Geopolítica

O DESAFIO GIGANTESCO DA GEOGRAFIA - General Carlos de Meira Mattos

A Amazônia foi uma descoberta espanhola e uma conquista portuguesa; ao contrário, o Prata foi uma descoberta portuguesa e uma conquista espanhola.

DF. ABREU

A agressividade da natureza da hileia, como vimos, vem atingindo o homem no afã de transformar essa região anecumênica, primeiramente em espaço político e depois em espaço econômico.

O interesse em estender o domínio de suas fronteiras econômicas até as lindes amazônicas é comum aos seis países que participam dessa imensa bacia. Esta vem sendo uma luta árdua. Euclides da Cunha, no começo do século, testemunha local dessa pugna, traduziu o seu resultado com estas palavras, "foi a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três séculos, numa agitação tumultuária e hostil".

Este quadro paralisante do homem apequenado ante a natureza colossal é o que estamos tentando modificar, com determinação e inteligência servida pelos modernos instrumentos da tecnologia.

Capistrano de Abreu diz que a Amazônia foi uma descoberta espanhola e uma conquista portuguesa, enquanto, ao contrário, o Prata foi uma descoberta portuguesa e uma conquista espanhola. Realmente, é interessante observar-se que, com sua imensa foz jorrando sobre o Atlântico, a conquista pelo europeu dessa gigantesca planície florestal deu-se no sentido das nascentes para a foz. Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana, os primeiros expedicionários a penetrar na hileia, desembarcaram no Pacífico, galgaram os altiplanos andinos e com gentes vindas de Quito e de Lima desceram pelos formadores do Napo até encontrar o Maraiión.

Orellana entrou no rio Amazonas e navegou rio abaixo, até sair na sua foz; enquanto Pizarro regressou a Quito antes mesmo de se aprofundar no Maraiión.

Antes de Orellana encetar sua expedição amazónica (1534), já sabiam os espanhóis da existência de um enorme rio desembocando no Atlântico, "o Santa Maria dei Mar Dulce", cuja foz fora descoberta por Vincente Yaiiez Pinzón no ano de 1500. É bem passivei que entre as motivações lendárias que impulsionaram Gonçalo Pizarro (a terra de canela) e Orellana (o país das amazonas) estivesse presente também o desejo de encontrar este grande rio continental cuja desembocadura imensa no Atlântico.

Após a chegada de Orellana á boca do Amazonas (1542), outras expedições exploratórias espanholas partiram de Quito e Lima e seguiram o mesmo rumo da primeira, havendo a destacar a de Pedro Ursua e Lopo de Aguirre (1561) e as missões religiosas do jesuíta Samuel Fritz no rio Solimões.

Os portugueses, somente após a fundação do Forte do Presépio (1646), onde hoje se encontra a cidade de Belém, com a expedição comandada pelo capitão-mar da capitania do Maranhão, Francisco Caldeira Castello Branco, começaram a explorar a imensa foz e iniciaram os reconhecimentos rio acima. Logo em seguida, mais interiorizado na imensa foz, foi levantado pelo mesmo capitão-mor o Forte de Gurupá, que passaria a desempenhar o papel de ponto de apoio para as futuras incursões lusas, rio adentro.

O Conselho Ultramarino, preocupado com a ocupação do alto Amazonas por jesuítas espanhóis e com as penetrações exploratórias de navegantes franceses, ingleses e holandeses, já instalados em alguns pontos no Maranhão e ao norte do Cabo Orange, resolveu criar O estado do Maranhão e Grão-Pará (1621); era o prolongamento da jurisdição territorial da antiga capitania do Maranhão até o norte da boca do Amazonas e o fortalecimento político da autoridade responsável pela segurança e colonização dessa área.

Em 1637, Felipe IV da Espanha, detentor das duas coroas, resolveu mandar criar a capitania do Cabo Norte (atual Amapá), entregando sua donataria ao português Bento Manoel Parente. Não foi sem muitas lutas que os portugueses consolidaram seu poder nessa capitania ambicionada pelos franceses.

Em seguida, o governador do estado do Maranhão e Grão-Pará resolve organizar a grande expedição portuguesa de exploração do rio Amazonas. Sob o comando do capitão Pedro Teixeira, essa expedição (1637-1639) percorreu itinerário inverso ao feito por Orellana há quase 100 anos. O capitão Pedro Teixeira subiu o Amazonas, o Maranón, o Napo, abandonou as embarcações, galgou as escarpas da cordilheira e chegou ao grande altiplano de Quito. O aparecimento de Pedro Teixeira e sua gente nos Andes surpreendeu e desagradou as autoridades espanholas. O Conselho das Índias de Madrid, na ata da reunião de 28 de janeiro de 1640, registrou as preocupações vindas das autoridades do vice-rei nado do Peru. Diz o aludido documento:

Em virtude da viagem do capitão Pedro Teixeira, o Conselho das Índias resolveu que fosse castigado o governador Jácome Raimundo de Noronha, que a havia mandado organizar.

Propôs também o dito conselho ao rei que se trate, por la via y medias que Vossa Majestade le parecieren más ajustados y convenielltes de que los Portugueses dejen la vaca dei Amazonas y provincias dei MaraflólI que tiellell usurpadas de la Corolla de Castilla...

Nessa época, embora as duas coroas estivessem sob a autoridade de Felipe II, as rivalidades não se apagaram. Pelo mesmo itinerário da ida, o capitão Pedro Teixeira regressou a Belém. Alguns anos após a viagem de Pedro Teixeira, chegou às terras do vice-reinado de Lima o bandeirante Raposo Tavares, vindo de São Paulo, tendo percorrido o rumo geral dos vales do Tieté, Paraná, Paraguai, atingiu a região de Santa Cruz de la Sierra, explorou as encostas andinas, teve alguns desentendimentos e choques com as autoridades espanholas, desceu o rio Grande e atingiu o Mamoré, o Madeira, o Amazonas e chegou a Gurupá, de onde havia partido o capitão Pedro Teixeira.

o padre Antônio Vieira, narrador da bandeira de Raposo Tavares, ouvindo e transcrevendo os relatos dos presentes que acompanharam a expedição, tão audaciosa como a bandeira fluvial do capitão Pedro Teixeira, e que tanta consequência trouxe ao alargamento das fronteiras brasileiras, que seria depois consolidado pelo Tratado de Madrid (1750), compara a bandeira de Raposo Tavares à façanha dos argonautas. Mas esta tem apenas a doirá-la a lenda e o resplendor da Idade Antiga -bem modesto padrão para medi-la, exclama Jaime Cortezão! Faltaram à empresa lendária dos argonautas "a variedade inóspita dos climas e o esforço múltiplo dos trabalhos, que exigia dos homens (e não dos deuses) uma energia física e uma constância moral que excediam a mais alta medida humana, pois devia fundir a força dos gigantes e a consciência dos heróis".

Conjugando-se ao impulso expansionista do bandeirante paulista, partiram do estado do Maranhão e Grão-Pará as bandeiras fluviais de conquista da Amazônia para a coroa de Portugal. Diz o historiador amazonense Samuel Benchimol:

A grande capitania da conquista foi a do Grão-Pará, onde, a partir de São Luís, se iniciou, com Francisco Caldeira Castello Branco, a história das bandeiras fluviais paraense-amazônicas. A fundação do Forte do Presépio, em Belém, no ano de 1616, serviu de base logística à expansão. Sem dúvida, a primeira grande bandeira fluvial paraense-amazônica foi a do capitão Pedro Teixeira, que, seguindo instruções do governador Jácome de Noronha, partiu de Gurupá a 17 de outubro de 1637 e com uma armada de quarenta e sete canoas, mil e duzentos índios de remo e peleja e mais seiscentos soldados portugueses, o que, contando mulheres e curumins, fazia a expedição ascender a duas mil e quinhentas almas, segundo o registro histórico de João Lúcio de Azevedo.

Do ponto de vista geopolítico, observa-se, nessa época, o gradual deslocamento do centro do poder de São Luís para Belém. Realmente, Belém estava mais bem posicionada para vigiar a boca do grande rio, ameaçado pelas constantes incursões de navegantes franceses, holandeses e ingleses, assim como para servir de base logística às expedições exploratórias da imensa bacia, respondendo às preocupações de Portugal, relativas às notícias de instalação de fundações religiosas espanholas nos cursos do Marafión e do Amazonas e seus afluentes. A partir de 1623, quando tomou posse em São Luís o primeiro governador do estado do Maranhão e Grão-Pará, o fidalgo Francisco Coelho de Carvalho, os sucessivos governadores permaneceram cada vez mais em Belém e cada vez menos na capital maranhense.

Em 1751, o capitão-general do estado do Maranhão e Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, tomou posse em Belém, marcando assim, oficialmente, urna transferência da hierarquia do poder de São Luís para Belém.

Com a criação da capitania de São José do Rio Negro (que deu origem ao atual estado do Amazonas), subordinada ao governador assentado em Belém, cresce ainda mais de importância o papel desta cidade na consolidação do poder português na foz do Amazonas e na sua expansão rio adentro. Diz Arthur Reis, na sua pesquisa histórica Limites e demarcações na Amazônia brasileira, que a criação da capitania de São José do Rio Negro "completaria

o aparelhamento defensivo da coroa portuguesa na orla fronteiriça, iniciada com a de Mato Grosso e prosseguida com o governo militar de São Pedro do Rio Grande do Sul; ademais, com essa nova unidade política, estabelecia-se um melhor controle da vida na hinterlândia".

Graças à ação do governo de Lisboa, protegendo a cobiçada foz do Amazonas, expulsando os aventureiros ingleses, holandeses e franceses que se atreveram rio acima, e expandindo os marcos de ocupação lusa até as proximidades das nascentes andinas do grande rio e seus principais afluentes da margem norte, foi possível aos demarcadores da fronteira, permitido pelo Tratado de Madrid (1750), firmado no principio do Uti possidetis comprovar a antecipação de ocupação lusa do imenso leque norte e oeste do grande rio e seus afluentes, dando nascimento ao atual delineamento da fronteira da Amazônia brasileira.

Coube ao mesmo capitão-general Mendonça Furtado a missão de chefe da primeira comissão demarcadora da fronteira estabelecida pelo Tratado de Madrid. Para isto, organizou uma expedição de mais de mil pessoas, entre as quais engenheiros, físicos, matemáticos, desenhistas, soldados, escravos e índios, e partiu de Belém, em outubro de 1754. Em Mariuá, que denominou Vila Barceios, no rio Negro, em obediência às ordens de Lisboa, que mandava dar topônimos portugueses aos lugares, estacionou a expedição demarcadora durante dois anos, à espera do representante espanhol D. José de Iturriaga, que nunca chegou. Enquanto a expedição permaneceu parada, Mendonça Furtado, com alguns barcos, aproveitou o tempo para reconhecer o alto rio Negro, o rio Branco, o Solimões e o Madeira, onde fundou a Vila de Borba em 1756, com o fim de "proporcionar um lugar de refresco e descanso aos vassalos que frequentavam o caminho de Mato Grosso". No seu regresso a Belém, Mendonça Furtado dava cumprimento à Carta Régia de José I, de março de 1755, criando a capitania de São José do Rio Javari, com sede não na Vila Nova de São José, no rio Javari, afluente do Solimões, como mandava a dita Carta, mas em Mariuá, cujo nome mudou para Vila Barcelos.

Até hoje discutem os historiadores sobre as razões que teriam levado Mendonça Furtado a fixar a sede da capitania no rio Negro, ao invés de instalá-la no Javari-Solimões como estabelecia a Carta Régia. Capistrano de Abreu julga que Mendonça Furtado teria preferido a Vila de Barcelos, no rio Negro, por se tratar de uma região de onde os espanhóis estavam muito afastados, o que ficara provado pelas dificuldades de Iturriaga em atingi-la, onde, portanto, a expansão se faria sem maiores tropeços do que no alto Solimões. Realmente, nas paragens dos rios Negro e Branco os portugueses fundaram, sem problemas, os fortes de Marabitanas e São Joaquim. Opina o prof. Arthur Reis que Mendonça Furtado talvez tenha sido induzido a preferir a aldeia de Mariuá, residência dos carmelitas, por influência do bispo

frei Miguel de Bulhões, que visitou o lugar e, em Belém, antes da partida da expedição de Furtado de Mendonça, procurou convencê-los sobre as excelências dessa aldeia. Diz ainda o prof. Arthur Reis que a fronteira do Solimões já era na época muito disputada e cobiçada e que certamente a localização da sede da capitania ali iria encontrar resistência espanhola, cuja defesa seria muito mais difícil.

o acaso ou o arbítrio de Mendonça Furtado, segundo Samuel Benchi mal, selou a sorte da nova capitania, deslocada do Solimões para o Negro, contrariando a ordem régia. Se esta ordem fosse cumprida, "poderia alterar a sorte da fronteira ocidental, do Sudoeste e do noroeste amazónico, com a criação de outros Maranhões".

Todo este episódio da expedição do capitão-general Mendonça Furtado às lonjuras amazónicas para fins de fixação de fronteiras e afirmação de direitos territoriais portugueses está ligado às instruções diretas de Sebastião José de Carvalho e Mello, o marquês de Pombal, seu irmão.

Em cartas a Mendonça Furtado (1755), o marquês de Pombal fixa, claramente, os objetivos geopolíticos da expedição:

Quero que o novo governo do rio Negro, o qual agora bem vereis, que deve ser promovido com o maior cuidado pela indispensável necessidade de se povoar essa fronteira ocidental e segurarmos com ela a navegação do rio Madeira para o Mato Grosso, e a passagem daquelas Minas para o Cuiabá; e ainda mais escuso de vos lembrar que muito se faz necessário separar os padres jesuítas (que já claramente estão fazendo esta guerra) da fronteira da Espanha, valendo-nos para isto de todos os possíveis pretextos, visto que com esta Potência Eclesiástica nos achamos em tão dura e custosa guerra; completar o aparelhamento defensivo do Império na orla fronteiriça, iniciada em Mato Grosso e prosseguindo com o governo de São Pedro do Rio Grande do Sul.

Deve-se recordar, aqui, que Mendonça Furtado saíra em expedição para encontrar-se com o delegado plenipotenciário de Castela, d. José Iturriaga, a fim de, juntos, demarcarem a fronteira entre ambas as potências coloniais, estabelecida pelo Tratado de Madrid (1750), instituto diplomático que já assinalava uma vitória espetacular de Portugal, que conseguira fazer valer o princípio do Uti possidetis de fato como critério demarcatório.

Instalada no rio Negro em 1758, na Vila de Barcelos, antiga Mariuá, ficava a dúvida se conservava o seu nome de capitania de São José do Javari, constante da ordem régia. Mendonça Furtado, na sua correspondência, logo adotou o nome de capitania de São José do Rio Negro. Mais tarde foi criada nova capitania em São José do Rio Javari e, assim, normalizou-se o problema onomástico. Ao terminar o período colonial, o espaço político amazônico compreendia o estado do Maranhão e Grão-Pará e as capitanias: Maranhão, Pará, Cumá, Cabo Norte (Amapá), Caeté, Goiás, Mato Grosso, São José do Javari e São José do Rio Negro.

Como se vê, a conceção política colonial de ocupação do espaço amazónico era a de descentralização administrativa. Das 11 sedes de governos regionais, nove estavam subordinadas diretamente ao estado do Maranhão e Grão-Pará; este, por sua vez, era vinculado á metrópole portuguesa, portanto desligado do Governo Geral do Brasil. Segundo Jaime Cortezão, "a divisão da América portuguesa em dois estados foi imposta por fatalidades da natureza, pois a criação do estado do Maranhão e Grão-Pará se deve à impossibilidade de navios a vela navegarem contra a corrente das Guianas e alisados do sudeste, entre Belém ou São Luís e os portos brasileiros, desde o Recife para o Sul". Às razões de determinismo geográfico alinhadas acima pelo historiador luso, acrescentaremos nós motivos importantes de ordem politica. Bastaria ler-se as instruções contidas nas cartas de Pombal ao seu irmão capitão-general Furtado de Mendonça para entender-se a profundidade e o alcance da conceção geopolítica de Lisboa, marcada pela constante preocupação com a extensão territorial de sua colônia sul-americana, logo manifestada já quando a diplomada portuguesa conseguiu do papa Alexandre VI a remoção para oeste do primeiro meridiano demarcador da linha que seria a fronteira entre os domínios de Lisboa e Madrid.

Analisando-se o resumo das cartas pombalinas a que nos referimos antes, delas extraímos a nítida estratégia geopolítica amazônica de Portugal, em meados do século XVIII:

           ocupar, colocando nomes portugueses, os espaços amazônicos ao norte (capitania do Cabo Norte), noroeste e oeste (rios Negro, Branco e Solimões) e sudoeste (rios Purus e Madeira);

            instalar no rio Madeira um entreposto que assegure a intercomunicação da região amazônica com Cuiabá, ponto extremo do sistema de comunicação com o Sudeste e Sul (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e São Pedro do Rio Grande).

Era a articulação de todo o espaço brasileiro, intercomunicando as três grandes bacias -amazônica, platina e francisquense.

Após a gestão de Mendonça Furtado à frente da comissão demarcadora de limites e também da administração portuguesa no alto rio egro, essas funções passaram a ser exercidas por outro ilustre e dinâmico administrador,

o engenheiro militar Lobo d'Almada, que vinha de ser comandante da Fortaleza de Macapá.

A fim de prosseguir nos trabalhos da comissão de limites, Lobo d'Almada instalou a sede de sua administração no Forte de São Gabriel. Reorganizou o dispositivo militar da região composto essencialmente dos fortes de São José do Rio Negro ou da Barra (hoje Manaus), São Gabriel e São José de Marabitanas. Completou o efetivo dos mesmos com tropa de linha do regimento do Pará.

Continuou os reconhecimentos do rio Negro e realizou a exploração do rio Branco.

Procedeu a minucioso levantamento cartográfico da bacia do rio negro. Foi nomeado governador da capitania de São José do Rio Negro (1787), concluiu os trabalhos demarcatórios da fronteira e transferiu a capital da capitania do Vale de Barcelos para o Forte da Barra (Manaus). Em 1799 Lobo d'Almada falece de febre palustre na Amazónia, onde viveu intensamente e prestou assinalados serviços a Portugal, por 20 anos.

Por três vezes, no decorrer de nossa história, a região amazónica esteve envolvida em conflitos militares internacionais de maior monta. A primeira, a que já nos referimos, em princípios do século XVII, quando o rei Henrique IV, da França, nomeou Daniel de la Touche, conhecido por senhor de La Ravardiêre, (1610). Instalou-se La Ravardiêre no Maranhão, e sua expulsão da área, pelos portugueses, só se deu após sucessivos combates com as expedições comandadas por Jerónimo de Albuquerque (1613) e Alexandre Moura (1615). Ocupando o Maranhão, Alexandre Moura estendeu a vigilância portuguesa até a foz do Amazonas e mais além até o Cabo Norte (Amapá). Mais tarde, como vimos, Francisco Caldeira Castello Branco fundou o Forte do Presépio, na foz do rio, que seria ao mesmo tempo baluarte de defesa no extremo norte e base de exploração do rio. A Fortaleza de Macapá, na margem norte da boca do Amazonas, foi mandada construir pelos portugueses em 1764 e inaugurada em 1782; tinha o objetivo de conter o desejo de expansão dos franceses de Caiena. O ilustre engenheiro militar Lobo d'Almada, que tão valiosos serviços prestou á proteção e ao desbravamento da região amazônica, foi encarregado de concluir as obras da Fortaleza de Macapá e se manteve no seu comando durante cinco anos, sendo, depois, transferido para o comando do alto rio Negro. Em volta do Forte do Presépio nasceu a povoação de Nossa Senhora de Belém.

A segunda contenda internacional na região deu-se por ocasião da transferência da corte portuguesa para o Brasil. D. João VI, chegando ao Rio de Janeiro, em represália à invasão de Portugal pelas forças de Napoleão, enviou uma expedição militar para conquistar a Guiana Francesa. Sob o comando do tenente-coronel Manuel Marques, a expedição organizou-se em Belém; transportada em escunas e bergantins, cerca de 800 homens, escoltados por uma corveta inglesa, desembarcaram em praia próxima de Caiena, atacaram a praça de guerra francesa e a ocuparam após dois dias de luta. Durante oito anos permaneceu Caiena sob administração portuguesa, sendo devolvida aos franceses por força de decisão do Congresso de Paz de Viena. Negociou Portugal essa devolução, à base da confirmação do limite no rio Oiapoque (Convenção de Paris de 1817).

A retirada dos portugueses de Caiena não produziu o arrefecimento das rivalidades na região. Após nossa Independência, herdamos essas rivalidades. O Tratado de Paris (1817) completara o Tratado de Viena (1815) e deveria terminar com as controvérsias diplomáticas, uma vez que confirmava o rio Oiapoque como nossa fronteira com a possessão francesa. Mas, interesses locais e veladas ambições de chancelaria levam os franceses a continuar a contestação dos direitos territoriais brasileiros no grande saliente do Cabo Norte. Segue-se um período entremeado de conflitos no saliente amapaense, o que não esconde a pretensão francesa de levar a sua fronteira até a margem norte da foz. Estes conflitos cobrem todo o período do império e o começo da República. Deles trataremos no próximo item.

A QUESTÃO DO AMAPÁ

Com a criação pela França da Companhia do Cabo Norte, visando explorar as regiões dos rios Amazonas e Orenoco, é fundada a cidade de Caiena (1633). Em represália, o rei da Espanha e Portugal cria a capitania do Cabo Norte, doada a Bento Manoel Parente (1637). Parente tomou posse e fez construir o Forte do Desterro (Almeirim), a fim de guardar os seus domínios contra as pretensões de franceses e também de holandeses, pois ambos disputavam a posse de Caiena. Em 1836, o governador da Guiana Francesa, Laurens de Choisy, comunica ao presidente da província do Pará que resolvera ocupar a região do Amapá, até o rio Araguari. Esta comunicação insólita, procurando reavivar outra vez a velha questão de limites, reguiada desde 1713 pelo Tratado de Utrecht, põe em movimento a diplomacia brasileira. As reclamações do governo brasileiro resultaram na nomeação de uma comissão para demarcar os limites, enquanto o território contestado ficaria neutralizado, governado por estatuto especial, uma espécie de governo binacional, que asseguraria a convivência pacifica dos habitantes de ambas as nacionalidades.

Mas a situação continua cada vez mais controvertida, os franceses ora reivindicam a fronteira no Araguari, ora no Carapaporis, ora no Cassiporé, Cunani e Calçoene. Esquecem-se de que o limite do Oiapoque não era mais matéria diplomática discutível, ou põem em dúvida qual o verdadeiro rio Oiapoque.

Em 1885, os franceses habitantes da região, sob a orientação de Jules Grós, fundam a República do Cunani, abrangendo imensa área do território brasileiro ao sul do Oiapoque. Chegaram a aprovar escudo e bandeira e a designar autoridades diplomáticas. Mais uma vez não vingou essa pretensão.

O conflito maior, entretanto, aconteceu nos primeiros anos da década de 1890, quando o boom do ouro atraiu para a região do Amapá inúmeros aventureiros internacionais ávidos de fortuna fácil.

Quase que simultaneamente ao evento económico e à crise política internacional, ocasionados pela borracha acriana, idéntico fenómeno, nas suas causas políticas e económicas, surge no Amapá. A partir do ano de 1890, a Alfândega de Caiena começa a refletir a importância da produção aurífera da região. Em 1894, essa alfândega registrou uma exportação de 4.835 kg de ouro, da qual o vale do rio Calçoene, em território reconhecidamente brasileiro, concorreu com 2.500 kg. A avidez do ouro agita os negociantes de Paris. Os jornais de Belém do Pará publicam com frequência as estatísticas do ouro brasileiro desviado para a França.

O vale do rio Calçoene começa a se povoar rapidamente; surgem numerosas localidades; os "faiscadores" de ouro e suas famílias usam pepitas de ouro e ouro em pó como moeda para comprar produto bem mais carente

ali -alimento. Ninguém, entre essa população de aventureiros inquietos, quer se dedicar à agricultura. Outros vales da zona contestada revelam-se auríferos -do Calçoene, Cunani, Araguari e Carapaporis. Quase todo o distrito aurífero encontrava-se na zona contestada, que abrangia a área de 260 mil km'. Convém lembrar, aqui, que o direito territorial brasileiro a esta chamada zona contestada estava claramente reconhecido em pelo menos três importantes tratados firmados pelo governo de Paris -Utrecht (1713), Viena (1815) e Paris (1817).

O ano de 1895 marca o auge do boom do ouro do Amapá. Para aí acorrem, além de franceses, aventureiros ingleses e norte-americanos, pretendendo apossar-se da terra.

Dois intrusos, o inglês Hargreaves e o ianque Cordenm, com duas es¬cunas armadas e 60 homens, intentam se instalar no Cunani. Acendem-se as rivalidades entre brasileiros e franceses. O representante do governo francês no Contestado, Eugênio Voissien, proíbe aos brasileiros o acesso à região aurífera. Era o estopim para a luta armada. Começam os brasileiros a se reunir, sob a liderança dos mais capazes, a fim de repelir os abusos de autoridade praticados por monsiellr Voissien. Constitui-se um triunvirato para defender os interesses dos brasileiros da região. Entre os triúnviros destaca-se a figura de líder de Francisco Xavier da Veiga Cabral, mais conhecido por Cabralzinho. Outro nome que se destacou entre os triúnviros foi o do dr. Manoel Gonsalves Tocantins, engenheiro, estudioso de geografia, com grande conhecimento da área contestada.

O triunvirato avoca poderes administrativos, financeiros e militares. Decide que na região do Contestado se respeitará a Constituição do estado do Pará, emite normas visando à proteção dos brasileiros contra a ganância das autoridades francesas, resolve organizar uma milícia. As noticias dessas medidas repercutem em Caiena e desagradam o governador M. Charvein. Ordena Charvein uma represália militar contra o triunvirato brasileiro instalado na vila de Amapá. Envia a canhoneira Bengali, comandada pelo capitão Audibert, na qual embarca cerca de ISO homens sob o comando do capitão Lunier. A tropa de Lunier desembarca na vila de Amapá. Vários choques armados se produzem entre os franceses e os brasileiros, sob o comando de Cabralzinho. Entre os franceses tombam mortalmente feridos o capitão Lunier e o seu substituto no comando, um tenente. Prossegue sangrenta a refrega durante todo o dia. No fim da tarde retiram-se os franceses, arrastando para o navio os corpos de 22 tombados em combate, além de dezenas de feridos. Antes de se retirar, os franceses praticaram vários atas de selvageria, incendiando residências e vitimando mulheres e crianças. Alguns brasileiros foram levados presos e agrilhoados para Caiena, onde foram metidos numa masmorra.

Os sucessos de maio de 1895 incendiaram a imprensa brasileira. Na França, igualmente, repercutem os acontecimentos -é posta em dúvida a autoridade do governador Charvein para ordenar uma unidade da Marinha francesa a praticar atas de hostilidade bélica em território contestado. O governo francês decide substituir Charvein do cargo de governador de Caiena. Francisco Xavier da Veiga Cabral é considerado herói nacional. Poucos anos depois, também em terras amazónicas, no Acre, outro patriota brasileiro receberia a mesma consagração -Plácido de Castro.

As disputas pela fixação da fronteira no Oiapoque podem ser incluídas no quadro de um longo conflito, em duas fases. A primeira começa quando o rei Henrique IV da França, em 1610, mandou que Daniel de La Touche "ocupasse as terras da América, da boca do rio Amazonas até a ilha de Trinidad". Para cumprir esse desiderato, La Touche resolveu se instalar no Maranhão, de onde foram expulsos Jerónimo de Albuquerque e Alexandre Moura; seguiram-se várias tentativas dos franceses de se instalar no rio Amazonas, obrigando os portugueses a construir os fortes do Presépio e de Gurupi. A segunda fase tem início já no século XVIII, após a instalação dos franceses em Caiena; a partir dessa fase, a pretensão francesa foi dominar a margem norte da foz do Amazonas. Somente em 1900, quando da vitória estupenda do barão do Rio Branco, obtendo o laudo favorável ã tese brasileira do árbitro da questão, o presidente da Confederação Suíça terminou o conflito de fronteiras com a França. Foram quase 300 anos de antagonismos, insuflados ora no silêncio das chancelarias, ora no calor da luta armada. A vitória de Rio Branco contou com o suporte extraordinário dos estudos de outro ilustre brasileiro, Joaquim Caetano da Silva, conhecedor profundo da geografia e do direito internacional e que reuniu numa obra admirável, Oyapoqlle et la AlIlazollie, a argumentação técnica e diplomática irrefutável apresentada ao presidente da Suíça a favor da tese brasileira.

Durante esses quase 300 anos de disputas fronteiriças com a França é de se admirar a firmeza e tenacidade contínuas, de sucessivos governos portugueses e brasileiros, na afirmação de nossos direitos territoriais naquela estratégica área da foz do Amazonas.

O governo e a diplomacia brasileiros viram-se a braços com dois conflitos fronteiriços agudos, na última década do século XIX, ambos solucionados pela inigualável inteligência e capacidade do barão do Rio Branco.

Não entendeu o império a política de descentralização administrativa do espaço amazônico herdado da colônia. Declarada a Independência, a nova organização territorial criou um único centro de poder na Amazônia brasileira -a província do Grão-Pará, subordinada ao poder central no Rio de Janeiro. Somente em 1850 foi essa província desdobrada em duas - do Grão-Pará e a recém-criada do Amazonas.

A criação pelo império da província do Amazonas separada do Grão-Pará era uma velha reivindicação dos amazonenses ocidentais. Já em 1797 Lobo d'Almada dirigiu-se à rainha d. Maria I sugerindo a autonomia da capitania, sem subordinação a Belém. Por ocasião do movimento cabanista (1835), os rebeldes ocuparam Manaus, reclamando a autonomia provincial. Vários amazonenses ilustres, durante os anos em que a comarca do rio Negro esteve subordinada à província do Grão-Pará, propuseram incansavelmente sua autonomia, afinal alcançada em 1850.

Durante os 67 anos que durou o império, somente duas formulações territoriais abrangeram a imensa região amazônica brasileira -primeiro a criação da província do Grão-Pará, abrangendo toda a superfície de quase 3 milhões de km', e, depois, o seu desdobramento em duas províncias, do Grão-Pará e do Amazonas, dividindo a área administrativa anterior.

Considerando-se que o poder central do império, situado no Rio de Janeiro, alcançava os territórios do extremo norte com muito menos intensidade que o poder de Lisboa, pois este criara um status político especial para o estado do Maranhão e Grão-Pará e o dividira em capitanias dirigidas por governadores ligados diretamente à Corte, compreende-se por que, durante o império, a região amazônica viveu época de quase abandono e estagnação administrativa. Careceu de divisão territorial adequada às suas dimensões. Aliás, defendendo a criação da província do Amazonas no Senado imperial, assim se manifestou o senador José Saturnino da Costa Ferreira:

A comarca do Rio egro, enquanto foi administrada por governadores, no tempo da monarquia absoluta, prosperou, estabelecimentos comerciais que se achavam em vias de progresso; tal é o fato incontestável provado por documentos oficiais e exatos. Ora, esse fato nos mostra a conveniência de voltarmos ao passado, visto que o passado foi posto à margem, a Comarca do alto Amazonas definhou, e como que desapareceu.

Em 1852, o visconde de Mauá, com apoio de subsídio fornecido pelo governo imperial, criou a primeira empresa de navegação a vapor para operar no rio Amazonas, a Companhia de Navegação e Comércio.

Seguiu-se, em 1858, a promulgação do decreto que declarou livres o comércio e a navegação pelas águas do rio Amazonas, entre O império e a República do Peru. Este decreto foi regulado em 1867, após brilhante campanha desenvolvida por Tavares Bastos, que assim o justificou:

abrindo aos navios mercantes de todas as nações, a navegação pelo rio Amazonas até a fronteira do Brasil, do rio Tocantins até Cametá, do rio Tapajós até Santarém, do Madeira até Borba e do rio Negro até Manaus, no intuito de promover o engrandecimento do Império, facilitando cada vez mais as relações internacionais e animando a navegação e comércio do rio Amazonas e seus afluentes.

Essas medidas coincidiam com o início da era da borracha, realmente, no último quartel do século XIX produziu-se o surto da borracha, provocando uma corrida internacional em busca do latex brasiliensis. Criou-se na região uma grande empresa seringalista, com grandes casas comissárias em Manaus e Belém, estabelecimentos coletores na boca dos afluentes do Amazonas, particularmente nos rios Juruá, Purus e Madeira. Coincidindo com o mito de Eldorado, que veio dar um dom de atração à área dos seringais, ocorreu a grande seca nordestina do ano de 1877, resultando no deslocamento, para a exploração da hévea, de uma população calculada em 300 mil pessoas.

A chegada dessa legião de nordestinos deslocou o eixo da exploração da hévea dos afluentes setentrionais do vale, aos afluentes meridionais, principalmente para as bacias do PUIUS e do Madeira, onde a concentração da árvore do látex era mais densa. Este fato traria a semente da crise internacional que iria se produzir na região, a questão acriana.

Assim, a República chegou na hora em que a Amazônia se levantava economicamente, graças à valorização da borracha, produto crítico da nova indústria que se expandia nos países mais desenvolvidos. Diz-nos Leandro Tocantins (A formação histórica do Acre):

E quem não via, doravante, a borracha como uma necessidade humana, uma coisa que entrava nos hábitos cotidianos, que ia fazer parte insubstituível da complexa engrenagem dos transportes, do delicado aparelhamento cirúrgico, da complicada rede elétrica das cidades? Embora o látex existisse em outros países, era o da Amazônia o escol da família das héveas, a Brasilielsis, o de melhor qualidade, o mais procurado. A Amazônia, ao findar do século XIX, detinha a produção de 65% do produto, e quando se falava em borracha só a da Amazônia adquiria o forte significado do termo. Nova York, Liverpool, Londres, Antuérpia, Hamburgo, Lisboa e Havre converteram-se em importantes mercados gumíferos, adquirindo toda a produção regional.

É fácil imaginar o que representava, na época, a produção da borracha da Amazônia, considerando-se que em 1900, ano crítico do conflito acriano, nossa receita geral de exportação alcançou f: 33 milhões, da qual a goma representava 12,4%, correspondente a f:7,22 milhões, superada apenas pelo café, com 57%. De 1900 a 1910 a participação da borracha cresceu na nossa receita de comércio exterior, sendo que neste último ano atingiu 40% da pauta global de exportação, equivalendo à do café.

O preço da borracha atingiu a sua cotação mais alta no ano de 1910, correspondendo a f:655 a tonelada. No ano de 1930, chegou à sua baixa máxima, f:32/t, e atualmente anda pela média de f:200/t. O volume de produção no ano de 1889 era em média de 21 mil t; cresceu até o ano de 1912, quando alcançou 42 mil t, e a partir dai começou a declinar.

Podemos dizer que os primeiros 25 anos da República assistiram ao apogeu da era da borracha, que se refletiu no surto econômico e social da região amazônica. Manaus e Belém transformaram-se em centros de grande atração comercial. Inúmeras companhias de navegação europeias e norte-americanas estabeleceram linhas de passageiros e de carga que ligavam os principais portos do mundo com os dois portos amazonenses.

Nesse período de euforia econômica sobreveio a crise acriana, criando difícil situação para a diplomacia brasileira.

Em síntese, a questão acriana foi o subproduto da valorização de áreas fronteiriças não demarcadas, alcançadas pelo surto económico da borracha. A fronteira brasileiro-boliviana estava estabelecida pelo Tratado de Ayacucho (1867). Na parte que foi objeto de contestação, dizia o tratado: "da foz do Beni tirar uma paralela da latitude 10" 20', até encontrar as nascentes do Javarino Parecia simples, apenas traçar uma linha geodésica. Mas onde estavam as nascentes do Javari? Qual a sua posição geodésica? Ninguém sabia. em ninguém se interessaria em saber tão cedo, se aquelas paragens Iindeiras continuassem despovoadas e desprovidas de interesse económico. Esta situação, entretanto, estava modificada pelo surto gumífero.

Diz-nos o historiador Leandro Tocantins:

quando bolivianos e brasileiros concluíram, em 1867, o Tratado de Ayacucho, estavam longe de perceber a importância econômica da região que eles delinearam com linhas geodésicas, baseadas em pontos vulneráveis.

Realmente, várias iniciativas de demarcação dessa reta geodésica terminaram sem sucesso. Em 1870, o visconde de Maracaju iniciou o trabalho chefiando a Comissão Brasileira. Não saiu do rio Madeira. Foi substituído pelo barão de Parimá, que não chegou ao fim e suspendeu os trabalhos em 1878. Após, vieram as tentativas do coronel Thaumaturgo de Azevedo e do coronel Cunha Gomes. Quanto à Bolívia, o desinteresse por levar a cabo a demarcação foi maior: nenhum interesse dedicou também aos territórios das bacias do laco, Purus e Acre, intercalados entre os rios Madeira e o Javari, os dois extremos da aludida linha geodésica. Esse desinteresse trazia a marca da incapacidade boliviana em enfrentar com êxito o antagonismo geopolítico que se esboçava -montanha versus planície.

Mais do que desarticulada da Bolívia, a região dos" Ilanos orientales" do Acre, laca e alto Purus estava completamente isolada do país andino. Geograficamente, essa região constituía uma "dependência do Brasil", como reconhecia o barão do Rio Branco.

Entretanto, a prosperidade económica dessa área fronteiriça começou a despertar inquietação na Bolívia. Coube ao general José Manuel Panda, mais tarde presidente da República boliviana, a tarefa de abrir os olhos de seus compatriotas para o abandono daquelas plagas Iindeiras, agora bafejadas por um surto económico e do povoamento brasileiro. Exilado no Beni, o então coronel Panda viajou pela região caucheira, viu com seus próprios olhos a febril atividade extrativa que ali se desenrolava e fez um relatório ao seu governo.

Para se bem avaliar o grau de isolamento entre a Bolivia e a região acriana, basta lembrar-se que Panda, no seu relatório de 1894 (ano em que a produção de borracha, cujo centro de exploração estava no Acre e·alto Purus, alcançava já a cifra de cerca de f,S milhões), descobria com surpresa que esses territórios "remotos e até então desconhecidos para os bolivianos" estavam ocupados por industriais brasileiros.

Após o relatório do coronel Panda, intitulado" Viaje a la regióll de la gama elástica", começam as insistentes gestões diplomáticas bolivianas para a ocupação desses territórios, que, como vimos, não tinham ainda sua fronteira delimitada. Ressurge o problema de demarcação das fronteiras. O ministro plenipotenciário da Bolívia no Rio de Janeiro, d. Frederico Diez Medina, recebe instruções para gestionar a retomada dos trabalhos demarcatórios, suspensos há 17 anos.

Concluídas as negociações com a Bolívia, volta-se nossa diplomacia para os ajustes pendentes na fronteira com o Peru, país limítrofe do Brasil e Bolívia na área contestada. Seriam mais seis anos de negociações.

A crise acriana representou um processo agudo que durou 10 anos, envolvendo nossa diplomacia, nossa política interna e nossa economia. Abrangeu, nesses 10 anos mais críticos, as gestões presidenciais de Prudente de Moraes, Campos Salles e Rodrigues Alves. Passou pelas mãos de quatro chanceleres -Carlos de Carvalho, Dionísio Cerqueira, Olinto Magalhães e Paranhos do Rio Branco.

Produziu no país a mais calorosa polémica política, antes e depois da assinatura do Tratado de Petrópolis. Antes, a contestação sobre a verdadeira linha fronteiriça estabelecida pelo Tratado de Ayacucho -se paralela, reta, diagonal ou oblíqua, sobre sua origem e seu fim. Essa tremenda discussão envolveu o Instituto Histórico e Geográfico, o Instituto Politécnico, a Sociedade Nacional de Geografia, assim como os grandes tribunos e jornalistas da época -Rui Barbosa, Laura Sodré, Serzedelo Corréa, Paula Freitas, Bernardo Sobrinho, Lopes Gonçalves, Paulo de Frontin e Teixeira Mendes. Diz-nos Leandro Tocantins:

Para Rui Barbosa o problema era jurídico. Para Serzedelo Corréa era de mera interpretação do artigo 2" do Tratado de Ayacucho. Para Paula Freitas, matemático, o cálculo da paralela ao invés da oblíqua. Para Teixeira Freitas era de ordem filosófica. Ninguém lembrava que

             o caso do Acre envolvia uma questão geográfica, social, geopolítica. Só Rio Branco, sete anos mais tarde, é que teria a capacidade de sentir o problema, entendendo, com a visão de estadista, o que os seus antecedentes na pasta do Exterior não puderam compreender:

             o impacto das novas forças do povoamento brasileiro.

Depois da assinatura do Tratado de 1903, travou-se outra calorosa batalha verbal a fim de obter o apoio do Congresso. Alguns órgãos da imprensa consideraram esse tratado "uma catástrofe" ou "uma mancha negra na nossa história". Destacaram-se nessa apaixonada discussão Teixeira Mendes, almirante Jaceguai, Lindolfo Serra, Barbosa Lima e Tomás Cavalcante. No Sena¬do, Rui Barbosa e Lauro Sodré destacaram-se no prélio oral contra o ajuste brasileiro-boliviano. Rui Barbosa preferia que o assunto fosse resolvido por arbitragem. Na defesa do tratado também se alinharam grandes tribunos Assis Brasil, Gastão da Cunha, Glicério, Enéas Martins, Cassiano Nascimento, Medeiros e Albuquerque.

Afinal, depois dessa enorme polémica parlamentar e jornalística, o tratado foi aprovado pelo Congresso por 118 votos contra 13. Já havia sido ratificado pelo Congresso boliviano.

Do ponto de vista geopolítico, a questão acriana pode ser sintetizada como uma consequência de fatores de índole económica e índole geográfica incontornáveis. Sendo a geopolítica uma ciência de observação, baseada na experiência histórica, será fácil constatar-se, ao longo da história das nações, a repetição de fenómeno como o que sucedeu no Acre. Ali, quando aconteceu o boom económico da borracha, só o Brasil tinha acesso à região, uma extensão do sistema fluvial amazónico, separada da nação boliviana, com seus núcleos populacionais no altiplano, pela imensa barreira da cordilheira dos Andes, quase intransponível com os recursos da época. Uma das secas cíclicas do Nordeste, a de 1877, fez com que milhares de cearenses fossem atraídos pela promessa da riqueza que a borracha oferecia. A região fronteiriça, não demarcada, encheu-se de nordestinos, cerca de 300 mil, segundo vários autores, onde não havia nenhum boliviano. O nordestino, habituado aos rigores do clima equatorial, adaptou-se à região selvática, enquanto o boliviano, oriundo do altiplano frio e seco, teve maiores dificuldades. Criou¬-se ali um problema político-económico insolúvel, independentemente de a linha fronteiriça estar mais para cá ou mais para lá.

A população brasileira, que se instalou nesses confins até então completamente desabitados, criou uma importante fonte de riqueza, sem ser molestada por ninguém durante 20 anos; mas, de repente, foi intimada a aceitar um estranho poder político e fiscal sobre a área, poder que jamais reconheceu como legítimo. Quando essa população sentiu que não contava com o apoio do governo federal brasileiro, porém era apoiada sub-repticiamente pelas autoridades regionais de Manaus e Belêm, revoltou-se, proclamou no Acre um Estado independente e partiu para a luta armada. Por duas vezes a manu militar expulsou as autoridades bolivianas da região, que ali só haviam conseguido se instalar graças ao apoio militar do governo federal brasileiro -por duas vezes a f10tilha da Marinha de Guerra foi garantir a posse de autoridades bolivianas em Porto AJonso. O Exército do Acre Independente, após derrotar todos os contingentes bolivianos enviados para a região, esteve na iminência de derrotar uma força maior, já cercada, reunida em Porto Rico, no rio Orton, sob comando do presidente da República da Bolívia, coronel Panda, e seu ministro da Guerra, general Ismael Montes. Momentos antes da ofensiva dos acrianos de Plácido de Castro ao reduto boliviano, conseguiu um emissário do general Olímpia da Silveira suspender o ataque, evitando assim um novo complicador no já intrincado conflito tais seriam as consequências de os acrianos virem a derrotar e aprisionar o presidente da República do país adversário.

A Bolívia mostrou-se completamente incapaz de ocupar a região que reivindicava. Não encontrou recursos para superar o fato consumado de a área já estar ocupada pacificamente e transformada em importante manancial económico, quando La Paz descobriu-se e se lembrou de reclamá-la. A Bolívia, como única e final alternativa, resolveu arrendá-la a um sindicato anglo-americano que se encarregaria de explorá-la e ocupar-se de sua segurança. Abria mão o governo boliviano de seus deveres soberanos -administrar e cobrar impostos -para uma chartered Company, do tipo das que os europeus contratavam para explorar suas colónias africanas. Aceitar-se como válido O contrato do governo de La Paz com o Bolivian Syndicate equivaleria a conformar-se com a instalação, no centro da América do Sul, de um poder económico internacional em área exclusivamente dependente do Brasil para sua entrada e saída. A partir dessa situação inaceitável, criada pelo governo boliviano, o chanceler barão do Rio Branco iniciou a negociação da compra do território em litígio, para o que contou com o apoio do governo do Peru, que também temia o surgimento de um poder internacional em suas fronteiras. Essa compra, com pequenas compensações territoriais destinadas a aliviar os brios bolivianos, seria a única solução viável, naquela circunstância crítica, em que nosso governo sustentava uma posição sobre dois fogos -não abandonar os nossos patrícios que à custa de sacrifícios inauditos conseguiram criar uma região de riqueza no Acre, onde a linha de fronteira não era conhecida, e não violar os princípios do direito internacional, dos quais o Brasil sempre se distinguiu como guardião insuspeito. Coube à excecional visão de estadista do barão do Rio Branco encontrar a solução que atendeu aos dois imperativos acima citados: a compra.

Como consequência, do ponto de vista geopolítico, harmonizaram-se a geografia e a economia de uma região integrada. Os 10 primeiros anos desse século assistiram ao maior crescimento da indústria extrativa da borracha amazónica. A partir de 1911, começa o declínio da produção, com o surgimento de novo mercado competidor na Malásia e na Indonésia, onde os ingleses obtiveram êxito nas suas tentativas de plantação e produção, e, também, da descoberta da borracha sintética.

Nossa questão de limites com a Inglaterra está tratada em riqueza de informações nas Obras completas de Joaquim Nabuco, que representou o governo brasileiro no pleito de que foi árbitro o rei Vitório Emanuel III da Itália. O prof. Arthur Reis, em artigo publicado na Revista do Institllto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 235, de 1957, versando sobre "Neutralidade e boa vizinhança no início das relações entre brasileiros e venezuelanos", oferece-nos documentos originais da maior valia histórica sobre a ocupação portuguesa das áreas que foram disputadas pelos governos do Rio de Janeiro e de Londres.

Do ponto de vista geopolítico este pleito pode se resumir no seguinte:

a linha fronteiriça reivindicada pelo governo brasileiro abriria ao nosso país

             o acesso ao vale do Essequibo; a linde pretendida pela Inglaterra asseguraria sua presença na bacia amazónica. A extensão do território contestado era de 30 mil km'. O laudo de 1904, do rei Vitória Emanuel 1Il, representou uma solução salomónica, mas significou para o Brasil uma perda de direitos históricos assegurados desde que os portugueses construíram o Forte de São Joaquim (ainda no século XVIII), na foz do Tacutu, afluente do Branco, e levaram sua influência até o vale do Rupununi, afluente do Essequibo, direito este nunca contestado pelos ingleses até meados do século XIX. O próprio delegado brasileiro, Joaquim Nabuco, em telegrama ao barão do Rio Branco, reconhece que a solução da contenda dada no laudo do rei da Itália representou uma derrota, quando diz: "Somente a Vossa Excelência pode figurar¬-se o que experimentei durante a longa leitura da sentença". Escreve-lhe depois, como amigo: "Pelo prazer que Você teve com os seus laudos calcule

             o meu desprazer".

Há uma lição a se extrair dessa nossa meia derrota ou meia vitória no pleito com a Inglaterra. Antes da vinda para a região do alemão Robert Schomburgk, credenciado pela Royal Geographical Society "para estudar a geografia física e astronómica no interior da Guiana", segundo o pedido de visto no seu passaporte ao ministro do Brasil em Londres, a Corte de Saint James jamais discutiu nossos direitos territoriais.

Desde sua chegada à Vila de Pirara, depois de entrar pelo Essequibo e subir o Rupununi, o "cientista" da Royal Geographical Society começou sua propaganda tenaz contra a reconhecida posição de precedência da ocupação lusa até o vale do Rupununi. Aliou-se ao missionário anglicano Youd, e foi a partir dessa campanha junto às instituições científicas britânicas que o governo de Londres começou a pôr em dúvida os direitos portugueses e depois brasileiros nessa região. Daí surgiu a contestação territorial.

Não se pode encerrar este assunto, sobre o homem da Amazónia, sem uma referência a dois grandes pioneiros, dois autênticos idealistas que se embrenharam na selva no mister de civilizar o índio e dominar a floresta -Couto de Magalhães e Cândido Rondon.

O general Couto de Magalhães tomou a si um assunto deserdado -o índio -em época em que a nossa elite desdenhava como inútil o nosso gentil e só se preocupava com a importância da imigração de europeus para mover o progresso do país. Mereceu, por isto, referências que o procuravam ridicularizar na imprensa, admirando-se "que um homem prático se ocupasse de tais inutilidades". Acreditava Couto Magalhães que através do índio poderíamos, além de desbravar dois terços de nosso território, adquirir 1 milhão de braços aclimatados e utilíssimos. Pós toda a alma nesse esforço de aculturação, para isto julgou importante criar o instrumento indispensável, o estudo da língua indígena. Misto de etnólogo e de linguista, Couto Magalhães escreveu o livro Curso de língua tI/pi, trazendo preciosa contribuição aos estudos indigenistas iniciados pelo padre José Anchieta, como Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil. Vivendo nas selvas amazónicas, junto aos silvícolas, Couto Magalhães estudou profundamente os hábitos e costumes do gentio e os divulgou na sua obra clássica O selvagem, editada em 1876.

No fim do século XIX, continuando a obra anterior, outro sertanista ilustre, o general Cândido Rondon, trouxe valiosa contribuição ao desbravamento do Centro-Oeste e da Amazónia. Durante 40 anos dedicou-se ao trabalho árduo de construir linhas telegráficas que retirassem o interior do Brasil do isolamento. Chefiou a Comissão Telegráfica, encarregada de prolongar o terminal de Uberaba até Mato Grosso e Goiás. Em 1907, o presidente Afonso Pena o nomeou para uma missão, na época, considerada quase insuperável, a de estender as linhas telegráficas de Cuiabá ao Amazonas. Como chefe da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas de Mato Grosso ao Amazonas, penetra na Amazónia ocidental e leva seus fios até Santo António do Rio Madeira, explorando e construindo um picadão de 40 m de largura através de 2.635 km de selva. Mas Rondon não foi apenas um construtor de linhas telegráficas; foi um grande indigenista que nos deixou por herança sua frase célebre: "morrer se preciso for, matar nunca". Seu exemplo nunca permitiu que os participantes da Comissão Construtora revidassem aos inúmeros ataques das tribos habitantes das regiões cruzadas pelos reconhecimentos e trabalhos. Rondon deixou, ademais, valiosas contribuições para o conhecimento de Mato Grosso, Goiás e Amazonas nos setores da botânica, zoologia e mineralogia. Foi um desbravador, um engenheiro, um indigenista e um cientista, inigualável em todos esses aspetos.

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