e democrático. A atitude repressiva da Sérvia frente ao Kosovo, que reivindica ardentemente sua autonomia perdida, foi a gota que fez transbordar o copo. A Eslovênia hipotecou o seu apoio ao Kosovo e a Sérvia infligiu um boicote econômico à Eslovênia. Os eslovenos, fartos da Sérvia, manifestaram o seu firme desejo de separar-se da Iuguslávia. A Croácia prontamente fez coro a este mesmo propósito. Em 25 de junho de 1991, ambas as Repúblicas declararam suas independências. As Forças Armadas Iugoslavas, sob o controle de uma oficialidade majoritariamente sérvia, tentaram, sem êxito, pôr fim a este ato de secessão. A partir deste momento, a atitude da Sérvia e de Milosevich mudaram completamente. Se não era possível manter a Iugoslávia unida, pelo menos caberia integrar todas as populações sérvias, que se encontravam fora da Sérvia, dentro de uma só unidade. Sobre esta base se impõe a tese da "Grande Sérvia". Em função deste objetivo todos os territórios de população sérvia, na Croácia, foram anexados forçosamente à Sérvia.

Em outubro de 1992, os croatas e muçulmanos que constituíam a maioria da Bósnia decidiram, por sua vez, declarar a independência desta República. Os sérvios, que constituíam aproximadamente 34% da Bósnia, se opuseram a esta medida. Isto conduziu a um enfrentamento com a Sérvia que desejava incorporar ao seu próprio território as populações sérvias da Bósnia. O problema é que, diferentemente da Croácia, onde as áreas sérvias mantinham-se compactas, na Bósnia a população desta nacionalidade encontrava-se disseminada em enclaves distribuídos em todo o seu território. A tese da "Grande Sérvia" chocava-se contra a disseminação espacial de seus concidadãos. Isto haveria de converter-se na base do drama bósnio. A via escolhida para ganhar a maior quantidade de espaço para a população sérvia foi impulsionar a chamada "limpeza étnica", ou seja, o recurso ao terror indiscriminado como caminho para expulsar as populações não sérvias, em particular a mais débil e numerosa delas: a muçulmana.

À medida que as pressões internacionais foram-se incrementando, o apoio de Milosevich ao extremismo sérvio, na Bósnia, foi perdendo consistência. Em agosto de 1993, Milosevich anuncia a ruptura de Belgrado com a autoproclamada "República Sérvia da Bósnia", liderada por Radovan Karadzic. Em meados de 1995 produzem-se dois fatos decisivos: a intervenção armada da OTAN na Bósnia e a ofensiva militar da Croácia para recuperar os territórios perdidos à Sérvia. Sobre este alicerce impor-se-ia o plano de paz desenhado pelas potências ocidentais. Em 21 de novembro de 1995, em Dayton, Ohio, firmou-se o Acordo que pôs fim ao conflito bósnio. Se segundo ele, a Bósnia convertia-se em um Estado único integrado por duas entidades diferentes reconhecidas pela comunidade internacional. Tais entidades eram a Federação croata-mulçumana, que obtinha 51% do território, e a República Sérvia que ficava com 49% do mesmo.

Nos últimos meses Milosevich voltou a pressionar o Kosovo. O potencial desestabilizador que ele tem sobre o conjunto dos Balcãs é imenso. A Albânia pode entrar na guerra em proteção à população albanesa do Kosovo e poderá, inclusive, tentar conformar a "Grande Albânia" recorrendo à imensa população albanesa da Macedônia.

Não é sem razão que a OTAN tenta obliterar a atitude repressiva de Milosevich sobre o Kosovo.

Diante deste intrincado cenário conclui-se que a atual situação da província de Kosovo dispõe de todos os ingredientes para a escalada da conflitualidade na região balcânia.

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