Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior ver o Curriculum Vitae

Indubitavelmente, os Estados Unidos tem uma posição dominante na nova ordem mundial posterior à Guerra Fria e à denominada Guerra do Golfo, de 1991. Porém, mesmo com seu predomínio no poder militar e seus avanços tecnológicos e espaciais, não consegue obter o controle de todos os fatores políticos que influem em uma confrontação. Existe um poder dominante mas também existem vários pólos políticos que conferem à "multipolaridade" um significado e um peso indiscutível. A "pax amaricana" posterior a 1991 não se assemelha a "pax romana" ulterior à destruição de Cartago, um século antes de Cristo.

Desde Sun Tzu até Clausewitz, passando por Tucídides e Tito Lívio, a guerra é um fato político.

O acordo alcançado pelo Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, e o Presidente Saddam Hussein conseguiu abortar a incursão aérea sobre o Iraque. Entretanto, o problema derivado da posse de armas biológicas e químicas, por parte do Iraque, está longe de ser resolvido. E mais ainda, os complexos e insolúveis problemas que acometem o Oriente Médio permanecem presentes como um permanente pano de fundo. Bem valeria a pena passar uma rápida revista aos mesmos. O Pan-arabismo, o conflito árabe israelense, o problema palestino, o fundamentalismo islâmico e as controvérsias étnico-territoriais: eis aqui as causas fundamentais da instabilidade e da conflitualiade dessa zona do mundo.

O Pan-arabismo é resultado do processo artificial e arbitrário que deu origem a existência dos Estados da região. Na medida em que estes surgiram como resultado de um simples traçado geométrico, que ignorou as realidades subjacentes, não foi possível assentar sobre eles um sentido de identidade nacional. Esta busca de identidade, que não encontrou resposta a nível de unidades nacionais, teve de trasladar-se a dois extratos diferentes. De um lado ao clã, a tribo, a família. De outro, ao contrário, para uma entidade muito maior que os próprios estados, ou seja, para a idéia da grande nação árabe. Em virtude deste fenômeno conhecido como Pan-arabismo, as fronteiras estatais são vistas como divisões artificiais que não fazem mais do que separar a um mesmo povo.

O fenômeno Pan-arábico tem trazido consigo conseqüências e as seguintes tendências: a formação de lideranças messiânicas que buscam projetar-se sobre o conjunto do mundo árabe; a intervenção em assuntos internos dos demais estados árabes em virtude da justificativa brindada por esta noção supraestatal; a considerar as riquezas da região como propriedade mancomunada de todos os países árabes e os subseqüentes ressentimentos que derivam ante a impossibilidade de aceder a elas; a identificar arabismo com sunismo, ou seja, a raça árabe com a vertente sunita do islamismo.

O conflito árabe-israelense encontra sua origem no fim da I Guerra Mundial, quando os britânicos assumiram o mandato sobre um território que, a seguir, haveria de chamar-se Palestina. Ao fazê-lo começaram a dar "rédeas soltas" à imigração judia, a qual se assentava nos compromissos derivados da chamada "Declaração Balfour" e nas exigências do movimento sionista que teve sua origem no intelectual húngaro Teodoro Herzl.

A Resolução 181 das Nações Unidas, do ano de 1947, adotou um plano para dividir a Palestina em dois Estados: um árabe e outro judeu. A declaração de independência do Estado de Israel, em 1948, veio imediatamente sucedida por um ataque combinado de Egito, Síria, Líbano, Jordânia e Iraque. O resultado desta guerra foi que Israel ficou de posse de territórios mais extensos do que aqueles que lhe haviam sido designados, originalmente, no Plano de Partição da Palestina, aprovado pela ONU. Desta maneira, ao problema da introdução de um "corpo estranho" na região, vieram somar-se dois problemas adicionais: a ocupação, por parte de Israel, de territórios que não lhe foram conferidos juridicamente e a presença de uma população árabe-palestina flutuante, transformada em permanente fator de combustão.

O problema palestino teve sua origem na impossibilidade de se criar um Estado árabe, de acordo ao prescrito pela Resolução 181 que dividiu a Palestina. A guerra de 1948, que sucedeu a independência de Israel, aumentou seu território, ocupando a Galiléia e a parte oeste de Jerusalém, que haveriam de corresponder à Palestina árabe. Mais grave ainda, entretanto, foi a atitude dos próprios árabes para a criação de um Estado árabe-palestino. O emir Abdullah anexou a Cisjordânia, a seu próprio território da Transjordânia, formando sobre estas bases o moderno reino da Jordânia. Por outro lado, o Egito ficou com o controle da Faixa de Gaza, também destinada ao Estado árabe-palestino. Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel conquistou Gaza e a Cisjordânia. A partir deste momento a impossibilidade de conformar um Estado árabe-palestino, sob os termos da Resolução 181, passou a recair sob a responsabilidade israelense.

O fundamentalismo islâmico é resultado do caráter totalizador do credo corâmico, sempre propício aos excessos. A "Sharia", ou sujeição às leis religiosas, se apresenta como uma opção natural de identidade em meio à influência ocidental e ao mundo moderno. Nela, o crente muçulmano encontra resposta à suas dúvidas, em meio aos preceitos que guiam todos os aspectos de sua vida cotidiana e lhe brindam com um "nicho de certezas" frente a um leque de questionamentos sem respostas. A revolução de Khomeini no Iran, abriu as portas a um modelo de vida e de sociedade que a cada dia se apresenta mais atrativo para amplas massas populacionais do Oriente Médio. O temor à "Jahiliyya", ou seja, a apostasia e a barbárie, são identificados não somente com a presença e a influência do Ocidente, mas também com a dos regimes pró-ocidentais da região.

As controvérsias étnico-territoriais são resultado de traçados artificiais nas quais ingleses e franceses delinearam as fronteiras da região, após o fim da I Guerra Mundial. Antigas províncias turcas se viram desligadas de seus centros ancestrais de posse, da mesma maneira como grupos étnicos de uma mesma origem se viram separados por novos limites estatais. Desta forma, a Jordânia se sentiu no direito histórico de anexar a Cisjordânia da mesma maneira que o Iraque considerou que podia fazer o mesmo com o Kuwait. Iran e Iraque têm mantido uma perene disputa sobre o Shatt-el-Arab, da mesma forma que a Síria sempre considerou que a província de Mossul, outorgada ao Iraque, forma parte de sua herança histórica. De um a outro extremo da região os problema territoriais se reproduzem, gerando rusgas e confrontos. Por sua vez a pressão irredutível de grupos étnicos que se consideram com direito a uma pátria própria se faz sentir de maneira contundente. Junto ao caso palestino, anteriormente aludido, encontramos também os curdos, grupo étnico que foi disseminado entre Turquia, Iran e Iraque.

É importante enfatizar que o Oriente Médio contém em suas entranhas dois terços das reservas petrolíferas do mundo e tem demonstrado, sistematicamente, incapacidade para alcançar a estabilidade e estabelecer a tão almejada paz. Os problemas e tensões que afloram a todo momento, demonstram estar calcados em ódios e ressentimentos acumulados ao longo de séculos e mostram-se demasiadamente enraizados para que seja promovida uma trégua à conflitualidade reinante nesta conturbada região do planeta.

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