Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior ver o Curriculum Vitae

Estamos no alvorecer do Século XXI e de um novo milênio e o mundo continua tendo angustiantes problemas no campo do relacionamento humano. Extremismos religiosos e nacionalistas geram freqüentes conflitos em diversos locais do planeta. Enfrentamentos seculares criam instabilidade e colocam nações em situações conflitivas levando-as, em alguns casos, ao envolvimento em guerras sangrentas, acentuando a miséria e o sofrimento de seus povos. Na maioria das vezes, ocultos por razões ideológicas, escondem-se ambições pessoais desmedidas ou presunções messiânicas que encontram terreno fértil no analfabetismo, nas condições subumanas de vida e em atávicos ódios e ressentimentos intermináveis.

Guerra e guerrilhas incessantes no continente africano já não figuram nas manchetes dos meios de comunicação ocidentais. Os Bálcãs reeditam o impressionante barbarismo de outras décadas e doutros séculos e deixam pendente um problema para o qual não se vislumbra solução a curto e médio prazos.

Para onde focarmos a atenção, no globo terrestre, existem motivos de séria preocupação. Israelenses e palestinos parecem encontrar, finalmente, a luz ao final do túnel, mas, não seria ilusória essa esperança? O Iraque é constantemente vigiado e, de vez em quando, é atacado por aviões britânicos e norte-americanos; o fundamentalismo islâmico do Iran sempre foi terra propícia ao terrorismo e agora, unido à explosiva situação curda, pode transformar-se em uma grave questão interna desse país. A Indonésia enfrenta uma possível secessão do Timor, e Índia e Paquistão - duas potências nucleares - digladiam-se, há muitos anos, pela posse da Cachemira. Neste panorama, não pode faltar a menção à Colômbia, que perdeu trezentos mil de seus filhos em décadas de desgaste contra os movimentos guerrilheiros maoista e cubanistas.

Poder-se-ia seguir ampliando esta lista com outras situações conflitivas no atual panorama mundial. Porém, nenhuma pode ser potencialmente tão perigosa como a que ocorre no cenário chinês. O governo de Pequim irrita-se, indigna-se e ameaça recorrer à força militar contra Taiwan pelo fato de que o presidente da ilha, Lee Teng Hui, aspira a que as relações através de Formosa sejam de Estado para Estado.

É bastante conhecida a posição da China Popular a respeito do assunto: considera-se a única representante da nação chinesa e Taiwan é uma província rebelde. Em conseqüência, esta não poderia ter relações diplomáticas com nenhum país (atualmente mantém com 29) e não deve ter acesso a nenhum organismo internacional.

Este isolamento propugnado por Pequim extrapola todas as normas vigentes. Em primeiro lugar, historicamente, Taiwan não é uma província rebelde; ao contrário, possui um governo legítimo que tem continuidade desde 1911, quando Sun Yat Sen fundou a República da China, a primeira da Ásia. Em 1949, os comunistas de Mao Tsé Tung, apoiados pela União Soviética, que lhes forneceu o arsenal abandonado pelo exército nipônico, conseguiram vencer o governo republicano e este viu-se obrigado a refugiar-se em Taiwan. Desde então, existem dois Estados soberanos: a República da China em Taiwan e a China Popular continental. Nenhuma delas tem jurisdição sobre a outra. Cada uma tem suas leis e estrutura institucional próprias. Uma é democrática no sentido pleno, enquanto a outra é marxista, com todas as limitações que o termo implica. São, pois, duas entidades políticas distintas.

Com relação à suposta rebeldia de Taiwan é importante enfatizar que, a rigor, a China Popular é que tem demonstrado, sistematicamente, ser a verdadeira rebelde, posto que levantou-se contra o governo constituído. O fato de haver triunfado a revolução marxista contra os nacionalistas de Chiang Kai Shek não autoriza Pequim a considerar rebeldes aqueles que perderam o domínio do continente e se refugiaram em Taiwan, uma parte do território chinês que nunca foi conquistada pelos insurretos. Esta situação se mantém há cinquenta anos. Isto não impediu que quase cinco milhões de taiwaneses tenham visitado o continente e que os ilhéus tenham investido trinta milhões de dólares na China Popular.

Entretanto, Pequim mantém uma intransigência absoluta. Se Taiwan declarar formalmente a sua independência, a China a invade imediatamente. Daí resulta a violenta reação às palavras do presidente Lee: "não podem existir relações de Estado a Estado, porque a ilha é uma província rebelde, porque existe somente uma China e não admite-se qualquer tipo de secessão".

Na verdade, existe uma só nação chinesa distribuída em duas entidades políticas que buscam reunificar-se, porque têm consciência de que pertencem ao mesmo tronco nacional. Porém, enquanto Taiwan quer a unificação com uma China continental democrática, pluripartidarista e respeitosa com as liberdades e direitos humanos, Pequim mantém sua atitude intransigente em considerar Taiwan como uma província rebelde e persiste nas ameaças de recorrer às armas para incorporá-la em seu seio.

Tudo isto parece um túnel sem saída. Não obstante, o tempo — na medida em que Taipei seja prudente em suas declarações — trabalha em favor de Taiwan: o progresso econômico e tecnológico chinês está criando uma nova classe cujos interesses se opõem aos da burocracia partidária e militar e que, cedo ou tarde, exigirá uma reestruturação do sistema político chinês. Aí então, sobre bases democráticas, outro será o idioma que se falará em ambas as margens do estreito de Formosa. Evidentemente, para o desfrute da nação chinesa e para o bem da humanidade.

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