Opinião

MARCIO MOREIRA ALVES

As Forças Armadas estão presentes em todo o território nacional, desde os mais longínquos sertões até as grandes cidades. Em muitos lugares, especialmente na Amazônia, são a única presença organizada do Estado. Povoados, aldeias e até habitantes isolados dependem delas para a sua sobrevivência, não só em emergências, como também nas rotinas diárias. Por outro lado, seus oficiais aprendem, desde os bancos das academias, a planejar seus movimentos e a transportar objetos de um lado para outro no nosso vasto espaço geográfico. Essa capacidade de execução, reconhecida por todos os ramos do Executivo, traz em si um risco: o de confiar-se às Forças Armadas uma tal quantidade de tarefas diferentes ou até conflitivas com a sua destinação específica, que é a defesa do território nacional. Esse possível acúmulo de tarefas pode reduzir a capacidade operacional das forças, especialmente num período de extrema escassez de recursos, como o que o país enfrenta já há alguns anos.

A maior demonstração da capacidade de logística e de planeamento das Forças Armadas foi dada com a troca da moeda nacional, por ocasião da implantação do Plano Real. Num único dia, os bancos receberam suas cotas da nova moeda em todo o território, do Oiapoque ao Chuí, sem que um só carregamento fosse desviado ou houvesse indício de falta de um real sequer nas conferências de entrega. Dificilmente outro país de território comparável ao nosso conseguiria realizar igual proeza.

A reconhecida capacidade logística dos militares, sua neutralidade político-partidária e a rapidez nas decisões da Justiça Militar, que dificulta a impunidade que campeia na Justiça comum em função das delongas processuais, atribuíram às Forças Armadas uma série de responsabilidades, especialmente no Nordeste. Assim, coube aos militares a organização e a distribuição de água em períodos de seca, neutralizando a influência político-eleitoral na programação dos carros-pipa. Em muitas regiões do agreste e do sertão coube-lhes, ainda, a distribuição de cestas básicas. E há ainda, de forma frequente – se bem que não rotineira – os apelos para que as Forças Armadas colaborem em campanhas de vacinação de crianças, organizadas pelo Ministério da Saúde, em parceria com os governos estaduais e municipais.

É na Amazônia, no entanto, onde mais se destaca a presença social das Forças Armadas. Há, de início, o recrutamento de soldados para as unidades do Exército Brasileiro (EB). O soldo de um soldado é, muitas vezes, a única oportunidade de emprego para os jovens da região. Em consequência, lá se encontram soldados profissionais com trinta anos de idade ou mais, geralmente indígenas ou caboclos, ainda muito próximos das tabas de origem. Os comandantes da Amazônia orgulham-se de comandar as melhores tropas de guerra na selva de todo o mundo. Não é difícil acreditar nessa afirmação quando se presencia a parada de uma unidade amazônica. A alimentação dos quartéis e a obrigatoriedade de exercício físico rapidamente fazem com que os índios desenvolvam sua massa muscular e aumentem a resistência às longas marchas pela selva. Conta-se que um dos grandes prazeres dos veteranos é participar de exercícios na selva comandados pelos jovens oficiais, recém-saídos da Academia das Agulhas Negras, que apressam o passo da marcha e dão-lhes canseiras monumentais.
Uma das mais emocionantes lições de brasilidade que se pode ter é uma viagem num dos dois navios-hospital da Marinha de Guerra, que singram o Solimões e alguns afluentes segundo um cronograma estabelecido com antecedência e comunicado às populações ribeirinhas. Os moradores acorrem aos pontos de atracação, por vezes a vários dias de viagem de suas casas. Como frequentemente lhes é impossível se deslocar para onde exista um hospital, ou mesmo um posto de saúde, a única oportunidade de serem atendidos e tratados é o hospital chegar até eles.

A composição das equipes técnicas do Carlos Chagas e do Oswaldo Cruz é, geralmente, de médicos, farmacêuticos e dentistas recém-formados da reserva não remunerada (RNR), que tratam de ficar em dia com o serviço militar que deixaram de cumprir enquanto estavam na faculdade. As mulheres são voluntárias que, além de prestar serviços às comunidades, procuram enriquecer os seus currículos, melhorando sua empregabilidade. Tratam todos de superar a sua inexperiência com a dedicação e o entusiasmo pela missão que cumprem.
No Exército Brasileiro, as instalações de saúde são colocadas ao serviço da população. O hospital de Tabatinga também atende aos pacientes vindos da cidade vizinha, Letícia, e tem a reputação de ser um dos melhores da Amazônia, capaz de realizar intervenções complexas e, há poucos meses, está conectado a uma rede de informática que permite a seus médicos buscarem o auxílio de especialistas, por meio de teleconferências.
Ainda com relação ao Exército, faz-se mister ressaltar que os quartéis do Programa Calha Norte (PCN) são as únicas presenças do Estado brasileiro na maioria das localidades onde foram implantados. Quando há alguma outra presença do poder público, além dos quartéis, normalmente são postos da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), como em Surucucu e Roraima. Os alojamentos construídos para abrigar pessoal da Polícia Federal e de outras repartições públicas ficaram desertos até hoje.

Nunca é supérfluo lembrar o papel civilizador da Força Aérea Brasileira (FAB) na Amazônia. Foram os pioneiros da aviação que, com os seus Catalinas, tornaram possível a sobrevivência de muitos núcleos populacionais em lugares remotos. Um exemplo eloquente encontra-se na entrada do refeitório do grande colégio dos irmãos salesianos no povoado de Yauaretê, localizado na fronteira com a Colômbia. Essa entrada é adornada por duas pinturas: o Coração de Jesus e, a seu lado, o retrato do brigadeiro Protásio, que, juntamente com o brigadeiro Camarão, foram os desbravadores daquelas rotas. O retrato é uma homenagem agradecida das freiras que administram o colégio, que reúne 30 diferentes etnias indígenas que se entendem através da língua comum a todos, o português. Dizem que Protásio e Camarão eram dois pilotos temerários, aventureiros que desobedeceram a todas as regras de segurança dos aviões que pilotavam e, mesmo assim, conseguiram sobreviver.

Hoje em dia, além da continuidade dos vôos da FAB, o Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), integrado ao Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), presta relevantes serviços às instituições amazônicas, tornando disponíveis as informações que colhe sobre o meio ambiente (e incêndios florestais), a contaminação das águas dos rios, a presença de elementos clandestinos em terras indígenas e a invasão do espaço aéreo brasileiro. No entanto, a massa de informações ainda é insuficientemente utilizada pelas instituições civis, inclusive universidades e centros de pesquisa.

CUIDAR DOS JOVENS

A escassez de recursos orçamentários dos últimos anos fez com que as Forças Armadas não pudessem utilizar plenamente a capacidade que têm de cuidar dos jovens em idade de prestar o Serviço Militar Obrigatório (SMO). O número de jovens que recebem dispensa é muito maior do que o que é efetivamente incorporado. Mesmo esses últimos recebem um adestramento incompleto, inclusive com redução do tempo despendido nos quartéis para que se poupe o dinheiro do rancho.

A situação vai mudar com a incorporação de mais 80 mil recrutas neste ano, especialmente nas áreas urbanas carentes. Esses recrutas extras receberão treinamento profissionalizante, o que é perfeitamente possível, dada a experiência das Forças Armadas em formar especialistas, desde profissões mais simples – como a de mecânico de automóveis –, até profissões complexas, como a de controlador de voo e a de especialista em radar. Resta saber se os recrutas extras terão tempo suficiente de incorporação para se beneficiarem dessa experiência. O custo dessa formação é baixíssimo se comparado a cursos equivalentes na sociedade civil.

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