Centro de Estudos de Cultura e História Brasileira

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Artigo pelo Professor Israel Blajberg; ver Curriculum Vitae

8 de maio de 1945, o Dia da Vitoria Aliada na Europa, representou um marco relevante na historia do Brasil.  O Brasil, unico pais latino-americano que participou da 2ª. Guerra Mundial, como uma das 19 Nações Aliadas enviou tropas para a Europa. Centenas de nossos bravos soldados, marinheiros e aviadores  fizeram o sacrificio supremo da propria vida na luta para ajudar a libertar o mundo do nazi-fascismo.

 

Hitler pretendeu se vingar de uma nação pacífica e ainda rual, lançando uma blitz submarina no litoral brasileiro,  com o torpedeamento de mais de 30 navios mercantes, acaretando o sacrifício de mais de 1.500 preciosas vidas de brasileiros inocentes.

 

Os mil anos do Reich não passaram de 11 dolorosos anos para a Humanidade, até ser destruído, em Stalingrado, Bir Hakim,Tobruk,  no Levante do Gueto de Varsóvia, nas praias do Dia D, e na Italia onde lutou a FEB, de Montese a Monte Castello, de La Serra a Fornovo.   

 

Hoje o mundo parece sofrer de uma amnésia coletiva e seletiva no que diz respeito a acontecimentos não tão distantes, como os aqui tratados.  Faz-se mister combater toda e qualquer manifestação de intolerância,como o neonazismo, o terrorismo fundamentalista, e falácias como a negação do Holocausto.  A vitória das Nações Aliadas impediu que se consumasse a terrivel resolução da Conferencia de Wansse, de assassinar 11 milhos de inocentes, pelo crime de serem judeus. Mesmo assim, o numero de mortos chegou a 6 milhoes.  Pereceram no Holocausto 1,5 milhão de crianças. Quantas poderiam ter dado ao mundo mais beleza, mais ciência, mais saúde?

 

Transcorridos 72 anos da Vitória,  o passado não pode ser simplesmente esquecido, sob pena de outros atores os emularem.   No distante ano de 1942, o Brasil recebia noticias preocupantes dos avanços e atrocidades do Eixo, os jornais e o rádio eram as únicas fontes de informações, trazendo as noticias de ataques em todos os fronts,

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 Noticias incertas de assassinatos em massa, deportação de judeus da França para Auschwitz, inicio das deportações do Gueto de Varsóvia para o campo da morte em Treblinka, quando o professor Janusz Korczak escolhe seguir com as suas crianças do orfanato, legando ao mundo uma lição, e o seu método ate hoje utilizado.

 

Termina a Batalha de Moscou com a contra-ofensiva soviética e o recuo das forças alemãs para fora de Moscou (primeira derrota alemã na guerra). Ao mesmo tempo em que a União Soviética recaptura Kiev na ofensiva de inverno, a Conferência de Wannsee acontece em um palacio na periferia de Berlim, definindo um macabro protocolo para as deportações e assassinatos de 11 milhões de judeus na Europa.

 

Lamentavelmente perderam-se  6 milhões de vidas preciosas, de civis, homens, mulheres, crianças, idosos, todos inocentes, mas culpados de serem judeus. Crime hediondo mas que hoje por absurdo que seja encontra negacionistas.  A humanidade não pode permitir que o Holocausto ocorra novamente. Nunca mais.  Dos criminosos participantes, autores de barbaros crimes contra a Humanidade, dois ficaram especialmente  conhecidos pela opinião pública:

 

Adolf  Eichmann   foi capturado pelo MOSSAD e enforcado em 31 de maio de 1962 na prisão em Jerusalem, sendo suas cinzas espalhadas no Mediterrâneo.

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 Reinhard Heydrich chefe da SS – Tropa de Choque e da SD - Policia Secreta  - figura chave no assassinato de judeus na Europa, e da população civil e membros do partido comunista nos territórios soviéticos ocupados durante a invasão da Russia – Operação Barbarossa. Pelos horrores que  cometeu e o terror que infundiu às pessoas foi eliminado pela resistencia tcheca em 4 jun 1942.  Em represália à sua morte, a aldeia de Lídice foi literalmente varrida do mapa, tendo os seus habitantes sido horrivelmente executados ou deportados. Hoje em todo mundo há cidades com o nome Lidice, inclusive uma aqui no interior do Estado do Rio.

 

Enquanto as primeiras forças norte-americanas chegam à Europa, desembarcando na Irlanda do Norte, em jun 1942, Hitler decidiu lançar uma blitz submarina no litoral brasileiro, e destruir os portos do Rio, Recife, Salvador e Santos, em represália a exportação de alimentos e matérias-primas estratégicas do Brasil para as nações aliadas.

 

A pesada campanha antissubmarina contra a navegação marítima nacional iniciou-se com o torpedeamento do BUARQUE, o primeiro de mais de 30 navios mercantes a serem afundados, com a nação lamentando o sacrifício de mais de 1500 preciosas vidas brasileiras inocentes. Foi empregada uma flotilha de 10 submarinos de 500 a 700 ton, baseados na França ocupada, e mais um de reabastecimento, a qual se agregaram mais tarde unidades italianas.

 

Em apenas 4 dias de agosto foram torpedeados 6 navios, desparecendo no mar 600 patrícios inocentes, passageiros e tripulantes do Baependy e Itagiba, que transportavam para Recife o 7º. GADo, do Araraquara, Annibal Benévolo, Arará e Jacira. Diante do clamor popular nas ruas, o Governo reconhece o estado de beligerância, e em 31 ago 1942, através do Decreto Lei 10.358, o Brasil declara o estado de guerra com a Alemanha e Itália.

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O Brasil se uniu contra o nazismo. Apenas no Baependy desapareceram no mar 250 soldados e 7 oficiais, 2 baterias de artilharia e demais equipamentos. Outro navio levava peregrinos para um Congresso Eucarístico em São Paulo. Em todas as cidades bandeiras de países do Eixo eram queimadas nas ruas, numa onda de repulsa onde se destacaram os estudantes, precursores dos futuros  cara-pintadas de hoje.

 

Às agressões do Eixo contra o Brasil, seguiu-se a heroica  defesa do nosso litoral contra a guerra submarina. Na década de 40, as ligações eram basicamente marítimas.  O fluxo da navegação mercante  não podia ser interrompido, pois carecendo de estradas de rodagem, o pais dependia do trafego marítimo Norte-Sul, não só para interligação domestica como também para exportar nossos produtos, como borracha, café, óleos, materiais estratégicos trazendo na volta manufaturados, como automóveis, material bélico, remédios, ferramentas, motores, derivados de petróleo,  e demais bens que o pais não produzia.

 

O Brasil era então a única fonte de cristais de quartzo utilizado em equipamentos de rádio, abundante na região de Cristalina em Goiás, e em Minas Gerais, em qualidade de grau eletrônico. Outros materiais fundamentais para o esforço de guerra eram minério de ferro, borracha, cromo, manganês, níquel, bauxita, tungstênio, diamantes industriais, e areias monazíticas ricas em tório, utilizadas nas pesquisas atômicas então sendo desenvolvidas.

 

A quinta-coluna denunciava as cargas e datas de partida dos navios, indefesos, no principio viajando sem escolta e sem armamento. Sozinhos e contando com a sorte, alguns furavam o bloqueio e chegavam aos portos de destino, entregando a sua preciosa carga, outros sucumbiam nos abismos do oceano, torpedeados pelos ultramodernos submarinos do Eixo.

 

A Marinha organizou comboios que protegiam a nossa navegação, missão plena de perigos e sobressaltos, especialmente para a frota de caça submarinos, projetados para aguas costeiras calmas, e que cumpriram épicas jornadas em alto-mar encapelado.

 

Nessas empreitadas tivemos a lamentar a perda do Vital de Oliveira, a 25 milhas do Farol de São Tomé, com 100 mortos, da Corveta Camaquã, em junho de 44, a 12 milhas NE de Recife, que vitimou 33 marinheiros, inclusive o Comte Gastão Moutinho, e o naufrágio do Cruzador Bahia, em julho de 1945, já com a guerra terminada, em missão de apoio aos aviões vindos da África, com a perda de 337 marinheiros, incluindo o Comandante Garcia d'Ávila Pires e Albuquerque, a 500 km de Fernando de Noronha, e a 100 km do Arquipélago de São Pedro e São Paulo.

 

Com a debacle alemã na frente russa e africana o perigo foi afastado e a situação finalmente revertida, passando o Brasil a colaborar decisivamente com o esforço de guerra, pelo estabelecimento de bases militares no Nordeste e na ilha de Fernando de Noronha.  O encontro dos Presidentes Vargas e Roosevelt, que seria realizado  em Natal aos 28 jan 1943 ficou famoso, simbolizando a importância do Trampolim da Vitoria para os Aliados. Passando a receber novos navios e armas pelo LAND LEASE, a Marinha do Brasil ganhou condições de formar comboios, não mais ocorrendo perdas de mercantes, protegidos pela Força Naval do Nordeste e Aviação de Patrulha.

 

Nos anos seguintes o Brasil participaria ativamente do conflito como uma das 19 Nações Aliadas, com nossas bases apoiando o tráfego marítimo e aéreo, pelo envio de suprimentos estratégicos, defendendo o Litoral com  forças de Terra, Mar e Ar, e formando a FEB – Força Expedicionária Brasileira, com 25 mil soldados, e o 1º. Grupo de Aviação de Caça (Senta-a-Pua). 

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Assim, o Brasil além de provar o trágico fel da guerra,  de estar no front da guerra submarina,  de possibilitar a passagem de material e tropas, ceder importantes bases aéreas e navais, fornecer material estratégico e alimentos, e apoio diplomático nas Conferencias na-Americanas, ainda fez o supremo sacrifício em sangue, enviando suas tropas para o teatro de operações europeu.

 

No computo geral, além das preciosas vidas de 1.900 soldados, marinheiros e aviadores, perdemos 31 navios mercantes, 3 navios de guerra e 22 aviões de combate.

 

Cabe ainda registrar outro infausto acontecimento, em 23 de fevereiro de 1942, o pacto de suicidio em Petropolis do escritor autriaco Stefan Zweig e sua esposa Lotte, refugiados do nazismo. Seus livros foram queimados em toda a Austria. Em sua curta permanencia de 16 meses na nossa terra, escreveu um livro famoso até hoje, BRASIL, PAIS DO FUTURO. Milhares de pessoas lhes prestaram silenciosamente uma ultima homenagem, e o Pres Getulio Vargas determinou que o funeral fosse custeado pelo governo, e as autopsias fossem realizadas na residencia, e nao no IML, em sinal de respeito. Aos 60 anos, abalado pela morte espiritual da Austria dominada pelos nazistas, estava em desepero. Na carta de despedida ao presidente do PEN Clube declarou que a cada dia amava mais o Brasil, este pais maravilhoso.

 

Passadas tantas décadas, ainda hoje BRASIL PAIS DO FUTURO nos traz uma perspectiva admirável das potencialidades brasileiras. Mesmo com tantas mudanças tecnologicas, o avanço da economia,a inserção na corrente da globalização, o livro continua verdadeiro, porque a alma não muda.

 

É um livro que merece ser lido e pensado, e cujo resumo da Introdução  tão bem revela nas palavras profeticas de Stefan Zweig o espírito brasileiro:  ...

 

“...causou uma das mais fortes impressões da minha vida... os olhos não se cansavam de olhar, e para onde quer que os dirigisse sentia-me feliz. viajei 12, 14 horas de trem pensando com isso aproximar-me do coração desse pais.  mas quando de volta examinei o mapa, verifiquei que havia apenas penetrado um pouco embaixo da pele.

 

...  antes um continente – espaço para trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de habitantes,  riqueza imensa sob este solo opulento e intacto, da qual apenas a milésima parte foi aproveitada   Percebi que havia lançado um olhar sobre o futuro do mundo. sabia bem que nada vira, ou em todo caso não vira bastante    passei cerca de meio ano neste pais e só agora sei que uma vida inteira não bastaria para conhece-lo -  quero salientar o que coloca o Brasil em posição especial dentre as nações do mundo, no que respeita ao espirito e a moral nenhum o resolveu de maneira tão feliz e mais exemplar - e para gratamente testemunhar isso escrevi esse livro 

 

o Brasil o resolveu duma maneira que requer a admiração do mundo se tivesse aceito o delírio europeu de nacionalidade e de raças, seria o pais mais desunido, menos pacifico e mais intranquilo do mundo      não ha distinções de cores, exclusões, separações presunçosas ao passo que na Europa cada nação inventou uma palavra de ódio para aplicar a outra 

 

é surpreendente que a segunda geração já se sinta só brasileira - em geral o filho de estrangeiro é nacionalista é um pais que odeia a guerra, e ainda mais, que quase não a conhece – seu orgulho e seus heróis não são apenas guerreiros,  mas estadistas como Rio Branco e Caxias, que com prudência e firmeza souberam acabar e evitar guerras. 

 

hoje, que o Governo é considerado ditadura, há aqui mais liberdade e satisfação que na maioria dos países europeus.  

 

aqui repousa uma das melhores esperanças de uma futura civilização e pacificação do mundo devastado pelo ódio e pela loucura      na nossa época de perturbação ainda vemos novas esperanças em novas zonas, é nosso dever indicar esse pais, essas possibilidades, por isso escrevi este livro...”

 

Conclusão

Com a vitoria na 2 GM as tropas brasileiras retornaram ao solo patrio.  Com o curso da guerra e o retorno das tropas, a manutenção do autoritarismo do Estado Novo, inaugurado em 1937, ficava insustentável. O final da guerra trazia a certeza de que a redemocratização era inevitável e que o retorno da FEB ao país contribuiria para acelerar esse processo.

A FEB passa a ser, então, uma espécie de presença indesejada para a ditadura varguista e também para o Exército, projetando novas lideranças e criando áreas de tensão interna, ou seja, conturbando a hierarquia militar em um momento muito delicado politicamente. A desmobilização efetiva das tropas acabaria, em parte, com estas questões.

O retorno da FEB ao Brasil em set 1945 foi representativo da vitória da democracia no mundo e, especialmente no país, que vivia nessa época, sob a ditadura varguista. A FEB que lutara contra o nazifascismo , após o final do conflito contribuirá para a queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo .

Em 9 de agosto de 1945 – O Gen Eurico Gaspar Dutra deixa o Ministério da Guerra para se candidatar à presidência da República , enfraquecendo Vargas. Em 29 de outubro de 1945 Vargas é deposto por um movimento militar liderado por generais , na maioria ex-tenentes da Revolução de 1930 , Góis Monteiro , Cordeiro de Farias , entre outros .

Getúlio é substituído por José Linhares , presidente do Supremo Tribunal Federal , pois não existia a figura do vice-presidente.  José Linhares torna-se presidente interino, ficando três meses no cargo, até passar o poder ao Gen Eurico Gaspar Dutra , eleito em 2 de dezembro de 1945 e empossado em 31 de janeiro de 1946. Com a queda de Getúlio Vargas encerra-se o Estado Novo, regime político por ele instituído em 1937 e que durou até 1945 .

Um novo mundo nascia da vitoria aliada na 2ª. Guerra Mundial, legando ao Brasil a democracia

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