Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

Manuel Cambeses Júnior ver o Curriculum Vitae

A inusitada pretensão da República Argentina de ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), como membro efetivo, foi prontamente rechaçada. O governo argentino saiu bastante desgastado nesse ingrato e infeliz episódio que colocou o país em uma posição muito incômoda ante o mundo, principalmente em relação aos seus parceiros do MERCOSUL e demais condôminos do cenário geopolítico sul-americano.

É surpreendente que as autoridades argentinas tenham dado um passo tão significativo e de tamanha relevância - como a proposição para o ingresso da Argentina na maior aliança militar existente no mundo - sem efetuar, previamente, estudos e consultas diplomáticas, técnicas e institucionais que lhes permitissem conhecer, com razoável grau de certeza, o risco que poderia correr uma solicitação dessa natureza.

Fontes oficiais do governo argentino têm proporcionado versões desencontradas a respeito da forma com que foi gerada a decisão de solicitar a incorporação da Argentina na OTAN, como membro permanente. Um setor governamental assegura que o trâmite foi idealizado e impulsionado pela Secretaria de Planejamento Estratégico e que a Chancelaria e o Ministério da Defesa não foram consultados em nenhum momento. Outras fontes, ao contrário, afirmam que o tema foi amplamente debatido em todos as áreas do governo e que foi examinado, inclusive, em reunião de gabinete, a nível governamental.

Tudo indica que a iniciativa surgiu como conseqüência de uma análise sobre as supostas novas condições que haviam se apresentado na OTAN, como resultado da guerra no Kosovo. Pensou-se que a Argentina — que já ostentava o título de aliado extra-OTAN (afago que lhe fora feito pelo Presidente Bill Clinton) — poderia aspirar a integrar-se, com maior realce, nessa poderosa aliança. Esses são os fatores que parecem ter determinado o açodamento da redação das notas que o Presidente Carlos Menem remeteu às autoridades da OTAN e ao Presidente dos Estados Unidos, para solicitar, formalmente, a incorporação do país como membro pleno da Organização.

A resposta a essa preposição tornou-se do conhecimento de todos: o então Secretário-Geral da OTAN, Javier Solanas, dirigiu-se por escrito ao primeiro mandatário argentino para comunicar-lhe que sua solicitação havia sido rechaçada. A nota enfatiza que somente podem pertencer à Organização os países situados no Atlântico Norte e que a Argentina, por ser um país situado no Atlântico Sul, não atende a essa premissa básica.

É simplesmente surpreendente que o governo argentino tenha dado esse passo em falso, sem meditar sobre as possíveis conseqüências e dissabores que poderiam advir ao tomar uma decisão dessa magnitude. Parece incompreensível que um assunto dessa natureza tenha sido manejado com tão pouca lucidez e ingenuidade e, sobretudo, que o rechaço pela OTAN tenha se fundamentado em considerações tão óbvias que, de certo modo, provocou um enfretamento entre os setores internos do governo argentino e promoveu, com atitude desse jaez, um incidente diplomático ao criar um clima de desconfiança com os vizinhos do continente.

Seria de bom alvitre que antes de efetuar um pedido dessa grandeza, a Argentina realizasse uma prévia consulta aos países sócios do MERCOSUL para inteirar-se da opinião dos mesmos. Esta atitude seria sumamente importante para referendar (ou não) a ação do governo argentino nessa empreitada, principalmente neste delicado momento que atravessa o processo de integração regional.

Dentro de uma visão mais ampla, esse indesejado e desagradável rechaço que sofreu a Argentina deve servir para uma profunda reflexão sobre a necessidade de que a política de alianças que o país adota, no campo internacional, seja encarada com responsabilidade e prudência. Os argentinos devem evitar, nessa área, qualquer atitude que tenda para o arroubo ou para impulsos momentâneos de êxito no concerto das nações.

O campo da política externa, certamente, não é o mais adequado para ensaiar ações temerárias e audazes que nada têm a ver com o louvável esforço encetado pela Argentina, ao longo desta década, para inserir-se no cenário internacional como um país maduro, sério e confiável.

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