Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

General-de-Exército Paulo Cesar de Castro – ver Curriculum Vitae

(“Singela homenagem de um brasileiro ao país, por ocasião de seu 512° aniversário”)

Lisboa testemunhou cerimonial grandioso no domingo, 8 de março de 1500, véspera da partida da esquadra que Dom Manuel confiara a Pedro Álvares Cabral. O Rei assistiu à missa na ermida votiva do Infante D. Henrique, entregou a Pedr’Álvares o estandarte régio, com a cruz da Ordem de Cristo, e transmitiu-lhe ordens miúdas e graves[i]

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares, capitão-mor da armada, Senhor de Belmonte e Alcaide-Mor de Azurara pertencia à melhor gente da Beira, filho de Fernão Cabral e Dª Isabel Gouveia. Em sua esquadra de três navios redondos, dez naus e caravelas, haviam embarcado: Pero Vaz de Caminha, escrivão da feitoria a ser fundada em Calicute, nas Índias; o guardião franciscano Henrique Soares de Caminha; Bartolomeu Dias; soldados e frades, também franciscanos; degredados e navegantes famosos, perfazendo o efetivo aproximado de 1200 a 1300 pessoas[ii]

Escreveu que “... a 23 (de março) perdeu de vista a nau de Vasco de Ataíde, exatamente quando deixava no horizonte a ilha de São Nicolau, de Cabo Verde, e com o vento à feição, ao oeste, por este mar de longo, 660 ou setecentas léguas, a 21 de abril uma surpresa comoveu e exaltou a marinhagem. Pescaram-se gramíneas, vindas de terra próxima! Pela manhã de 22, quarta-feira, oitavário da Páscoa, topamos aves a que chamam fura-buchos, e, a horas de véspera, houvemos vista de terra, a saber: primeiramente dum monte mui alto e redondo, e doutras terras mais baixas, ao sul dele, e de terra chã com muitos arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome de monte Pascoal...[iii]". Exultemos, pois, ó brasileiros, nosso querido país acabara de nascer. Salve 22 de abril de 1500!

“Não havendo no local bom abrigo para a esquadra, singraram os navios para o norte e a 25 chegaram a magnífico ancoradouro, que se chamou Porto Seguro. Num dos ilhéus da enseada, o da Coroa Vermelha, Frei Henrique celebrou, a 26, a primeira missa no Brasil[iv]". O celebrante era homem de singular religião e piedade, que depois, pela santidade de sua vida foi Bispo de Ceuta[v] . Comemoremos, pois, ó brasileiros, Jesus nos abençoava e se fazia presente, pela primeira vez, na hóstia consagrada.

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A segunda missa foi celebrada a 1° de maio em praia de terra firme na qual foi erguida uma cruz com as armas de Portugal, símbolo da posse da terra. Cabral, a dois de maio, retomou o caminho das Índias. Um navio, sob o comando de Gaspar de Lemos, retornou a Portugal levando a Dom Manuel I, “O Venturoso”, a notícia do descobrimento, minuciosamente narrado em carta por Pero Vaz de Caminha, à qual Joaquim Silva se refere como “a primeira página da história pátria[vi]. Este precioso documento foi descoberto em 1793, na Torre do Tombo, Lisboa, e publicado pela primeira vez em 1817 por Aires de Casal em sua obra Cosmografia Brasílica[vii]. Alegremo-nos, pois, ó brasileiros, nosso país tem preservada na íntegra a certidão de batismo que atesta incontestavelmente sua origem ocidental-cristã.

Eu e minha esposa também estávamos lá... em janeiro de 2012. Ao chegarmos a Porto Seguro passamos sob um pórtico com o dístico “Aqui nasceu o Brasil”. Emociona estar na cidade assim denominada pelos descobridores, como se lê na carta de Caminha: “Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500[viii]. À entrada da cidade admira-se o belo monumento que homenageia Pedro Álvares Cabral. A ele devemos nosso primeiro nome, Ilha de Vera Cruz. A Dom Manuel, o segundo, Terra de Santa Cruz. Agradeçamos a Deus, pois, ó brasileiros, nascemos e nos mantivemos sob o sinal da cruz.

Em janeiro de 2012, desfrutamos de magníficos dias de sol e lazer na praia de Taperapuan à frente da qual desfilaram os navios dos descobridores. Deleitamo-nos com a Costa do Descobrimento, belíssimo litoral que se estende do Parque Nacional de Monte Pascoal, ao sul, até Belmonte, ao norte. Caraíva, Trancoso, Arraial d’Ajuda, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Belmonte são os municípios que recebem de braços abertos, todos os anos, milhares de turistas de todos os rincões do Brasil e de tantos países amigos.

Os naturais da terra se orgulham das belezas naturais que exibem e do passado ímpar que os distingue. O justificado orgulho se manifesta por toda parte, como nestas palavras do Guia Turístico da Costa do Descobrimento[ix]: “Marco do início do Brasil, Porto Seguro é o ponto de partida para se conhecer o rico acervo histórico tombado e conservado. Datado dos primórdios do Descobrimento do Brasil este cenário pode ser visitado e entendido nos museus, através do farto acervo histórico. Entre prédios históricos, museus e locais ainda primitivos o visitante vive um pouco da nossa história em toda a Costa do Descobrimento”. Nela, caravelas com a cruz da Ordem de Cristo, nas mais diferentes peças de artesanato local, são oferecidas ao turista por toda a parte.   Sigamos, pois, ó brasileiros, descobrindo a Terra de Santa Cruz.

memorial da epopeia do

Em Porto Seguro visitamos o “Memorial da Epopeia do Descobrimento”, inaugurado em 2003, um espaço cultural idealizado e fundado pelo Professor Wilson Cruz. Ao percorrê-lo podem ser admiradas: espécies da flora nativa; o pavilhão da epopeia das grandes navegações marítimas; uma réplica em tamanho natural de caravela da esquadra de Cabral; e, em grande oca, objetos variados de inúmeras tribos indígenas, referência aos primitivos habitantes da Terra de Santa Cruz.

No sítio histórico de Porto Seguro se encontra o famoso Marco do Descobrimento ou da Posse, enviado em 1503 e no qual estão esculpidas a Cruz de Aviz, símbolo da Ordem de Cristo, e as armas de Portugal. Pedro Calmon denomina-o de Padrão de Posse. A Casa de Câmara e Cadeia (Sec. XVII), o casario preservado, a Matriz de Nossa Senhora da Pena (iniciada em 1535), a igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário (1549 e 1551) e a igreja de Nossa Senhora da Misericórdia são relíquias arquitetônicas que atraem a admiração de todos. Viva, pois, ó brasileiros, pelas obras preservadas do rico patrimônio histórico nacional.

Trancoso foi fundada em 1586 para a defesa em face de contrabandistas de pau-brasil. Seu sítio histórico é um dos mais importantes da Costa do Descobrimento. Nele destaca-se típica forma de povoamento dos jesuítas, o Quadrado, grande praça no alto de um outeiro cercada de casinhas baixas e geminadas. A igreja de São João Batista ergue-se no lado do Quadrado voltado para o mar. A atual Trancoso, antiga aldeia de São João Batista dos Índios, é considerada um dos últimos exemplares preservados das primeiras povoações brasileiras[x]. À estrada, pois, ó brasileiros, há muita história a desfrutar, além de paradisíacas belezas naturais, na Costa do Descobrimento.

  No domingo, 26 de abril de 1500, Cabral e os capitães baixaram ao ilhéu de Coroa Vermelha e assistiram à missa, comovidamente celebrada por Frei Henrique[xi].  Em Coroa Vermelha, município de Santa Cruz Cabrália, se encontra como monumento uma cruz que assinala o local da primeira missa celebrada em nossas terras. Desenho de J. Wash Rodrigues e famoso quadro a óleo de Vitor Meireles nos remetem àquele memorável dia da nacionalidade. Eia, pois, a celebrá-lo, ó brasileiros, como evento da Semana de Vera Cruz, denominação dada ao período de dez dias vividos pela esquadra de Cabral na Costa do Descobrimento. Acorramos jubilosos às missas em 26 de abril e 1°de maio.

No sábado, 2 de maio de 1500, Pedro Álvares Cabral deixou Porto Seguro rumo às Índias. No domingo, 22 de janeiro de 2012, eu e minha esposa decolamos de Porto Seguro rumo ao Rio de Janeiro. Estivéramos todos na Costa do Descobrimento que, “de ponta a ponta é toda praia palma e muito chã e muito fremosa... em tal maneira graciosa que querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem...” [xii].

Que o Cristo Redentor siga abençoando-te, Terra de Santa Cruz. Parabéns, Brasil, por teus quinhentos e doze anos. Feliz Aniversário!

 


[i] CALMON, Pedro. História do Brasil, Volume I, pag. 55. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959. E: SILVA, Joaquim, História do Brasil, pag.. 16. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955. 

[ii] BUENO, Eduardo, A Viagem do Descobrimento, pag. 10, afirma que, após o desaparecimento de uma das naus (a de Vasco de Ataíde) restaram 1350 homens embarcados nos, agora, 12 navios. RIO DE JANEIRO: Objetiva, 1988.

[iii] CALMON, Pedro, ob. cit. pag. 55 e 56.

[iv] SILVA, Joaquim, ob. cit. pag. 16. 

[v] OSÓRIO, D. Jerônimo, Da Vida e Feitos de el-Rei D. Manuel I, pag. 77, in CALMON, Pedro, ob. cit. pag. 58.

[vi] Idem, página 25.

[vii] CALMON, Pedro, ob. cit. páginas 64 a 83.

[viii] Idem, pag. 83.

[ix] REHDER, Sérgio Osvaldo, editor e diretor. Guia Turístico da Costa do Descobrimento, 1ª edição, pag. 19. Porto Seguro e São Paulo: 2005/2006.

[x]Idem, pág. 124 a 126.

[xi] CALMON, Pedro, ob. cit. pag. 58.

[xii]  SILVA, Joaquim, ob. cit. pag. 24 e 25.

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